Vista aerea de União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Lisboa · CULTURA

Agualva e Mira-Sintra: água branca sob asfalto denso

Freguesia de Sintra onde 41 mil habitantes vivem entre ribeiros escondidos e vistas para a serra

41 323 hab.
176.3 m alt.

O que ver e fazer em União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra

Património classificado

  • MNAnta de Agualva

Produtos com Denominação de Origem

Áreas protegidas

Festas e romarias em Sintra

Junho
Festa de São Pedro 29 de junho festa popular
Festival de Sintra Junho e julho festa popular
Agosto
Festa da Nossa Senhora da Estrela 15 de agosto festa religiosa
Setembro
Romaria de Nossa Senhora da Penha Primeiro domingo de setembro romaria
ARTIGO

Artigo completo sobre Agualva e Mira-Sintra: água branca sob asfalto denso

Freguesia de Sintra onde 41 mil habitantes vivem entre ribeiros escondidos e vistas para a serra

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O autocarro 125 trava na rotunda de Agualva e a porta abre-se para um rumor constante — não é trânsito, embora o trânsito exista e pulse com a cadência de quarenta e mil habitantes a despejar-se para Lisboa. É água. Corre debaixo do Lidl, faz-se esgoto na Estrada da Pêra, mas ainda se sente nos dias de chuva quando as sarjetas transbordam e as crianças brincam aos barcos de papel na Rua dos Lusíadas. Agualva, Aqua Alba — a água branca que deu nome à terra ainda percorre canos obsoletos e deságua na Póvoa de Santa Iria, mas antes de chegar lá rega hortas clandestinas que persistem entre os prédios da Câmara Municipal.

Do outro lado da linha, em Mira-Sintra, o miradouro é o muro do Jardim da Estação. Lá de cima, por entre os fios da CP, vê-se a serra empacotada em nevoeiro — o mesmo nevoeiro que cheira a eucaliptos queimados quando o vento vira norte. A densidade é tal que os prédios se tocam, mas há sempre uma janela virada para Sintra onde alguém pendura a roupa a secar e, sem querer, contempla o palácio da Pena espetado no cume como um ex-voto.

Raízes sob o asfalto

A fusão de 2013 apenas oficializou o que as pessoas já faziam: atravessar a linha para comprar pão na pastelaria do Zé, levar o miúdo ao hospital de Agualva, apanhar o 433 em Mira-Sintra quando o 125 falha. A história é mais antiga: na Rua da Igreja Velha ainda há um muro de pedra com cáries de xisto onde os velhos dizem que existiu um castejo visigótico — ninguém o escavou, mas os miúdos encontram lá moedas romanas de cobre que trocam por bolas de Berlim.

A urbanização chegou de camioneta: primeiro as casas da Câmara nos anos 70, depois as cooperativas de desempregados, depois os bancos que financiavam 100% aos funcionários públicos. Sobrou a Quinta do Pinheiro, agora cercada de gradil e cães da PSP, mas ainda produz pera Rocha que cai por cima do muro e desaparece dentro de mochilas escolares.

O monumento e a moldura

O Monumento Nacional é a Igreja de São Miguel de Mira-Sintra — uma coisa pequena, manuelina, que o pessoal da terrinha chama "a capela" e onde se casam por pena quem não tem dinheiro para Sintra. O verdadeiro monumento é o Pastelão: um pão de Deus grande como um cesto, que a dona Alda faz desde 1978 e que se vende quente às 7h30, antes do primeiro 125 abarrotado.

O parque natural começa onde termina a rotunda do Taco: basta subir o atalho ao lado do cemitério, passar o portão que está sempre partido, e o cheiro muda — deixa de ser fritura e passa a ser folha em decomposição. Atrás do bairro 1.º de Maio há um pinhal onde os adolescentes fumam os primeiros charros e deixam pegadas de Adidas na terra vermelha.

Vinhas, peras e o caminho dos peregrinos

A vinha já só existe na cabeça do Sr. António, 87 anos, que guarda garrafas de 1995 num anexo da cave — vinho branco que fazia com uvas de Ramilândia, antes de lá construírem o Intermarché. Agora bebe-o aos fins-de-semana com o neto, falando de quando a colheita era festa e se pagava ao canteiro com sardinha e vinho tinto da falua.

A Pêra Rocha sobrevive em dois pomares: um na quinta abandonada atrás do estaleiro, outro nos fundos da Escola Básica 2,3 de Agualva, onde os miúdos aprendem a fazer compota com a professora de Tecnologias. Ainda se sente o cheiro a pera madura em agosto, quando o vento vira sul.

O Caminho de Santiago passa por baixo da ponte da A16 — há uma seta amarela pintada no túnel que os carros atropelam diariamente. Os peregrinos param no café O Pingo a beber um galão e perguntam se ainda falta muito. "Até Compostela? Ainda vai no princípio, meu amor." O café tem um caderno onde deixam mensagens: "Voltarei de avião", escreveu uma alemã em 2019.

Viver a sete mil por quilómetro quadrado

É isto: filas no centro de saúde às 7h da manhã, festas de aniversário no pavilhão que cheiram a mochos de vinagre, o talho que fecha às 19h porque o Zé tem de apanhar o comboio para o Estoril onde agora mora. Há sete bares com máquinas de futebol de praça, dois cemitérios — um deles novo, ainda com espaço — e um parque infantil onde as mães se juntam às 16h30 para falar da professora que não dá intervalo.

O 125 é a artéria: leva 42 minutos até ao Rossio se não houver acidente na A5, 25 se apanhar o expresso das 7h58. Quem se esquece do bilhete paga 45 euros à porrada, por isso metade das pessoas tem passe e a outra metade finge que tem.

O que fica

Quando o sol se põe atrás do prédio das Finanças, a luz entra pela janela da cozinha e acende o gesso novo do teto. A serra fica roxa, como se alguém tivesse desligado a cor lentamente. A água — essa — continua a correr debaixo da rua, inaudível, mas presente quando a cisterna do prédio antigo rebenta outra vez e inunda a garagem. É a Aqua Alba que insiste: não é rio, não é lenda — é apenas a terra a lembrar que esteve aqui primeiro, e que aguarda o dia em que as máquinas parem e a água volte a ser vista, clara como o nome.

Dados de interesse

Distrito
Lisboa
Concelho
Sintra
DICOFRE
111122
Arquetipo
CULTURA
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola secundária e básica
Habitação~2014 €/m² compra · 9.32 €/m² renda
Clima17.2°C média anual · 590 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

45
Romance
65
Familia
50
Fotogenia
45
Gastronomia
45
Natureza
50
Historia

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Perguntas frequentes sobre União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra

Onde fica União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra?

União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra é uma freguesia do concelho de Sintra, distrito de Lisboa, Portugal. Coordenadas: 38.7762°N, -9.2957°W.

Quantos habitantes tem União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra?

União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra tem 41 323 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra?

Em União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra pode visitar Anta de Agualva. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra?

União das freguesias de Agualva e Mira-Sintra situa-se a uma altitude média de 176.3 metros acima do nível do mar, no distrito de Lisboa.

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