Artigo completo sobre Igreja Nova e Cheleiros: seis séculos como sede de concelho
União das freguesias de Igreja Nova e Cheleiros em Mafra: história de antiga sede concelhia desde 1195, três templos classificados e tradição agrícola da P
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O eco dos sinos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Cheleiros — erguida em 1544 — viaja pela planície ondulada, deslizando sobre os pomares de pereira onde a Pêra Rocha amadurece ao sol de Setembro. A ribeira de Cheleiros murmura entre os montes férteis, cortando a paisagem com um fio de água que brilha quando a luz rasante da tarde atinge os campos cultivados. O ar traz o cheiro a terra batida pelos tratores da Cooperativa Agrícola de Cheleiros — fundada em 1957 — e a folha verde, misturado com o aroma adocicado da fruta que se aproxima da colheita. Na União das freguesias de Igreja Nova e Cheleiros, o presente rural desenrola-se sobre camadas de um passado administrativo que poucos lugares desta dimensão conheceram.
Seis séculos de sede concelhia
Cheleiros foi cabeça de concelho durante mais de 600 anos — um estatuto invulgar para uma povoação desta escala. A Carta de Fora concedida por D. Sancho I em 1195, e confirmada por D. Dinis em 1305, atesta a importância estratégica desta terra medieval onde se armazenava o trigo e se recolhiam os dízimos. O topónimo deriva de 'Chyleyros', evocando os celeiros que justificavam a relevância agrícola da região. Já Igreja Nova deve o nome à construção de um novo templo no século XVI — a Igreja de São Pedro — substituindo uma igreja anterior cujo traço se perdeu no tempo. Quando a reorganização administrativa de 2013 uniu as duas freguesias, juntou também duas memórias distintas num só território de 3706 hectares onde vivem 4693 pessoas, segundo os dados do Censos 2021 do INE.
Três templos de pedra e memória
A Igreja Matriz de Cheleiros — reconstruída em 1544 sobre anterior românica — ergue-se sobre um baixio, rodeada pelos montes que a ribeira atravessa em meandros tranquilos. A sua implantação revela a lógica de ocupação do território: próxima da água, protegida pelas elevações suaves, integrada na paisagem agrícola que a sustentou durante séculos. A poucos quilómetros, a Igreja de Igreja Nova — iniciada em 1560 e ampliada no século XVIII — mantém a arquitectura manuelina que deu nome à povoação. Ambas são classificadas como Imóveis de Interesse Público desde 1977, tal como o Centro de Interpretação de Cheleiros, instalado no antigo jardim-de-infância construído em 1953. Este último espaço preserva a arqueologia e a história milenar destas terras, onde a ocupação humana deixou marcas desde tempos medievais — o Foral de Sintra de 1154 já citava a região.
Fruta, vinho e o caminho dos peregrinos
A Pêra Rocha do Oeste DOP — com produção registada desde 1832 — é o fruto emblemático destes solos férteis. Os pomares estendem-se pelos montes, onde a altitude média de 204 metros e o clima atlântico temperado criam condições ideais para a produção desta variedade de polpa firme e sumarenta. A região vinícola de Lisboa — anteriormente Estremadura até 2009 — completa a paleta agrícola, com vinhas que produzem vinhos brancos e tintos de perfil atlântico. O Caminho de Santiago — Caminho da Costa, com sinalização implementada em 2016, atravessa a freguesia, trazendo peregrinos que caminham entre os campos cultivados, seguindo a antiga rota que liga Lisboa a Santiago de Compostela. O trilho passa entre as duas povoações — 3,2 km de distância — oferecendo vistas sobre a paisagem rural e momentos de silêncio apenas quebrado pelo canto dos pássaros e pelo vento nos ramos das pereiras.
Quotidiano entre montes e ribeira
Com 754 jovens (0-14 anos) e 966 idosos (≥65 anos), segundo o INE 2021, a demografia da freguesia reflecte o equilíbrio precário das comunidades rurais próximas da Grande Lisboa. A densidade de 126 habitantes por quilómetro quadrado permite que o território respire — há espaço entre as casas, entre os pomares, entre as vozes. Caminhar ao longo da ribeira de Cheleiros — percurso pedestre sinalizado pela Câmara de Mafra em 2018 — é percorrer um corredor verde onde a água corre devagar entre salgueiros e canas, onde o frio húmido da manhã se dissipa quando o sol aquece a pedra das margens. Os 21 alojamentos disponíveis — 8 em Cheleiros, 13 em Igreja Nova segundo a Turismo de Portugal 2023 — acolhem quem procura a proximidade de Mafra — 8 km de distância — sem abdicar da quietude rural.
A luz do fim de tarde desenha sombras compridas nos pomares. A ribeira reflecte o céu alaranjado, e o cheiro a terra e a fruta persiste no ar. Quando os sinos tocam novamente — às 19h30, horário que não mudou desde 1952 — o som espalha-se pelos montes férteis como uma confirmação: há lugares onde a continuidade importa mais do que a mudança, onde o ritmo agrícola ainda organiza os dias.