Artigo completo sobre Almargem do Bispo: pedra romana e leitão da serra
Descubra Almargem do Bispo, Sintra: freguesia com necrópole romana classificada, tradição do leitão assado e ligação histórica ao Bispo de Lisboa.
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O sino da Igreja de São Miguel bate uma vez, duas, e o eco dissolve-se entre os muros de cal. São oito e meia de um sábado qualquer — o suficiente para o café Diana já ter as mesas postas fora e o Zé do Leitão a preparar os assadores. A estrada que corta a freguesia é a antiga 117, a mesma que os romanos usavam para levar azeite e trigo ao Tejo. Hoje tem passadeiras e sinalização nova, mas a direcção é a mesma de há dois mil anos.
A terra que um bispo ganhou numa troca
Em 1277, D. Afonso III entregou estas terras ao Bispo de Lisboa para agradecer uns favores ou resolver umas dívidas — as crónicas não explicam bem. O nome árabe al-margem (terra junto à água) ficou colado ao "do Bispo" e ninguém se lembrou de mudar. Durante séculos, o que se plantava aqui pagava dízimo à Igreja e o que se morria enterrava-se no adro da igreja. Ainda hoje, quando abrem uma valeta para a canalização, aparecem moedas romanas e ladrilhos de 1700.
O que vale a pena ver (sem ser o óbvio)
A Igreja Matriz de São Miguel tem um retábulo que merece cinco minutos de silêncio — não é grande coisa, mas tem uma talha maneirista que os americanos fotografam como se fosse o fim do mundo. A Fonte dos Pisões, a cinco minutos a pé, é onde as avós ainda vão encher garrafões — a água é boa e o sítio tem aquela paz de quem não está no Instagram.
No Casal do Rebolo há uma necrópole romana que nem sempre está aberta, mas basta pedir à D. Lurdes que tem a chave. Ela explica logo que os ossos lá enterrados são de gente que já rezava aos deuses e aos santos, numa altura em que ainda ninguém sabia se ia para o céu ou para o Târtaro.
Onde comer sem cair na armadilha
O leitão do Zé é bom, mas o segredo é telefonar antes — ele só mete no forno o que vai vendendo. A chanfana do restaurante O Serga, na estrada para Pêro Pinheiro, é feita com bode velho e vinho tinto de talha. Leva pão alentejano para molhar e não penses em conduzir depois.
Se for domingo e estiver sol, aparece sempre uma tasca improvisada no adro da igreja — sardinhas assadas, vinho branco de garrafão e aquela conversa que só acaba quando o padre vem fechar a porta.
A romaria de quem já cá está
A 29 de Setembro, São Miguel, a freguesia enche-se de gente que vem de Lisboa de férias obrigatórias. Há arraial, bola de berlim e um carrossél que o meu primo diz ter os mesmos cavalos de 1987. Uma semana antes, a festa da Piedade é mais discreta — distribuem pão bento depois da missa e as velhas ainda fazem concorrência a ver quem leva o melhor.
Como chegar e porquê
Vem pela A37, sai em Pêro Pinheiro e segue as placas para Bucelas. Quando começares a ver sobreiros e a perder rede no telemóvel, já lá estás. Almargem não tem vistas de cartão postal nem lojas de recordações — tem aquilo que o resto de Sintra já perdeu: tempo para ouvir a água a correr e os vizinhos a discutir sobre o futebol.
Se vieres, traz sapatos para caminhar e fome de leitão. E não te esqueças de desligar o telemóvel — aqui o GPS até funciona, mas perde-se a piada.