Artigo completo sobre Gavião e Atalaia: onde o azeite e o queijo falam
Entre olivais alentejanos, duas povoações partilham tradições e sabores certificados DOP e IGP
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O sol bate na calçada irregular da Rua Dr. António José de Almeida, e o silêncio da tarde só é interrompido pelo arrastar de uma cadeira na sombra da oliveira centenária que se ergue junto ao Jardim 1.º de Maio. Aqui, entre a planície alentejana e os primeiros contrafórtes que anunciam a serra, a luz tem uma qualidade particular — dourada, quase espessa — que se agarra às paredes caiadas e aos telhados de telha envelhecida. Gavião e Atalaia cresceram juntas neste território de 7788 hectares onde a densidade humana é rarefeita: 19,3 pessoas por quilómetro quadrado. Cada encontro na Avenida da Liberdade ainda merece uma paragem e uma conversa sobre o tempo ou sobre a colheita.
A população de 1501 habitantes distribui-se entre as duas povoações que deram origem a esta união de freguesias num equilíbrio que os números revelam: 524 pessoas com mais de 65 anos, 129 crianças e adolescentes. São contas que se fazem em voz baixa no Café Central, mas que não impedem que o quotidiano siga o seu ritmo — o do forno comunitário que ainda funciona nos dias 13 e 14 de agosto para a festa de Nossa Senhora dos Remédios, o da Taberna O Pescador onde se joga sueca às 17h30, o dos campos de sequeiro onde o trabalho agrícola dita as estações com mais rigor que qualquer calendário.
Território de azeite e queijo
A 241 metros de altitude média, o território estende-se numa paisagem de transição onde os olivais centenários de Verdeal e Cobrançosa dominam a linha do horizonte. Não é por acaso que os Azeites do Ribatejo DOP aqui ganham corpo — a terra de xisto e argila, o sol que bate 2 800 horas por ano e as noites frescas de agosto criam condições que Joaquim Pires, olivicultor desde 1974, conhece de cor. No Lagar de Gavião, inaugurado em 1953 e reabilitado em 2018, o cheiro a azeitona moída mistura-se com o som metálico das prensas, e o azeite escorre verde-escuro com 0,2% de acidez.
O Queijo Mestiço de Tolosa IGP completa esta geografia do sabor. Feito com leite de ovelha serpentina e cabra algarvia, tem uma cura mínima de 60 dias e uma textura cremosa que Núria Baptista mantém desde 1992 na Queijaria O Piqueno. Nas casas, ainda se guardam as formas de queijo envoltas em pano de linho, e o ritual de o provar com pão do forno de lenha de Atalaia e um copo de Trincadeira da Cooperativa Agrícola de Gavião mantém-se intacto.
O quotidiano visível
Os sete alojamentos disponíveis — entre o Hotel de Gavião (12 quartos), o Hostel Serra da Nora (24 camas) e as cinco moradias rurais do Aldeamento do Lago — são suficientes para quem procura este território sem pressa. Não há multidões: em 2023 registaram-se 2 148 dormidas, número que coloca o concelho nos últimos lugares do país. O que existe é a possibilidade de caminhar pelo PR4 "Trilhos do Gavião" (12,4 km), observar o voo rasante dos abutres-do-egito sobre os campos de trigo mole ou sentar-se no banco de granito junto ao Coreto de Gavião e deixar que o tempo da tarde se estenda.
A logística é simples. A EN118 atravessa a vila de norte a sul em 3 minutos. Não há semáforos nem rotundas. O risco é mínimo — em 2023 registaram-se 4 acidentes sem vítimas — e a orientação é intuitiva: basta seguir o Rio Sever que nasce em S. Brás e desagua no Tejo. O que pode confundir é a ausência de estímulos constantes — aqui, a experiência constrói-se na subtracção.
Onde a luz se demora
Ao entardecer, quando a luz começa a amaciar às 19h15 em julho e as sombras se alongam sobre a cal das paredes, há um momento em que tudo parece suspenso. O sino da Igreja Matriz de Gavião, fundada em 1570 e reedificada após o terramoto de 1755, marca as horas, mas o som propaga-se devagar, como se também ele precisasse de tempo para atravessar o ar que ainda está a 28°C. É nesse intervalo — entre o fim do dia de trabalho e o acender das primeiras luzes na Rua de Santa Maria — que Gavião e Atalaia se revelam por inteiro: não no que exibem, mas no que simplesmente são.