Artigo completo sobre Freiria: moinhos parados e vinhas que moldam o Oeste
Entre serras e pereiras certificadas, a freguesia rural de Torres Vedras mantém memórias monásticas
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O som das pás dos moinhos de vento ainda ronca na cabeça de quem os ouviu girar — hoje são só esqueletos de madeira pregados ao céu, mas o vento continua a fazê-los ranger, como se lhes faltasse um dente. Vem da serra da Lomba, desce redondo, leva o cheiro a mosto dos lagares e o mel das pereiras que se partem com as mãos. Às seis, quando o sol se deita atrás do Romeirão, a luz faz um risco de fogo nos telhados e os campos parecem maiores do que são: 60 metros de altitude, mas um horizonte que ninguém paga.
A alcunha que ninguém explica
Freiria dos Chapéus — diz-se depressa, como quem esconjura. O nome oficial vem dos frades, é certo, mas a alcunha nasceu depois, talvez no dia em que alguém contou que as mulheres daqui usavam chapéus de aba larga para esconder a cara do vento. Ninguém confirma, todos repetem. Entre 1820 e 1837 esteve na Azueira; em 1855 casou-se com Torres Vedras e não pediu divórcio. A Igreja Matriz de São Lucas ergue-se no mesmo sítio desde que se lembra a memória — cal branca que cega ao meio-dia, escadas de xisto que escorregam depois da chuva. As capelas de Santa Luzia e São Marcos ficam longe, cada uma na sua aldeia, e só se vêm cheias no dia dos respectivos santos, quando o pão é partido em cima do muro.
Quando a ficção televisiva encontra a realidade rural
Há dez anos, a “Floribella” pintou o coreto de rosa e pendurou balões na rua da Escola. Durante três meses, os habitantes foram figurantes de si próprios: a Ana da mercearia fez de mãe da protagonista, o Zé Manel do café serviu chá de cenoura a gente de Lisboa. Depois levaram as câmaras, ficaram os buracos no chão e uma fotografia autografada no balcão do Sport Clube. Hoje o clube continua a ser o sítio onde se perde a tarde: há café de saco, bolachas Maria e reuniões do Orçamento Participativo que ninguém quer perder, porque é lá que se decide quem pavimenta a rua de casa.
O sabor certificado do Oeste
A vindima começa sempre a seguir ao primeiro aguaceiro de Setembro. Os lagares abrem as comportas, o cheiro a fermento impregna a camisola e não sai nem com lixívia. As uvas são para o vinho da terra, que se bebe tinto, ligeiro, com sabor a rebuçado da feira. As pereiras são outro filme: a Rocha é colhida de manhã cedo, ainda com orvalho, e vai direta para a caixa que vai direta para a França. Sobram as pequenas, as que têm sarna — essas comem-se ali mesmo, encostado ao tronco, com o sumo a cair pelo pulso e as abelhas zumbindo à volta. O Pastel de Feijão não nasceu aqui, mas chega de Torres Vedras quente, em sacos de papel, e come-se de pé, queimando a língua.
Trilhos entre serras discretas
O Caminho da Costa vem da Ericeira, sobe a Lomba e desce a Freiria com as botas esfarrapadas. Os peregrinos param no fontanário, enchem a garrafa e perguntam se falta muito para Santa Cruz. Falta, mas é sempre para ali. Os trilhos do Geopark são mais curtos: dão para um domingo depois do almoço, quando a barriga está pesada e se quer justificar o arroz doce. Há um que sobe ao Romeirão por entre eucaliptos que rangem com o vento; no cimo vê-se o mar, se o dia estiver limpo, e cheira-se a tomilho se pisarmos em cima. Os tractores abrem a terra aos sábados, o barulho é um ronco contínuo que se mistura com o canto dos melros.
Mãos que moldam o barro
Na oficina do Sr. António, o torno é de madeira e a argila vem da barranca mesmo ao lado. Ele faz potes para a medronha, canecas para o vinho, tachos para o guisado — nada leva selo, tudo leva a marca dos dedos. O forno é um buraco na parede, alimentado a eucalipto seco; quando abre, o calor bate na cara como um tapa. As peças saem cinzentas, a cheirar a chuva antiga. Quem quer levar uma paga cinco euros e leva, embrulhada em jornal, com o conselho: “Não leve ao micro-ondas, senhor.”
O sino da Igreja de São Lucas bate seis badaladas e não é exactamente às seis — é quando o sacristão acaba de fechar as portas e se lembra. O som vai-se, abaixo, até ao campo de futebol, sobe outra vez, perde-se no vento que nunca parou de soprar desde que os moinhos giravam de verdade.