Artigo completo sobre Santo Aleixo: onde o silêncio tem peso e densidade
Freguesia alentejana de 500 habitantes entre montados, olivais e o ritmo lento da terra vermelha
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol do meio-dia senta-se na terra vermelha como quem se acomoda num sofá velho. Sob as oliveiras, a sombra não refresca - apenas escurece o chão, deixando o ar tão quente que até as formigas parecem andar mais devagar. O silêncio de Santo Aleixo não é ausência de som; é o barulho da terra a trabalhar: uma pedra que estala ao aquecer, o zumbido longínquo de uma motosserra, o rumor seco das folhas de sobreiro a roçarem-se.
Quinhentos e poucos habitantes. Dizem quinhentos, mas na prática são menos - muitos só cá vêm aos fins-de-semana ou às festas. A matemática explica a sensação de vazio, mas não explica o cheiro: o da terra a cozer ao sol, o da esteva que ferve no fim do dia, o do fumo que escapa das chaminés onde ainda se aquece com lenha de azinho.
Três casas que ninguém quer ver
Há três casas classificadas no livro de registo, mas ninguém cá as chama por esse nome. A Casa do Povo é onde se joga às cartas à sexta-feira e onde o Zé Pires guarda o trator. A antiga escola primária, fechada há vinte anos, ainda cheira a tinta de impressora e a lanche de cenoura. A terceira é o casarão da herdade, onde os americanos queriam fazer um hotel de charme mas desistiram quando viram o preço de ligar a água.
Não há festas documentadas porque aqui não se documenta nada. A romaria da Senhora da Saúde é no domingo mais próximo de 15 de Agosto, quando os emigrantes voltam e as mulheres passam a noite a fazer migas para duzentas pessoas. A vindima começa quando o António diz que começa - geralmente quando as uvas estão tão doces que até as aves andam embriagadas.
O que se come (quem se deixa)
O azeite é do Lagar do Fundo, aquele que o Joaquim faz na cave da casa dele. Vai lá com uma garrafa vazia, ele enche-te e cobra o que quer - nunca mais de 4 euros o litro. O queijo é de Nisa, sim, mas vem do mercado de Monforte à sexta-feira, trazido pela Alda que tem um quiosque e uma boca suja que dá gosto.
Não há restaurantes. Há a tasca do Zé Luís, mas é preciso bater à porta de casa dele às 12h30 em ponto. Serve o que a mulher cozinhou - se for dias de abate, há sopa de sangue; se for dia de pão, há açorda. O vinho é da talha do ano passado e tem gosto a madeira queimada. Quem não conhece ninguém, leva fome.
Onde os caminhos vão morrer
Caminhar por Santo Aleixo é aprender a ler o chão: a terra batida é caminho, a terra solta é campo. O montado de sobro está a morrer - a doença da tinta veio há anos e ninguém tratou. Agora são troncos negros que se partem com o vento. Mas ainda há porcos soltos a procurar bolotas, e quando os ouves rosnavam é sinal que alguém se aproxima.
Às cinco e meia, o sino da igreja toca três vezes. Não é para missa - é para o senhor dos cães saber que são horas de os trazer para casa. Ao fim da tarde, o ar fica dourado e pesado como mel. É quando as mulheres levam as cadeiras para fora das portas e se pôem a falar sobre quem já não cá está. O silêncio que vem depois não é vazio - é a terra a guardar segredos que ninguém lhe pediu.