Artigo completo sobre Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa: terra de sal e rio
Duas localidades unidas pelo Tejo, entre fábricas, flamingos e o primeiro voo motorizado português
Ocultar artigo Ler artigo completo
O vento que desce do estuário traz um travo que nem é sal, nem é lama, é aquela coisa que cola à pele e faz o casaco cheirar a sábado passado. É o mesmo cheiro que os miúdos da Póvoa aprendem a reconhecer antes de saberem escrever o nome da rua — uma espécie de bússola olfativa que diz “estamos em casa”. A luz da manhã bate nos prédios como quem acorda um gato: devagar, para não levantar mau humor. Estamos na Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa, duas aldeias que o papel oficial juntou em 2013 mas que o rio já tinha casado há séculos.
O forte, a fábrica e o aeroplano
Forte da Casa tem aquele nome de quem não quer iludir ninguém: há um forte, há casas, pronto. O forte é do século XV, construído quando o Tejo era a A1 da época — quem controlava o rio, controlava o país. Hoje é um monte de pedra com vista para a estação de comboios, mas ainda assim dá jeito para explicar aos visitantes por que razão aquela rotunda tem um nome tão pomposo.
A Póvoa cresceu ao lado, mais devagar, a olhar para o sal que o estuário deixava nas lagoas. Depois veio a fábrica da Solvay em 1934 e o sal deixou de ser notícia — passou a ser o cloro, o cabo-do-fogo, o cheiro a ovo estragado que as avós diziam “fazer bem aos brônquios”. Entre uma coisa e outra, lá para 1912, um tal Alberto Sanches de Castro meteu um motor numa caixa de latas e voou. Foi o primeiro voo motorizado do país, aí ao lado do mouchão, onde hoje os pescadores fingem que não estão a ver os flamingos.
Quarenta mil vizinhos entre a planície e a maré
São 40 871 habitantes, diz o papel. Na prática, são 40 871 especialistas em linhas de comboio: sabem que o 16270 tem atraso crónico e que o 16278 só serve para inglês ver. Vivem empilhados em 9 km² — é tão denso que os vizinhos do 3ºD sabem o que o pessoal do 5ºE janta às sextas. Mas ninguém se queixa muito: há um continente aberto até às 22h, um café onde o galão ainda custa menos de um euro e um hostel para quando a cunhada de Cascais vem visitar e não quer dormir no sofá.
Arroz das lezírias, pêra dos pomares
O arroz carolino é como o Ronaldo: nasceu aqui perto, mas é de todos. Coza-o comum suficiente, deixe-o lá a abrir durante meia hora e verá porque é que os velhos dizem que “o arroz da Póvoa não é comido, é abraçado”. Junte uma pera rocha bem madura — aquela que faz um som seco quando a parte ao meio — e tem o jantar perfeito para quando a RTP1 tem filme português. Beba o que quiser: há branco da região que não engorda nem magra, serve só para acompanhar.
O estuário como catedral
A verdadeira igreja aqui é o estuário. Não tem campas, tem flamingos; não tem padre, tem garças. No Inverno, os pássaros descem em bandos como turistas alemães — organizados, barulhentos, com roteiro marcado. O chão é tão plano que o céio parece tampa de panela: quando está cinzento, aperta-nos a respiração; quando está azul, até o gato se esquece de siesta e vai espreitar o rio. Leve binóculos, leve água, leve um pão com chouriço para comer no fim — não há melhor altar.
O primeiro fim-de-semana de Setembro
É quando a Póvoa vesti a camisola de futebol: Nossa Senhora da Piedade. Há quem diga que é a padroeira, há quem diga que é a desculpa para a festa. Importa é que as bifanas são grandes, as roscas são quentes e o zucol atrasa a vida a quem ousa atravessar a rua. A manjedoura é no Largo do Coreto, mas a procissão é na Avenida da Liberdade — sim, aquela com o continente e o semáforo que nunca está verde. É a única altura do ano em que o estuário fica em segundo plano: o cheiro a sardinha queimada sobrepõe-se ao sal, e até os flamingos parecem perceber que é melhor não aparecer.
O que fica depois da maré
Quando se vai embora, leva-se na sola dos sapatos uma areia fina que não sai nem com aspirador. É a Póvoa a dizer “volte quando quiser”. E a gente volta — se não for pela língua de calçada que ainda guarda o sal, será pelo 16270 que, apesar de tudo, lá vai chegando a horas.