Artigo completo sobre Alter do Chão: 24 badaladas e cavalos lusitanos
Alter do Chão, em Portalegre, preserva muralhas de taipa, o Haras Nacional de Alter e tradições medievais como a Festa do Pão com trigo novo e azeiteiras.
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O relógio da Torre soa doze badaladas ao meio-dia, mas quem cá vive já não conta. O som desce pela taipa como chuva miudinha, entra pela janela da padaria onde o Joaquim tira pão do forno às doze e vinte — sempre atrasado, sempre quente. A cisterna lá em baixo, tapada com vidro, é só um buraco com água parada. As crianças gostam de lá pisar, ver se assustam os turistas.
Cavalos que ninguém pára
O Haras é aquilo: portões altos, éguas no campo, o cheiro a estrume misturado com alfafa. Às terças e quintas ouvem-se os cascos na areia do picadeiro, mas quem vem de fora é que paga para ver. Os rapazes da vila cresceram a fugir aos guardas, a trepar os muros para ver os garanhões de borla. D. João V mandou vir cavalos de Cádis, dizem. Hoje mandam-nos para todo o lado, mas os melhores ficam cá — os que têm a marca a ferro no quartel traseiro esquerdo.
Pão que se parte com os dentes
No domingo do Pão, a Igreja Matriz enche-se de velas e de gente com sapatos novos. O padre abençoa os cães à porta — há sempre um que ladra durante o pai-nosso. Depois distribui-se o pão, grosso como punho, com casca que racha os beiços. A mulher da Amélia traz manteiga caseira em tupperware, o António da cafetinha serve café pingado em copos de vidro. À noite, os rapazes fazem os fachos com pinheiro verde, descem a Rua Direita a gritar "Santos, Santos!", deixam cair brasas que as mães depois esfregam com a sola do sapato.
O que a terra dá
A sopa de beldroegas é o que há quando o jardim cresce desmedido. O queijo de Nisa vem lá de cima, da serra — aquele que faz cócegas na garganta. O borrego é dos que pastam no montado, onde os cães de guarda ladram às águias. Quando o sável sobe, o Zé da Ribeira põe a rede à noite, traz os peixes num balde de alumínio. A mulher faz açorda com pão de ontem, alho queimado e coentros do quintal. O vinho é do Lagar do Cardal — não tem selo nem prémios, mas o copo fica com a boca roxa.
Água que não se vende
O trilho da Ribeira é só para quem tem tempo. Passa-se pelo moinho do Pardal, onde o pai do Pardal morreu esmagado pela roda em 73. A ponte romana é mais nova do que parece — os alvercas dizem que foi reconstruída no tempo da Rainha D. Amélia, mas ninguém sabe ao certo. Depois da curva do carvalhal, há uma poça onde a água vem quente da terra. Quem conhece vai lá ao fim do dia, quando o sol não queima e os turistas já foram embora. Fica o cheiro a xisto molhado, o som da ribeira que leva folhas de medronheiro para baixo.
Quando o sol se põe atrás da Cidadela, a taipa fica cor de mel. O relógio volta a dar as horas, mas ninguém ouve — estão todos à mesa, com a janela aberta para o cheiro a serra que vem aí.