Artigo completo sobre Algueirão-Mem Martins: da estação de 1887 à serra
Conheça Algueirão-Mem Martins, em Sintra, Lisboa: história ferroviária centenária, 68 650 habitantes e a proximidade constante do maciço serrano.
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O comboio pára em Algueirão e a primeira coisa que se nota é o cheiro — não é bem terra, não é bem cidade. É aquela humidade que desce da serra e mistura-se com o café da estação. A cobertura de 1887 ainda lá está, rangendo quando o sol bate, e se fores atento ouves a ribeira a correr lá em baixo, mesmo ao lado do parque de estacionamento. São 200 metros de altitude e 68 mil vizinhos empilhados num espaço onde cabiam, à larga, três aldeias.
O nome que vem dos cavalos
"Algueirão" vinha dos cavalos de aluguer que trocavam de cavaleiro aqui antes de subir a serra. Dizem que em 1382 já se chamava "Logueram" — portanto, o transito é hábito antigo. Mem Martins vem de um Martim qualquer que por aqui teve terra nos séculos XIII-XV. A linha de 1887 é que mudou tudo: veio o comboio, depois vieram as primeiras electricidade e depois vieram os blocos. Entre 1970 e 1990 construiu-se como se o país fosse acabar amanhã. Hoje há 4 300 pessoas por km²: nota-se na fila do talho, no trânsito da EN9 e na alegria de arranjar lugar no café de manhã.
Igrejas que sobrevivem à pressão
A paróquia de Mem Martins tem retábulos barrocos que foram buscar a ermidas antigas — madeira dourada que parece que vai falar. A capela de S. Sebastião, em Algueirão, é do tamanho de uma loja de frutas, mas no dia da procissão ainda se enche de velas. Sobraram também umas quintas: a da Fonte, o Palacete do Relógio, hão-de lá dentro morar gente, mas só se vê o muro e a buganvília a fugir por cima.
A mata que ainda não desistiu
Do outro lado da linha começa o Parque Natural. O trilho PR4 — 4,5 km — liga a estação ao Convento dos Capuchos e serve para tudo: peregrinos a caminho de Santiago, miúdos aos saltos, pais com carrinhos de bebé a discutir se vai chover. Há sobreiros com marcas de extração, eucaliptos que cheiram a pastilha e, se tiveres sorte, um peneireiro a planar sobre o vale. O Jamor nasce por aqui — dá para segui-lo até à barragem de Belas e ainda encontrar uns pescores ilegais.
O que se come (e bebe) sem ir a Sintra
O mercado abre de terça a sábado: Pêra Rocha entre julho e outubro, queijadas que vêm de Sintra de manhã-cedo, leitão da Negraia nos dias de festa. Há garrafeiras que guardam Ramisco de Colares — é tinto de areia, bebe-se como quem mastiga cortiça, mas depois faz-te companhia o jantar todo. Em novembro há São Martinho: castanhas na porta da igreja, vinho novo que ainda está a acabar o mês passado.
Quando o céu ainda serve para alguma coisa
No campo de futebol de Mem Martins, certas sextas-feiras, o pessoal do Clube de Astronomia monta uns telescópios e aponta para cima. A silhueta da serra tapa a luz de Lisboa e, se não houver nevoeiro, vê-se Júpiter como um brilhante. Levas 15 minutos de comboio até ao Palácio da Pena — mas daqui também se vê a torre, lá no alto, a fingir que é outro país.
Quando o sol se põe e a estação esvazia, o subúrbio abranda. Fica o ranger da cobertura, o cheiro a eucalipto e a certeza de que, por muito betão que se ponha, a serra ainda é patroa disto tudo.