Artigo completo sobre União das freguesias de Massamá e Monte Abraão
Quarenta e oito mil habitantes vivem nesta freguesia de Sintra entre história árabe e modernidade
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O comboio da linha de Sintra abranda e o ar que entra pela janela entreaberta traz consigo o cheiro morno do betão aquecido pelo sol de fim de tarde. Nas plataformas, o fluxo de gente move-se com a cadência de quem conhece cada degrau de cor — passos rápidos sobre o cimento gasto, o arrastar metálico das portas automáticas, o silêncio breve entre uma composição que parte e outra que se anuncia ao longe. Estamos a pouco mais de vinte minutos de Lisboa, mas já a 166 metros de altitude, num planalto onde o horizonte se abre para leste e se consegue, em dias límpidos, distinguir a mancha azulada do Tejo ao fundo. Esta é a União das freguesias de Massamá e Monte Abraão — não um lugar de passagem, como tantas vezes se assume, mas um organismo urbano denso, vivo, com 47 804 habitantes comprimidos em 3,28 km².
Onde a toponímia guarda séculos em sílabas
A palavra Massamá rola na boca com uma sonoridade que não é latina. A hipótese mais aceite aponta para mašmūm ou mašmā, termos árabes que remetem a "terra de cultivo" ou "terra lavrada". O lugar aparece em forais de 1160, outorgados por D. Afonso Henriques aos frades de São Vicente de Fora, como villa de Maxamâ. Monte Abraão, por seu lado, deve o nome a uma ermida levantada em 1593 dedicada ao patriarca bíblico — ainda hoje visível na Rua da Igreja, com retábulo maneirista de talha dourada. A ferrovia chegou em 2 de Abril de 1887, inaugurando a estação que transformou antigos campos de milho em quintais de veraneio para a burguesia lisboeta. A fusão administrativa aconteceu em 2013, juntando duas identidades distintas numa só freguesia. Mas quem caminha do lado de Massamá (junto à estação) para o lado de Monte Abraão (sobre o vale) percebe que as fronteiras burocráticas pouco dizem sobre a textura real dos bairros — os prédios de quatro e cinco andares repetem-se, os cafés com esplanada de plástico acumulam-se nos cruzamentos, e a vida de rua tem uma intensidade que a densidade populacional — 14 574 hab./km² — torna inevitável.
Três monumentos entre o betão
Num tecido tão compactamente urbano, a existência de três imóveis de Interesse Público funciona como respiração histórica. A Quinta da Piedade (séc. XVIII), com o seu coreto de azulejos de padrão pombalino, fica encostada ao Largo 25 de Abril. O Palácio do Correio-Mor (séc. XVI/XVII), classificado em 1957, ergue-se atrás de muros de pedra de lioz na Rua do Rio — hoje sede da Junta de Freguesia. O Casarão da Rua Dr. Sousa Rosa (séc. XIX) lembra que aqui viveu, entre 1941 e 1944, o pintor Manuel Lapa, que aqui executou a série "Paisagens de Massamá". A Paisagem Cultural de Sintra, inscrita pela UNESCO em 1995, estende a sua zona tampão até ao limite sul da IC19, recordando que esta freguesia não existe isolada — faz parte de um sistema paisagístico e cultural mais vasto, onde o Parque Natural de Sintra-Cascais começa a impor os seus limites de protecção ambiental mesmo à beira do asfalto.
A Pêra Rocha e o vinho que já não se vê
A agricultura que outrora definiu Massamá deixou um eco nos produtos que a região ainda certifica. A Pêra Rocha do Oeste, com DOP desde 2003, nasceu em fincas que hoje ocupam o hipermercado Alegro e o estádio do Real SC. O último vinhedo desapareceu em 1982, quando a família Cortes vendeu a quinta onde se produzia vinho tinto de pisão para a construção da Zona Habitacional do Alto do Moinho. Restam, contudo, duas videiras centenárias de casta Ramisco encostadas ao muro da antiga adega da Quinta da Fonte — espécime vivo da comarca de Colares que chegou até aqui. A memória persiste na toponímia: Rua da Eira, Travessa da Vinha, Largo do Moinho.
Quarenta e oito mil e o peso da densidade
Os dados do INE 2021 contam uma história própria: 6455 crianças (0-14 anos), 9091 seniores (≥ 65 anos), 31 258 activos (15-64 anos). A dependência é de 53 idosos por cada 100 activos — acima da média nacional (37), mas as escolas públicas mantêm-se cheias: EB1 de Massamá com 512 alunos, EB2,3 de Monte Abraão com 654. A logística do quotidiano é simples — 3,3 km até ao nó da A37, 18 minutos de comboio até ao Rossio (horário 2023). A rede Vimeca/Scotturb cobre 8 linhas internas com passagem de 15 minutos nas horas de ponta. Dos 27 estabelecimentos de alojamento legalizados, 18 são apartamentos para arrendamento temporário — a maioria na plataforma Airbnb, com preço médio de 62 €/noite (dados SRE 2022).
O Caminho de Santiago, na variante da Costa, atravessa esta geografia. Entra pela Rua da Misericórdia, sobe a Rua do Rio, passa em frente ao café O Padrão — onde se servem pastéis de Chaves desde 1987 — e segue pela ciclovia do Jamor até à ponte de Queluz. É uma passagem discreta — o peregrino cruza a malha urbana sem cerimónia, trocando o silêncio dos campos por um corredor de prédios onde, às 19h30, a janela aberta do rés-do-chão deixa escapar o Jornal das 8 e o cheiro de sardinhas na grelha.
O planalto que não pede licença
Massamá e Monte Abraão não se oferecem à contemplação fácil. Não há miradouros assinalados, não há fachadas revestidas de azulejo a pedir fotografias. O que há é uma vida densa, concreta, que se manifesta no ruído constante das obras da Segunda Circular que nunca terminam, no ranger dos carrinhos de compras do Pingo Doce sobre o passeio irregular de lajes de calçada portuguesa que resistem desde 1976, no calor que irradia das fachadas de tijolo marra ao início da noite de Verão. É uma freguesia que se lê nos detalhes pequenos: a acácia-de-três-espinhos que sobrevive no largo do Chafariz entre os blocos habitacionais do bairro 9 de Abril, o grito de uma criança no recreio da EB1 onde, em 1983, se filmaram cenas da telenovela A Banqueira, a luz alaranjada que, ao pôr do sol, transforma por breves minutos o edifício Montepio numa superfície quase dourada.
Depois, a noite desce sobre o planalto e a densidade humana traduz-se numa constelação de janelas iluminadas — milhares delas, empilhadas umas sobre as outras, cada uma contendo um mundo inteiro. É esse o último som antes de adormecer aqui: não o silêncio da serra que se adivinha a norte, mas o zumbido baixo e constante de quarenta e oito mil respirações a 167 metros de altitude, suspensas entre Lisboa e Sintra, sem pertencer inteiramente a nenhuma das duas.