Artigo completo sobre Ramalhal: onde os carris viraram ciclovias e morangos
Antiga estação ferroviária, campos de morangos e trilhos rurais na Linha do Oeste de Torres Vedras
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O comboio já não pára aqui há décadas, mas a antiga estação do Ramalhal continua ali, testemunha silenciosa de quando esta terra era passagem obrigatória na Linha do Oeste. Inaugurada a 1 de agosto de 1887, foi uma das primeiras da linha que ligava Torres Vedras a Leiria. Hoje, os carris transformaram-se em ciclovias e os campos ao redor estendem-se em tapetes vermelhos — não de flores, mas de morangos que amadurecem directamente na terra.
Entre Estradas e Raízes
O nome vem do latim ramulus, ramo, e faz sentido quando se caminha entre os eucaliptais e pinhais que pontuam a paisagem. Mas a vocação deste lugar sempre foi outra: a agricultura. Nos séculos XVIII e XIX, a povoação desenvolvia-se junto à antiga Estrada Real que ligava Lisboa ao Porto, mencionada em roteiros como ponto de paragem obrigatória. Os cereais cultivados aqui pagavam-se em foro ao Convento da Graça, num ciclo que só terminou a meados de Oitocentos. A terra ficou, as obrigações desapareceram, e o Ramalhal continuou a produzir.
A Terra do Morango
Entre abril e junho, os campos transformam-se numa colcha de retalhos onde o verde das folhas contrasta com o vermelho vivo dos frutos. O PR11 — Rota do Morango foi criado precisamente para celebrar esta cultura: 19 quilómetros divididos em duas alternativas de 10 ou 11 km, que atravessam hortas, estufas e zonas arborizadas.
Às cinco da manhã, quando o nevoeiro ainda se agarra aos vales, é fácil encontrar os produtores curvados sobre os canteiros. As caixas de plástico vermelho acumulam-se aos poucos, enquanto o sol começa a queimar a pele do pescoço. O percurso integra-se no Geopark Oeste e oferece miradouros naturais sobre a bacia do Sizandro. Entre o Pisão e o Ameal, os trilhos rurais são ideais para BTT, cruzando zonas onde o silêncio só é interrompido pelo farfalhar do vento nos eucaliptos.
Sabores Certificados
Ramalhal insere-se na Região Vinícola de Lisboa, mas não são só as vinhas que marcam a mesa. A Maçã de Alcobaça IGP, a Pêra Rocha do Oeste DOP e o Pastel de Feijão de Torres Vedras IGP são produtos certificados que chegam às quintas e mercados locais.
Os morangos frescos, colhidos directamente nas explorações, têm um sabor que nenhuma embalagem de supermercado consegue replicar: ligeiramente ácidos, doces na medida certa, com o cheiro ainda colado à terra. Quando se parte um entre os dedos, o sumo mancha as unhas de vermelho vivo — uma cor que não sai com água, apenas com tempo.
Caminhar sem Pressa
A freguesia tem quatro alojamentos — três moradias de turismo rural e uma casa de campo remodelada —, o suficiente para quem quer explorar os arredores sem a pressão das multidões. Com 3631 habitantes distribuídos por 3683 hectares, a densidade populacional é baixa e a sensação de espaço, constante.
O Caminho da Costa, uma das variantes portuguesas do Caminho de Santiago, passa por aqui, trazendo peregrinos que carregam mochilas e conversas em várias línguas. Parados no café da praça, bebem um café curto antes de enfrentarem a subida da Serra do Socorro, trocando impressões sobre as bolhas nos pés.
A antiga estação é agora um marco nostálgico, ponto de partida para quem pedala ao longo dos antigos carris. O som do comboio desapareceu, mas o ritmo do Ramalhal continua medido pela terra: pelo ciclo dos morangos, pelo verde que muda de tom conforme a estação, pelo vento que varre os campos abertos. É um lugar onde ainda se pode ouvir o silêncio entre uma colheita e outra.