Artigo completo sobre Comenda: memórias de gelatina e pedra no Alentejo
Arquivo fotográfico de Manuel Fitas preserva a alma de uma aldeia alentejana com 692 habitantes
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O estalo do pão de maturação lenta quebra o silêncio da rua que sobe para a igreja. É quase meio-dia, a sombra já não protege os pés e o cheiro do forno do Zé Mário — aquele que fica ao lado da antiga mercearia da Glória — mistura-se com o pó que sobe da calcada solta. Ao fundo, o cruzeiro de 1783 continua lá, mas agora há um ninho de andorinhas no braço esquerdo da cruz e as inscrições estão tão gastas que só se lêem com a ponta do dedo.
Arquivo de um tempo que foi corpo
Manuel Fitas nunca foi só sapateiro. Era o homem que parava a bicicleta para fotografar um baptizado, que guardava rolos na cave fria da casa onde agora mora a neta. Quando os netos abriram as caixas de sapatos em 2015, encontraram não só os rostos que já tinham morrido — encontraram a roupa pendurada nos estendais de trás da escola, o cheiro a mosto da vindima, o som das senhoras que cosiam no limiar das portas. O arquivo abre quando a D. Isabel tem tempo, geralmente às terças e às sextas. Não há visitas guiadas: há café da máquina e ela vai buscar os álbuns conforme a conversa. Se lhe perguntarem pelas "Cotovias", mostra logo a fotografia onde o padre Horácio — "aquele que vinha de Alcains e tinha a voz mais grave que eu já ouvi" — levanta os braços na procissão da Bênção do Trigo.
Pedra, talha e azulejo
A igreja tem as paredes exteriores caiadas de branco, mas quem entra nota logo o cheiro a cera queimada e o frio que sobe das pedras. O retábulo-mor é bonito, mas é no azulejo ao lado do evangelho que se vê o que interessa: há um ladrilho rachado onde alguém, em 1893, escreveu com arame em brasa "António M. esteve aqui". No adro, os velhos ainda se sentam no banco de granito que dá para a rua da Fonte — não para rezar, mas para ver quem entra e quem sai. Atrás do cruzeiro há um poço seco onde as crianças atiram pedras para ouvir o eco.
Sabores que resistem
Na tasquinha da Dona Alda serve-se açorda única — não há ementa. Se for dia de bacalhau, leva com ovo da galinha que cisca no quintal. O pão é do Zé Mário, o azeite do Lagar do Pêro que fica a três quilómetros, e o vinho é do ano passado, engarrafado em garrafões de três litros que o filho traz de Portalegre. Quando há matança, o cheiro a toucinho frito atravessa a aldeia toda e é nessa altura que se fazem os "bolinhos de massa" — não têm nome certo, são só a massa do pão com banha e açúcar, frita em óleo aquecido no tacho de ferro que a Alda guarda debaixo da cama.
Montado e água
Quem sair pela EM528 em direção a Belver encontra o sobreiro da "cova daquele" — assim se chama, não tem outro nome — onde se fazia festa em dia de Santo António até os anos 80. O trilho do Conhal, mal assinalado, leva a um vale onde o Tejo faz uma curva e onde, em Julho, se pode estar descalço na areia quente sem ver ninguém. Não há placas, nem bar, nem salva-vidas. Há só o som da água e, se tiver sorte, um barco de pesca que regressa com o sol na cara.
Bienal e memória coletiva
Em agosto, a aldeia enche-se de gente que já cá viveu. Há concertos no largo, mas também há tertúlias na porta da casa da D. Isabel onde se fala de quem partiu e de quem ficou. O Clube Castelanense, reaberto em 2022, não tem actividades regulares — tem é a sala onde ainda se vê o cartaz do baile de 1958, com o preço dos bilhetes: 5 escudos. Durante a bienal, abre-se a cozinha da escola antiga e serve-se ensopado em tigelas de barro. Quem come levanta-se para ir buscar mais, não há serviça à mesa.
Ao cair da tarde, o sino bate três vezes. Não é para missa — é o sacristão que vai fechar a igreja. O eco demora mais que o som, como se a própria aldeia precisasse de tempo para perceber que o dia acabou.