Vista aerea de Santa Maria, São Pedro e Matacães
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Lisboa · COSTA

Santa Maria, São Pedro e Matacães: cal, vento e história

Três freguesias unidas entre o maciço do Carvoeiro e o Atlântico, com castelo e vestígios do Calcolí

27 780 hab.
41.1 m alt.

O que ver e fazer em Santa Maria, São Pedro e Matacães

Património classificado

  • MNAqueduto de Torres Vedras
  • MNChafariz dos Canos
  • MNErmida de Nossa Senhora do Ameal
  • MNIgreja de Santa Maria do Castelo
  • MNIgreja de São Pedro

E mais 12 monumentos

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Torres Vedras

Fevereiro
Carnaval de Torres Vedras Fevereiro ou março festa popular
Junho
Festas de São Pedro 29 de junho festa religiosa
Outubro
Romaria de Nossa Senhora do Rosário 7 de outubro romaria
ARTIGO

Artigo completo sobre Santa Maria, São Pedro e Matacães: cal, vento e história

Três freguesias unidas entre o maciço do Carvoeiro e o Atlântico, com castelo e vestígios do Calcolí

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O vento chega antes de tudo o resto. Desce do maciço calcário do Carvoeiro, percorre as vinhas e os olivais de Matacães, raspa a pedra do castelo e só então se mistura com a brisa atlântica que sobe do litoral, a quinze quilómetros dali. É esse vento duplo — terra e mar ao mesmo tempo — que sacode a roupa estendida nas varandas de Santa Maria, que faz tremer os toldos do mercado municipal às segundas e sextas, que seca o suor na testa de quem sobe a ladeira até à torre de menagem. Torres Vedras não se vê primeiro: sente-se na pele.

A freguesia que hoje reúne Santa Maria, São Pedro e Matacães nasceu em 2013 da junção administrativa de três lugares com raízes medievais, mas a sua história partilhada começa muito antes — no Calcolítico, com o Castro do Zambujal (2600 a.C.), cujas muralhas concêntricas ainda afloram entre a vegetação rasteira, classificadas como Monumento Nacional desde 1910. É uma das mais antigas evidências de ocupação fortificada no Oeste peninsular, e o Geopark Oeste reconhece toda esta área como ponto-chave para estudar a colisão entre a Placa Euro-asiática e a Placa Ibérica, há trezentos milhões de anos. O chão que se pisa aqui carrega uma memória geológica vertiginosa, e os afloramentos fósseis miocénicos que pontuam a Falha de Torres Vedras são a prova visível dessa antiguidade.

Muralhas contra Napoleão, campanários como vigias

O castelo, com a sua cerca de quarenta e oito metros de perímetro, domina o horizonte da vila. Ao lado, a Igreja de Santa Maria do Castelo — mencionada em documentos de 1163, classificada como Monumento Nacional — conserva uma penumbra fresca onde o eco dos passos se multiplica contra a pedra. Mais abaixo, a Igreja de São Pedro exibe a sua fachada maneirista de 1590 e talha barroca do século XVIII, e a Igreja da Misericórdia, construída entre 1570-1580, guarda a sobriedade de quem já viu demasiado. Mas é o Aqueduto dos Canos que surpreende: mandado construir por D. João III em 1530 para abastecer o Convento da Graça, é o único aqueduto de três ordens de arcos em Portugal fora de Lisboa. A luz da manhã atravessa as arcadas e projecta sombras ritmadas no chão, como uma pauta musical desenhada em cal e calcário.

Durante as invasões napoleónicas de 1809-10, estes três lugares ficaram no centro das fortificações erguidas por Wellington. A população refugiou-se dentro das igrejas; os campanários serviram de postos de vigia. Hoje, o Centro de Interpretação das Linhas de Torres Vedras (aberto desde 2012) reconstrói essa narrativa, e o percurso pedestre pelas fortificações mais próximas — São Vicente, Olheiros, Alqueidão — permite caminhar sobre os mesmos caminhos de terra batida que os soldados calcaram, com o rio Sizandro a murmurar em contraponto ao silêncio dos redutos.

