Artigo completo sobre Cabeço de Vide: águas termais no coração do Alentejo
Termas sulfúreas, monumentos nacionais e produtos regionais numa freguesia de silêncios e planícies
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O vapor sobe das piscinas termais ao amanhecer, como se a terra tivesse ressaca de uma noite mal dormida. A água brota a 32° daquela pedra branca que deixa marcas de batom nos azulejos — nada que uma escova não resolva, mas as senhoras de Badajoz acham graça. Cabeço de Vide acorda com cheiro a ovo mexido, o enxofre das termas misturado com o fumo das lareiras onde o Carlos queima oliveira seca desde as seis.
Água que cura, pedra que resiste
As termas são o que são: um balneário público onde se vem tratar dores que o SNS não cura. Não há música ambiente nem massagens com pedras quentes. Há é o Zé Maria que controla a temperatura como quem regula o gás da cafeteira — de olho, sem termómetro. A água sulfúrea tem fama desde que o meu avô era menino, e isso diz tudo.
Dois monumentos nacionais que nem os próprios conhecem bem. A pedra aqui não é postiça — é a mesma que faz as paredes das casas, os muros dos campos, os silos onde o meu tio guarda a broa. Entra pela porta dentro como quem entra em casa.
Queijo, azeite e o peso da tradição
O queijo de Tolosa que a minha mãe compra à sexta-feira vem embrulhado em papel de estrada. A crosta amarela é mentira — o bom está lá dentro, cremoso como pastilha de dentista. O azeite é do Norte Alentejano, sim senhor, mas na tasca do António serve-se numa garrafa de Orangina velha. Ninguém se queixa.
A gastronomia não serve para Instagram. Serve para encher o prato do João que vem das olivais com fome de lobo. As migas são de toucinho mesmo, não dessas de vegetais que a filha da Célia faz em Lisboa.
Entre o verde e o ocre
A paisagem é o que vês do café quando o café abre — o que não é todos os dias. Olivais que o meu primo vendeu ao francês, vinhas que o banco levou, terra lavrada que depende da chuva e da sorte. No Verão, o calor é tipo forno de padaria; no Inverno, entra pelos ossos como água de poço.
Dos 928 habitantes, 328 têm mais de 65 anos. Faz as contas. Mas Cabeço de Vide aguenta-se, como se aguenta um gato velho — com os próprios dentes, às custas das termas e dos nove quartos que a D. Lurdes aluga a quem vem de fora pensar que aqui se vive melhor.
Ao final da tarde, o vapor continua a subir. Persistente, teimoso como o meu pai que ainda vai às termas de bicicleta aos 83. A terra respira por aquela fenda aberta, expelindo nuvens brancas que se perdem no ar da noite — a mesma noite de sempre, que cheira a lenha queimada e a jantar de sopa de tomate.