Artigo completo sobre São Vicente e Ventosa: onde a planície se mede em silêncio
A segunda maior freguesia de Portugal entre montado, ruínas romanas e a albufeira do Caia
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O vento atravessa os olivais sem pressa, arrastando consigo o cheiro a terra seca e a resina dos sobreiros. Nas estradas de terra batida que ligam São Vicente a Ventosa, o silêncio pesa tanto quanto a luz branca do meio-dia alentejano. Aqui, na segunda maior freguesia de Portugal em extensão territorial — 10 488 hectares de planície ondulada —, a densidade humana não passa dos 7,3 habitantes por quilómetro quadrado. O que sobra é espaço: montado de azinheira, represas que espelham o céu, e um punhado de herdades onde o tempo se mede pela floração das ameixoeiras e pelo amadurecer das azeitonas.
Pedra, água e memória romana
A Igreja Matriz de São Vicente ergue-se no centro da aldeia desde 1598, mandada construir por D. António Mendes de Carvalho, primeiro bispo de Elvas. A pedra clara da fachada aquece ao sol da tarde, e o interior fresco oferece tréguas ao calor que domina os meses de Verão. Mais adiante, no meio das herdades, a igreja paroquial de Nossa Senhora da Ventosa marca a paisagem como um farol de cal branca entre o verde-escuro do montado. Ventosa não é propriamente uma aldeia — é um topónimo emprestado da herdade onde a igreja foi erguida em 1727, rodeada de olivais e pastagens onde o gado pasta à sombra das azinheiras.
Mas a ocupação humana deste território é bem mais antiga. Dezenas de villae romanas pontuam a freguesia, vestígios de uma economia agrícola próspera que explorava os mesmos solos que hoje produzem Azeite do Norte Alentejano DOP e Ameixa d'Elvas DOP. A Quinta das Longas conserva ruínas que falam de celeiros, lagares e casas senhoriais. O Caminho da Légua Romana — via que ligava Elvas a Badajoz — atravessa a freguesia, traçando no chão a mesma linha que os carros de bois seguiram durante séculos.
A maior albufeira do Alto Alentejo
A Barragem do Caia, inaugurada em 1954, estende-se parcialmente pelo território de São Vicente e Ventosa, formando a maior albufeira do Alto Alentejo com 1 960 hectares. Junto à água, garças-reais e pernilongos movem-se devagar entre os juncos. Mais de vinte represas menores salpicam a freguesia, pequenos espelhos de água que alimentam olivais e pomares. Aqui, a água dita o ritmo: é ela que permite a apanha da azeitona em Novembro, a vindima nas quintas que integram a região vinícola do Alentejo, e o amadurecer das ameixas que, depois de secas ao sol, ganham a certificação DOP que as distingue no mercado.
Nas estradas de terra batida, ciclistas aventuram-se entre São Vicente e Alentisca, parando junto às represas para um piquenique improvisado. Não há trilhos sinalizados nem áreas protegidas, mas o território oferece-se a quem procura espaço em vez de roteiro, silêncio em vez de atracções.
Açorda, malha e sericaia
A cozinha segue a gramática alentejana: açordas de alho e coentros, migas com borrego assado, ensopado onde a carne se desfaz devagar, sopa de beldroegas que refresca os dias quentes. Nos tascos de Elvas, a dez quilómetros de distância, a sericaia chega à mesa ainda tépida, polvilhada de canela, doce exacto para fechar uma refeição onde o Queijo Mestiço de Tolosa IGP abriu o apetite e o vinho alentejano acompanhou cada garfada.
A associação local mantém vivo o Torneio da Malha do Concelho de Elvas, competição que percorre várias freguesias e faz etapa em São Vicente. O jogo da malha — arremesso de discos metálicos em direcção a um pino cravado no chão — reúne gerações debaixo das árvores, entre risos e provocações amigáveis, numa tarde que se alonga até o sol descer atrás dos montes.
O peso do vazio
Nas eleições autárquicas de 2021, o PS manteve 70% dos votos, mas o CHEGA cresceu até 18%, espelho de uma divisão geracional que atravessa o interior do país. Setenta e nove jovens com menos de catorze anos e duzentos e dois idosos acima dos sessenta e cinco compõem o retrato demográfico de uma freguesia onde o futuro se debate entre a terra herdada e a cidade que atrai os mais novos. Mas quem fica conhece o valor do espaço, o luxo do silêncio, e o sabor da azeitona colhida à mão, prensada no lagar, provada ainda verde sobre uma fatia de broa.