Artigo completo sobre Carvoeira e Carmões: berço das vinhas portuguesas
A freguesia de Torres Vedras que produz 75% dos bacelos nacionais entre capelas e pomares centenário
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O granito cinzento da Igreja Matriz de Carvoeira aquece ao sol da tarde. A pedra vem da pedreira de São Julião, a cinco minutos, e o templo ergueu-se entre 1245 e 1280, quando o lugar ainda pertencia à comenda de Santiago. Dentro, o teto de madeira deu lugar a abóbada de cantaria em 1734, depois do terramoto. Lá fora, entre as vinhas que descem em socalcos suaves, o vento traz o cheiro a terra revirada e a folha de videira. Aqui funciona, desde 1958, a Viveiros Nacionais da Cavaleiro & Companhia: 25 hectares de viveiro produzem anualmente 12 milhões de bacelos que abastecem o Douro, o Alentejo e até o Pico. É a maior unidade do país; sem ela, a replantação das vinhas portuguesas parava.
Carvoeira e Carmões juntaram-se em 2013, mas a união já existia no campo. A mina de água de Carvoeira, cavada em 1892, abastece ambos os lugares; o regadio comunitário divide-se pelas 741 parcelas cadastradas na Associação de Regantes do Alto da Serra. No recenseamento de 2021, os 221 jovens até 14 anos são menos de um terço dos 651 residentes com mais de 65. A escola básica de Carvoeira fechou em 2009; hoje, os 43 alunos vão de autocarro para o Centro Escolar de Torres Vedras.
O peso da pedra e da água
A Capela de São Julião, no lugar do mesmo nome, tem ao lado um cruzeiro de 1643 com a inscrição «Pela graça de Deus livrando-se esta freguesia da peste». A Capela de Santa Madre de Deus, em Valarinho, foi mandada construir por D. Brites de Lencastre em 1527; ainda se vê a sua arma no portal. Em Carmões, o Calvário dos Paços é um conjunto de sete cruzeiros de 1774, erguidos depois da seca de 1771 que queimou as vinhas. O moinho do Braçal, desactivado em 1953, tem ainda as velas de madeira e o eixo de ferro forjado na Serra do Pilar. A mina da Ribeira de Carvoeira, com 47 metros de profundidade, foi reforçada em 1936 com tubos de betão; a água sai a 14 ºC o ano inteiro.
A serra que respira
A Serra de São Julião é o ponto mais alto do concelho: 396 m. Em 2008, a Câmara comprou 52 ha ao Convento de Cristo (que herdara os terrenos da extinta comenda) e criou o Eco Parque. A pista de XCO, desenhada por Luís Lopes, mede 4,2 km e ganha 180 m de desnível; recebeu o Campeonato Nacional de Maratona em 2019. O pinhal dominante é Pinus pinaster, plantado em 1938 depois dos incêndios de 1935. No Parque Verde Sérgio Gomes — inaugurado em 2010 com financiamento do QREN — há 47 plátanos orientais plantados em linha, todos procedentes do viveiro municipal de Torres Vedras.
Sabores que ficam
O Pastel de Feijão de Torres Vedras nasceu na Confeitaria Central, na praça 25 de Abril, em 1910. A receita leva 38 % de feijão branco, 32 % de açúcar, 20 % de gemas e 10 % de água; a massa folhada tem 256 camadas. A Indicação Geográfica Protegida, obtida em 2016, impõe que a produção se faça no concelho. Na Quinta do Rol, em Carmões, a Pêra Rocha é colhida entre 15 de agosto e 30 de setembro; 40 % vai para o Mercado de Santarém, o restante é vendido porta-a-porta aos sábados de manhã. A Adega Cooperativa de Torres Vedras, fundada em 1955, recebe uvas de 45 viticultores da freguesia; o branco Vinho Regional Lisboa leva 60 % de Fernão Pires e 40 % de Arinto e tem 12,5 % vol.
Caminhos que atravessam
O Caminho de Santiago da Costa entra na freguesia junto ao marco de granito de 1989, no lugar da Serra, e sai 5,6 km depois, na ponte sobre a Ribeira de São Julião. A associação local de amigos marca presença com um carimbo na capela de São Julião desde 2014. O Geopark Oeste inclui a Serra de São Julião como ponto 18 do roteiro «Paisagens de Defesa»; o miradouro tem placa explicativa sobre o fossil de rudista encontrado em 1973. O pavilhão de Carmões, inaugurado em 2004, tem piso em madeira maciça de castanho; o clube de futebol de formação inscreve 72 atletas, mas só há equipa de juniores porque os mais novos treinam em Torres Vedras.