Feijão branco, massa folhada, segredo conventual

O cheiro a massa folhada quente é impossível de ignorar. O Pastel de Feijão de Torres Vedras, com Indicação Geográfica Protegida desde 2016, nasceu no Convento do Carmo em meados do século XIX, e a receita mantém-se secreta — apenas seis pasteleiros em Torres Vedras a conhecem. A textura é densa, levemente granulosa do feijão branco moído, com um doce que não agride — antes envolve. Ao lado, as queijadas de Matacães (cuja receita se perde em 1834), os bolinhos de noz e o toucinho-do-céu completam uma mesa conventual que sobreviveu à extinção das ordens religiosas. Nos meses de vindima, em Setembro, as pisas de uva e as degustações trazem à superfície os vinhos da região de Lisboa: Arinto e Fernão Pires nos brancos, Touriga Nacional e Syrah nos tintos, produzidos em quintas como a do Convento do Varatojo (século XVI), a da Boa Esperança (fundada em 1756) e a de São José (século XIX). E nos pomares de Matacães, entre Agosto e Outubro, colhe-se a Pêra Rocha do Oeste DOP e a Maçã de Alcobaça IGP — fruta que chega às mãos ainda tépida do sol.

Matrafonas, cabeçudos e o rio que liga tudo

A Quaresma em Torres Vedras não se faz só de recolhimento. O tradicional Enterro do Bacalhau, antecedido por domingos de folia com matrafonas e cabeçudos (máscaras que datam de 1897), transforma as ruas num teatro de rua onde o grotesco e o sagrado coabitam sem conflito. Em Junho, a festa de São Pedro traz procissão, missa campal e arraial; em Julho, São Tiago anima Matacães com procissão e animação rural; em Dezembro, a romaria de Nossa Senhora da Conceição fecha o ciclo festivo. A Feira da Espiga, em Maio, recupera em Matacães o artesanato e os produtos agrícolas que sustentaram estas terras durante séculos.

O Caminho de Santiago pela Costa atravessa a vila, ligando a Igreja da Graça (século XVI) ao Convento de Santo António do Varatojo — este último, construído entre 1610-1640, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977, acolhe peregrinos e, ocasionalmente, concertos de música clássica nas suas caves abobadadas, onde o som reverbera contra a pedra húmida como se a própria arquitectura cantasse. Para quem prefere pedalar, a Ecopista do Ramal de Torres (inaugurada em 2011) liga a vila às praias de Santa Rita e Santa Cruz em 9 km, e o Trilho do Rio Sizandro (13 km) serpenteia entre margens onde os caniços se dobram ao mesmo vento que entrou neste texto no primeiro parágrafo.

O peso exacto de um lugar

Vinte e sete mil e setecentos e oitenta habitantes distribuem-se por mais de sessenta e dois quilómetros quadrados, a uma elevação média de quarenta e um metros — suficiente para que, em certas manhãs de Inverno, o nevoeiro cubra o vale do Sizandro e deixe apenas a torre de menagem e os arcos superiores do aqueduto a flutuar acima da bruma, como se a vila se tivesse desprendido do chão. É essa a imagem que fica: não o castelo inteiro, não a vista panorâmica, mas aqueles três arcos superiores recortados contra o céu branco, com o cheiro a feijão branco e massa folhada a subir de alguma rua invisível lá em baixo.

Dados de interesse

Distrito
Lisboa
Concelho
Torres Vedras
DICOFRE
111326
Arquetipo
COSTA
Tier
vip

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola secundária e básica
Habitação~1581 €/m² compra · 6.81 €/m² renda
Clima17.2°C média anual · 590 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

60
Romance
65
Familia
50
Fotogenia
60
Gastronomia
40
Natureza
60
Historia

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Perguntas frequentes sobre Santa Maria, São Pedro e Matacães

Onde fica Santa Maria, São Pedro e Matacães?

Santa Maria, São Pedro e Matacães é uma freguesia do concelho de Torres Vedras, distrito de Lisboa, Portugal. Coordenadas: 39.0874°N, -9.2436°W.

Quantos habitantes tem Santa Maria, São Pedro e Matacães?

Santa Maria, São Pedro e Matacães tem 27 780 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Santa Maria, São Pedro e Matacães?

Em Santa Maria, São Pedro e Matacães pode visitar Aqueduto de Torres Vedras, Chafariz dos Canos, Ermida de Nossa Senhora do Ameal e mais 14 monumentos classificados. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Santa Maria, São Pedro e Matacães?

Santa Maria, São Pedro e Matacães situa-se a uma altitude média de 41.1 metros acima do nível do mar, no distrito de Lisboa.

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