Artigo completo sobre Campelos e Outeiro: onde o barro molda a identidade
Olarias centenárias e linha férrea histórica definem a paisagem desta união de freguesias
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O apito do comboio corta a tarde. Sobe-se a encosta da estação do Outeiro e cheira-se a barro queimado: são as olarias a trabalhar. Campelos e Outeiro da Cabeça somam 3 795 habitantes, oliveiras e pomares de pera-rocha a 80 m de altitude. A linha do Oeste divide-as ao meio.
Dois lugares, uma história ferroviária
Outeiro da Cabeça começou como paragem de abastecimento em 1887. Os trabalhadores da linha ficaram, ligaram os fornos e descobriram que o barro local servia para telhas e tijolos. Ainda há quatro olarias a funcionar; duas aceitam visitas sem marcação se não estiverem em queima. A estação mudou de nome três vezes; em 1984 passou a ser só “Outeiro”.
Campelos cresceu à beira da antiga Estrada Real Lisboa-Porto. A igreja de Santo António é de 1910, mas o coreto da praça é anterior: domínio público, usado aos domingos pelo mercado que abre às 8h e encerra quando se esgotam os legumes. Em 1995 recebeu estatuto de vila; em 2013 juntou-se a Outeiro numa única freguesia.
Barro, música e pastel de feijão
O Museu Etnográfico de Campelos abre de terça a sexta das 10h às 12h30 e das 14h às 17h. Entrada livre. Mostra escafas, rocas e um moinho de água desmontado do rio Sizandro. Do lado de Outeiro, a Olaria Romão vende tijoleira de barro vermelho a 0,40 € cada; leva-se em caixas de cartão reutilizadas.
Pastel de feijão IGP só é vendido com esse nome se for feito em Torres Vedras. Compra-se no Mercado de Campelos ou na padaria O Trevo, junto à rotunda: 1,10 €. A pêra-rocha começa em setembro; os produtores vendem à porta das quintas por 1,50 €/kg se levar caixa de 5 kg. A Banda de Música de Campelos ensaias às quartas na sede da coletividade; quem quiser ouvir entra sem pagar.
Caminhar o Geopark Oeste
O trilho PR 1 “Campelos-Outeiro” tem 7 km, início na praça da igreja e fim na estação. Marcado de amarelo-amarelo, leva 2 h. Leva água: não há cafés no percurso. O moinho de vento de Outeiro fica a 200 m da paragem de autocarro; está fechado, mas serve como ponto de referência para o pôr do sol sobre os campos.
Autocarro da Mafrense liga Torres Vedras a Outeiro de segunda a sexta: partida da Praça 25 de Abril às 7h15, 12h30 e 17h30. A viagem demora 20 min e custa 1,95 €. Comboio regional pára na estação do Outeiro seis vezes por dia; bilhete de Torres Vedras custa 1,20 € e demora 12 min.
Há cinco alojamentos registados: três em Campelos, dois em Outeiro. Todos têm cozinha; nenhum tem receção 24 h. Reserve com antecedência em julho e agosto, altura da vindima e da romaria de Nossa Senhora da Saúde, a 15 de agosto.
Quando o último comboio parte às 21h27, o cheiro a barro queimado mistura-se com o das folhas de videira. O silêncio regressa rápido: só se ouvem os cães e o compressor da olaria a arrefecer.