Artigo completo sobre Ramada e Caneças: nascentes que mataram a sede de Lisboa
Conheça a freguesia de Odivelas onde nasceu a água do Aqueduto das Águas Livres e os moinhos antigos
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O vento cheira a terra batida da serra e a feno queimado nos campos que ainda resistem entre os armazéns. É um cheiro que me faz lembrar as tardes de inverno na casa da minha avó, quando ela aquecia o forno a lenha e o fumo saía pela chaminé como um fantasma cansado. Estamos a duzentos e trinta metros de altitude, num planalto que a cidade engoliu mas não conseguiu digerir. A União das freguesias de Ramada e Caneças ocupa quase mil hectares no concelho de Odivelas, mas quem caminha aqui — entre o brilho seco do asfalto novo e os muros de pedra onde o musgo cresce como uma tatuagem verde — sente que há uma camada mais funda, anterior aos prédios, anterior às rotundas, anterior a quase tudo.
Onde o planalto guarda nascentes
Caneças existe como povoação desde 1719, mas a sua importância para a capital é mais antiga do que qualquer registo. As nascentes que brotam aqui alimentaram durante séculos a sede de Lisboa: a água corria para a Mãe de Água Nova, em Carenque, e daí descia pelo Aqueduto das Águas Livres. Ainda hoje, a ribeira de Caneças corre entre muros de betão e ervas daninhas, tão discreta que quase ninguém repara nela. Mas quem passa pela ponte na Rua da Eira, à hora em que as escolas fecham, ouve o barulho da água contra as pedras — um som que não mudou desde que as azenhas moíam cereais e os moinhos de vento giravam nas colinas. Na Amoreira, ainda há um moinho em pé, com as velas partidas, mas o vento continua a rodar à volta dele como um cão que não percebeu que o dono morreu.
Dois nomes, duas vidas, uma fusão
Ramada só se tornou freguesia em 1989, desanexando-se de Odivelas e Loures. Caneças, mais antiga, conquistou o estatuto em 1915. A fusão de 2013 não apagou as diferenças: basta atravessar a EN250 para sentir a mudança. Em Caneças, o café "O Zé" ainda serve o café em copos de vidro e o pastel de nata é quente às sete da manhã. Em Ramada, o "Avenida" tem esplanada de plástico e toca música brasileira aos domingos. Com 34.531 habitantes, este é um território urbano — mas de uma urbanidade que ainda respira pelos intervalos: os terrenos vagos onde cresce feno bravo no verão, as quintas com portas rangentes onde um galo canta às seis da manhã, o cheiro a estrume que se mistura com o cheiro a gasolina na Rua Principal.
Cesário Verde e os ares de Caneças
Depois do terramoto de 1755, muitos lisboetas fugiram para estas terras altas, atraídos pelos "ares mais saudáveis". Caneças foi um desses destinos. Cesário Verde viveu no Lugar d'Além — uma zona que ainda hoje tem ruas sem passeios e casas com hortas no quintal. É fácil imaginar o poeta a passar por aqui, com as botas enlameadas, a respirar o mesmo ar seco que corta as faces no inverno. A luz aqui é diferente: mais crua, mais directa, como se o planalto a aproximasse do céu. Nas tardes de inverno, torna-se quase metálica, cortando as fachadas a meio e deixando o resto na sombra fria.
Marmelo, açúcar e paciência
A Marmelada Branca de Odivelas não se parece com a marmelada que se compra no supermercado. É clara, quase translúcida, com uma textura que cede ao dente antes de libertar o sabor adocicado e ligeiramente ácido da fruta. Quem a faz ainda usa tachos de cobre e mexedeiras de pau, virando a mistura durante horas, até o marmelo perder a cor. Na fábrica da Rua dos Combatentes, a D. Alice diz que o segredo é "não ter pressa e não ter medo de queimar os dedos". Prová-la aqui, quentinha, com um naco de pão de milho, é perceber que algumas coisas só sabem bem no sítio onde nasceram.
O caminho que continua
O Caminho de Torres passa por aqui, mas quase ninguém repara. Os peregrinos cruzam com os miúdos que vão para a escola, com as mães que empurram carrinhos de bebé, com os velhos que jogam Sueca no café. Há quinze albergados na freguesia — desde apartamentos mobilados a quartos em casas de família. O "Casa do Avô" tem paredes de pedra e um gato preguiçoso que dorme na cadeira da entrada. A dona, a D. Fernanda, serve pequeno-almoço com pão caseiro e doce de tomate que fez no dia anterior.
A freguesia tem dois monumentos nacionais — a Igreja Matriz de Caneças e o Palácio do Conde de Penafiel — e uma população que se divide entre 5.600 jovens e 6.500 idosos. É um equilíbrio que se nota nas ruas: os bancos de jardim ocupados ao fim da manhã, os parques infantis que ganham vida ao fim da tarde, os adolescentes que fumam escondidos atrás do pavilhão.
Quem se demora por aqui acaba por reparar numa coisa que não aparece em nenhuma estatística: o som da água. Não é o som óbvio de uma cascata. É um murmúrio subterrâneo, quase imperceptível, que parece vir de baixo do asfalto, das canalizações antigas, da ribeira que insiste em correr. É a mesma água que um dia matou a sede a Lisboa inteira — e que agora corre sem que quase ninguém a ouça, como um segredo que o planalto guarda para si.