Artigo completo sobre Agualva e Mira-Sintra: água branca sob asfalto denso
Freguesia de Sintra onde 41 mil habitantes vivem entre ribeiros escondidos e vistas para a serra
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O autocarro 125 trava na rotunda de Agualva e a porta abre-se para um rumor constante — não é trânsito, embora o trânsito exista e pulse com a cadência de quarenta e mil habitantes a despejar-se para Lisboa. É água. Corre debaixo do Lidl, faz-se esgoto na Estrada da Pêra, mas ainda se sente nos dias de chuva quando as sarjetas transbordam e as crianças brincam aos barcos de papel na Rua dos Lusíadas. Agualva, Aqua Alba — a água branca que deu nome à terra ainda percorre canos obsoletos e deságua na Póvoa de Santa Iria, mas antes de chegar lá rega hortas clandestinas que persistem entre os prédios da Câmara Municipal.
Do outro lado da linha, em Mira-Sintra, o miradouro é o muro do Jardim da Estação. Lá de cima, por entre os fios da CP, vê-se a serra empacotada em nevoeiro — o mesmo nevoeiro que cheira a eucaliptos queimados quando o vento vira norte. A densidade é tal que os prédios se tocam, mas há sempre uma janela virada para Sintra onde alguém pendura a roupa a secar e, sem querer, contempla o palácio da Pena espetado no cume como um ex-voto.
Raízes sob o asfalto
A fusão de 2013 apenas oficializou o que as pessoas já faziam: atravessar a linha para comprar pão na pastelaria do Zé, levar o miúdo ao hospital de Agualva, apanhar o 433 em Mira-Sintra quando o 125 falha. A história é mais antiga: na Rua da Igreja Velha ainda há um muro de pedra com cáries de xisto onde os velhos dizem que existiu um castejo visigótico — ninguém o escavou, mas os miúdos encontram lá moedas romanas de cobre que trocam por bolas de Berlim.
A urbanização chegou de camioneta: primeiro as casas da Câmara nos anos 70, depois as cooperativas de desempregados, depois os bancos que financiavam 100% aos funcionários públicos. Sobrou a Quinta do Pinheiro, agora cercada de gradil e cães da PSP, mas ainda produz pera Rocha que cai por cima do muro e desaparece dentro de mochilas escolares.
O monumento e a moldura
O Monumento Nacional é a Igreja de São Miguel de Mira-Sintra — uma coisa pequena, manuelina, que o pessoal da terrinha chama "a capela" e onde se casam por pena quem não tem dinheiro para Sintra. O verdadeiro monumento é o Pastelão: um pão de Deus grande como um cesto, que a dona Alda faz desde 1978 e que se vende quente às 7h30, antes do primeiro 125 abarrotado.
O parque natural começa onde termina a rotunda do Taco: basta subir o atalho ao lado do cemitério, passar o portão que está sempre partido, e o cheiro muda — deixa de ser fritura e passa a ser folha em decomposição. Atrás do bairro 1.º de Maio há um pinhal onde os adolescentes fumam os primeiros charros e deixam pegadas de Adidas na terra vermelha.
Vinhas, peras e o caminho dos peregrinos
A vinha já só existe na cabeça do Sr. António, 87 anos, que guarda garrafas de 1995 num anexo da cave — vinho branco que fazia com uvas de Ramilândia, antes de lá construírem o Intermarché. Agora bebe-o aos fins-de-semana com o neto, falando de quando a colheita era festa e se pagava ao canteiro com sardinha e vinho tinto da falua.
A Pêra Rocha sobrevive em dois pomares: um na quinta abandonada atrás do estaleiro, outro nos fundos da Escola Básica 2,3 de Agualva, onde os miúdos aprendem a fazer compota com a professora de Tecnologias. Ainda se sente o cheiro a pera madura em agosto, quando o vento vira sul.
O Caminho de Santiago passa por baixo da ponte da A16 — há uma seta amarela pintada no túnel que os carros atropelam diariamente. Os peregrinos param no café O Pingo a beber um galão e perguntam se ainda falta muito. "Até Compostela? Ainda vai no princípio, meu amor." O café tem um caderno onde deixam mensagens: "Voltarei de avião", escreveu uma alemã em 2019.
Viver a sete mil por quilómetro quadrado
É isto: filas no centro de saúde às 7h da manhã, festas de aniversário no pavilhão que cheiram a mochos de vinagre, o talho que fecha às 19h porque o Zé tem de apanhar o comboio para o Estoril onde agora mora. Há sete bares com máquinas de futebol de praça, dois cemitérios — um deles novo, ainda com espaço — e um parque infantil onde as mães se juntam às 16h30 para falar da professora que não dá intervalo.
O 125 é a artéria: leva 42 minutos até ao Rossio se não houver acidente na A5, 25 se apanhar o expresso das 7h58. Quem se esquece do bilhete paga 45 euros à porrada, por isso metade das pessoas tem passe e a outra metade finge que tem.
O que fica
Quando o sol se põe atrás do prédio das Finanças, a luz entra pela janela da cozinha e acende o gesso novo do teto. A serra fica roxa, como se alguém tivesse desligado a cor lentamente. A água — essa — continua a correr debaixo da rua, inaudível, mas presente quando a cisterna do prédio antigo rebenta outra vez e inunda a garagem. É a Aqua Alba que insiste: não é rio, não é lenda — é apenas a terra a lembrar que esteve aqui primeiro, e que aguarda o dia em que as máquinas parem e a água volte a ser vista, clara como o nome.