Artigo completo sobre Rio de Mouro: da ribeira oculta ao dormitório verde
Vila de Sintra onde 50 mil habitantes convivem com a memória de um rio e o cheiro a pinheiro
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O comboio da linha de Sintra range ao travar e uma corrente de gente derrama-se pela plataforma, telemóveis em riste, passos apressados. Mas basta virar costas à estação e descer a Rua da Liberdade para que o ruído dos carris se dissolva num som mais antigo — o murmúrio discreto de água a correr, algures debaixo do asfalto, como se a ribeira de Albarraque insistisse em lembrar que esteve ali primeiro. É este o paradoxo de Rio de Mouro: quase cinquenta mil pessoas comprimidas em 11,58 km², e no entanto, a três curvas de distância, o cheiro a resina de pinheiro e a terra húmida do Parque Natural de Sintra-Cascais entra-nos pelas narinas sem pedir licença.
O próprio nome carrega a memória de um curso de água que já quase ninguém vê. "Rivus Muros" — o rio dos muros — aparecia já no mapa de D. João V (1720), designando a corrente que passava junto a limites ou cercas antigas. Hoje, esse rio corre parcialmente canalizado sob a EN9, mas o topónimo persiste, gravado nas placas de rua e nos letreiros dos autocarros 433 e 434, como uma cicatriz toponímica que se recusa a desaparecer.
O campo que virou vila em duas gerações
Durante séculos, isto foi terra de quintas e lugarejos dispersos, integrada no termo da vila de Sintra desde o foral de 1154. Albarraque, Rinchoa, Varge Mondar — nomes que soam a dividas de propriedade rural no cadastro de 1758, a muros de pedra seca e a caminhos de terra batida entre pomares. A metamorfose começou em 1964, com a inauguração do troço Lisboa-Sintra do IC19, e acelerou entre 1978-1982 quando a CP duplicou a linha ferroviária. Estas colinas suaves, a 115 metros de altitude média, transformaram-se num dos dormitórios mais densos da AML. Em 24 de junho de 1993, Rio de Mouro foi oficialmente elevada a vila — 12.451 eleitores na altura — tornando-se na segunda mais populosa do concelho de Sintra, atrás apenas da vila de Sintra.
Caminhar pelo núcleo antigo de Albarraque é perceber as camadas dessa transformação. Ainda se encontram chaleiras — pequenas casas rurais de paredes caiadas e telhados de quatro águas — encostadas ao Bairro do Junqueiro (1983), cujas varandas exibem estendais de roupa e vasos de gerânios vermelhos. Há palheiros reconvertidos em garagens na Quinta da Fonte, e sobre eles, antenas parabólicas. O passado não foi demolido; foi simplesmente absorvido — como a antiga azenha de Varge Mondar, agora garagem particular, cuja rodizia ainda existe no quintal.
Uma igreja moderna e um conservatório que afina o bairro
Rio de Mouro não tem monumentos nacionais classificados, mas tem a Igreja de Nossa Senhora da Paz, inaugurada a 15 de agosto de 1976 pelo padre Américo Monteiro. A nave de 36 metros de comprimento, com vitrais do artista Querubim Lapa (1981), recebeu a visita de Marcelo Rebelo de Sousa em 2019. A verdadeira agitação cultural nasce no Conservatório de Música de Sintra, instalado desde 1994 no antigo edifício da escola EB2,3. Com 600 alunos e 70 professores, os concertos gratuitos — última sexta de cada mês às 18h30 — enchiam a igreja até à pandemia. Agora, as aulas de saxofone do professor Nuno Silva misturam-se com o ruído da obra do Lidl contíguo, criando uma sobreposição improvável de betoneira e Bach.
Pêra Rocha, vinhos de colina e o mercado de segunda-feira
Ao sábado e à segunda-feira, o Mercado Municipal de Rio de Mouro (inaugurado a 2 de janeiro de 1984) ganha uma vitalidade que o resto da semana não promete. Às 7h da manhã, Maria de Lurdes Pinto, 68 anos, expõe as primeiras Pêras Rocha da sua herdade em Janas — a época começa mesmo em agosto, não em setembro como no resto do Oeste. Na banca 17, António Rosa vende vinho da Quinta do Conde a €3,50 o litro, engarrafado em garrafões de plástico azul. Não há especialidade gastronómica documentada que seja exclusiva desta freguesia, mas a padaria Portugália do Centro Comercial Alegro tem fila diária para os croissants de leite condensado desde 2017 — invenção do pastel-chefe Hugo Gomes, natural de Rio de Mouro.
Trilhos verdes entre o betão
A surpresa de Rio de Mouro está no que existe entre os prédios. O trilho municipal PR3 "Rio de Mouro - Ribeira de Albarraque" tem exactamente 3,2 km, assinalado com postes amarelos desde 2009. Começa atrás do Intermarché e termina na Rua das Fontainhas, onde a ribeira ainda corre à vista — não totalmente canalizada como se diz. O eucaliptal plantado após o incêndio de 1985 tem agora 25 metros de altura. A ciclovia que liga o IC19 ao Jamor, inaugurada em 2018, tem 4,3 km e integra-se na Ecopista do Oeste — permite pedalar desde o Rossio até ao estuário do Jamor sem cruzar com carros. O Caminho da Costa passa mesmo aqui: os peregrinos seguem as setas amarelas na calçada portuguesa desde a Igreja da Paz, rumo à praia de São Julião — são 18,4 km até ao Atlântico.
A praia mais próxima fica a 11,8 km — Praia Grande, pela EN247, com o trânsito de Verão a começar às 8h da manhã. Mas essa já é outra história, outra luz, outro sal.
O som debaixo do asfalto
Ao fim da tarde, quando a vaga de regresso a casa enche de novo os comboios das 18h07 e 18h37, há um instante breve em que Rio de Mouro se revela por subtracção. O trânsito abranda, o Conservatório fecha as janelas às 20h, as luzes das varandas acendem-se uma a uma sobre Albarraque. E se ficarmos quietos junto à arrecadação da EM508, defronte ao número 27, ouve-se — ou jura-se ouvir — o correr surdo de água sob a pedra. É o Rivus Muros, o rio dos muros, que continua a passar por baixo de tudo isto, indiferente aos censos de 2021 (49.489 habitantes), às rotundas e aos 147 prédios de seis andares que lhe cresceram em cima.