Artigo completo sobre Santa Maria, São Pedro e Matacães: cal, vento e história
Três freguesias unidas entre o maciço do Carvoeiro e o Atlântico, com castelo e vestígios do Calcolí
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O vento chega antes de tudo o resto. Desce do maciço calcário do Carvoeiro, percorre as vinhas e os olivais de Matacães, raspa a pedra do castelo e só então se mistura com a brisa atlântica que sobe do litoral, a quinze quilómetros dali. É esse vento duplo — terra e mar ao mesmo tempo — que sacode a roupa estendida nas varandas de Santa Maria, que faz tremer os toldos do mercado municipal às segundas e sextas, que seca o suor na testa de quem sobe a ladeira até à torre de menagem. Torres Vedras não se vê primeiro: sente-se na pele.
A freguesia que hoje reúne Santa Maria, São Pedro e Matacães nasceu em 2013 da junção administrativa de três lugares com raízes medievais, mas a sua história partilhada começa muito antes — no Calcolítico, com o Castro do Zambujal (2600 a.C.), cujas muralhas concêntricas ainda afloram entre a vegetação rasteira, classificadas como Monumento Nacional desde 1910. É uma das mais antigas evidências de ocupação fortificada no Oeste peninsular, e o Geopark Oeste reconhece toda esta área como ponto-chave para estudar a colisão entre a Placa Euro-asiática e a Placa Ibérica, há trezentos milhões de anos. O chão que se pisa aqui carrega uma memória geológica vertiginosa, e os afloramentos fósseis miocénicos que pontuam a Falha de Torres Vedras são a prova visível dessa antiguidade.
Muralhas contra Napoleão, campanários como vigias
O castelo, com a sua cerca de quarenta e oito metros de perímetro, domina o horizonte da vila. Ao lado, a Igreja de Santa Maria do Castelo — mencionada em documentos de 1163, classificada como Monumento Nacional — conserva uma penumbra fresca onde o eco dos passos se multiplica contra a pedra. Mais abaixo, a Igreja de São Pedro exibe a sua fachada maneirista de 1590 e talha barroca do século XVIII, e a Igreja da Misericórdia, construída entre 1570-1580, guarda a sobriedade de quem já viu demasiado. Mas é o Aqueduto dos Canos que surpreende: mandado construir por D. João III em 1530 para abastecer o Convento da Graça, é o único aqueduto de três ordens de arcos em Portugal fora de Lisboa. A luz da manhã atravessa as arcadas e projecta sombras ritmadas no chão, como uma pauta musical desenhada em cal e calcário.
Durante as invasões napoleónicas de 1809-10, estes três lugares ficaram no centro das fortificações erguidas por Wellington. A população refugiou-se dentro das igrejas; os campanários serviram de postos de vigia. Hoje, o Centro de Interpretação das Linhas de Torres Vedras (aberto desde 2012) reconstrói essa narrativa, e o percurso pedestre pelas fortificações mais próximas — São Vicente, Olheiros, Alqueidão — permite caminhar sobre os mesmos caminhos de terra batida que os soldados calcaram, com o rio Sizandro a murmurar em contraponto ao silêncio dos redutos.
Feijão branco, massa folhada, segredo conventual
O cheiro a massa folhada quente é impossível de ignorar. O Pastel de Feijão de Torres Vedras, com Indicação Geográfica Protegida desde 2016, nasceu no Convento do Carmo em meados do século XIX, e a receita mantém-se secreta — apenas seis pasteleiros em Torres Vedras a conhecem. A textura é densa, levemente granulosa do feijão branco moído, com um doce que não agride — antes envolve. Ao lado, as queijadas de Matacães (cuja receita se perde em 1834), os bolinhos de noz e o toucinho-do-céu completam uma mesa conventual que sobreviveu à extinção das ordens religiosas. Nos meses de vindima, em Setembro, as pisas de uva e as degustações trazem à superfície os vinhos da região de Lisboa: Arinto e Fernão Pires nos brancos, Touriga Nacional e Syrah nos tintos, produzidos em quintas como a do Convento do Varatojo (século XVI), a da Boa Esperança (fundada em 1756) e a de São José (século XIX). E nos pomares de Matacães, entre Agosto e Outubro, colhe-se a Pêra Rocha do Oeste DOP e a Maçã de Alcobaça IGP — fruta que chega às mãos ainda tépida do sol.
Matrafonas, cabeçudos e o rio que liga tudo
A Quaresma em Torres Vedras não se faz só de recolhimento. O tradicional Enterro do Bacalhau, antecedido por domingos de folia com matrafonas e cabeçudos (máscaras que datam de 1897), transforma as ruas num teatro de rua onde o grotesco e o sagrado coabitam sem conflito. Em Junho, a festa de São Pedro traz procissão, missa campal e arraial; em Julho, São Tiago anima Matacães com procissão e animação rural; em Dezembro, a romaria de Nossa Senhora da Conceição fecha o ciclo festivo. A Feira da Espiga, em Maio, recupera em Matacães o artesanato e os produtos agrícolas que sustentaram estas terras durante séculos.
O Caminho de Santiago pela Costa atravessa a vila, ligando a Igreja da Graça (século XVI) ao Convento de Santo António do Varatojo — este último, construído entre 1610-1640, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1977, acolhe peregrinos e, ocasionalmente, concertos de música clássica nas suas caves abobadadas, onde o som reverbera contra a pedra húmida como se a própria arquitectura cantasse. Para quem prefere pedalar, a Ecopista do Ramal de Torres (inaugurada em 2011) liga a vila às praias de Santa Rita e Santa Cruz em 9 km, e o Trilho do Rio Sizandro (13 km) serpenteia entre margens onde os caniços se dobram ao mesmo vento que entrou neste texto no primeiro parágrafo.
O peso exacto de um lugar
Vinte e sete mil e setecentos e oitenta habitantes distribuem-se por mais de sessenta e dois quilómetros quadrados, a uma elevação média de quarenta e um metros — suficiente para que, em certas manhãs de Inverno, o nevoeiro cubra o vale do Sizandro e deixe apenas a torre de menagem e os arcos superiores do aqueduto a flutuar acima da bruma, como se a vila se tivesse desprendido do chão. É essa a imagem que fica: não o castelo inteiro, não a vista panorâmica, mas aqueles três arcos superiores recortados contra o céu branco, com o cheiro a feijão branco e massa folhada a subir de alguma rua invisível lá em baixo.