Artigo completo sobre Chancelaria: vida agrícola na planície alentejana
Freguesia de Alter do Chão com queijos certificados e património secular na planície de Portalegre
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O sol bate na pedra calcária e o silêncio é pesado, interrompido pelo zumbido distante de um tractor nos campos de trigo. Chancelaria espalha-se pela planície alentejana com a horizontalidade de quem aprendeu a viver com o calor que sobe da terra e o céu que parece maior. Aqui, a 152 metros de altitude, o território ocupa mais de sete mil hectares onde a densidade humana é mínima — pouco mais de cinco pessoas por quilómetro quadrado — e o espaço respira largo entre casas caiadas e terras de sequeiro.
A freguesia pertence ao concelho de Alter do Chão, distrito de Portalegre. Os números dos Censos de 2021 contam uma história comum a muitas aldeias do interior: 382 habitantes, dos quais 174 têm mais de 65 anos e apenas 40 são crianças ou adolescentes. É um lugar onde o envelhecimento marca o quotidiano, mas onde a persistência se mantém através de tradições agrícolas e pastoris que recusam desaparecer.
Dois monumentos, séculos de história
O património classificado resume-se a dois monumentos, um deles com estatuto de Monumento Nacional. Embora os dados não especifiquem qual, a presença destes testemunhos arquitectónicos aponta para uma importância histórica que transcende o número reduzido de habitantes. São marcas no território, pontos de referência que atravessaram séculos e que hoje subsistem numa paisagem onde o presente agrícola domina.
Queijos que atravessam fronteiras
A gastronomia encontra expressão nos produtos certificados que aqui se produzem ou chegam das redondezas: o Queijo de Nisa DOP e o Queijo Mestiço de Tolosa IGP. Ambos resultam do trabalho pastoril que ainda persiste na região, do leite de ovelha e de cabra que pasta nos montados e nas terras de sequeiro. São queijos de cura, de sabor intenso e textura firme, que se comem acompanhados de pão alentejano e que se conservam em adegas frescas onde o ar circula devagar.
A lógica do território
Chancelaria não é um destino turístico de massas — o nível de visitantes mantém-se baixo, os dois alojamentos disponíveis são casas particulares, e a dificuldade logística é moderada. Quem aqui chega vem à procura de outra coisa: da amplitude visual dos campos cerealíferos, do ritmo lento das povoações rurais, da autenticidade de um quotidiano que não foi embalado para consumo rápido.
O risco é mínimo, a instagramabilidade reduzida, a adequação para famílias limitada. Mas há uma dimensão cultural e histórica que justifica a passagem — desde que se compreenda que o valor está precisamente naquilo que não foi transformado em atracção.
Ao fim da tarde, quando a luz dourada rasga horizontalmente a planície e projecta sombras compridas nas paredes brancas, o vento traz o cheiro a terra seca e a palha. É esse o perfume de Chancelaria: mineral, vegetal, honesto.