Artigo completo sobre São Matias: cal branca, água corrente e silêncio
Freguesia alentejana onde o tempo corre ao ritmo da fonte e do montado de sobro
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O sol de meio-dia bate na cal branca da Igreja de São Matias e devolve um clarão que obriga a baixar os olhos. No Largo da Fonte, em Monte Claro, a água escorre pelo cano de pedra para a pilha — o mesmo som contínuo que aqui se ouve desde que me lembro, antes mesmo de eu perceber que era som. Minha avó dizia que a fonte "foi beneficiada" nos anos cinquenta, mas para mim sempre foi assim: água fria que escorre goteira abaixo, mesmo quando o verão queima as pedras. À volta, as casas de xisto encostam-se umas às outras como se tivessem medo do vento. Não há cafés — o último fechou quando o António foi para Lisboa — nem praças movimentadas. Há apenas o montado a aproximar-se, o vento a rodar entre os sobreiros e aquela luz que não perdoa.
A memória escrita em pedra
São Matias só passou a chamar-se assim em 1936. Antes era Caixeiro — nome que ainda escorrega na boca dos mais velhos quando se esquecem do novo. Dizem que vem de "caixaria", os terrenos comuns onde pastávamos os porcos. A igreja actual é do século XIX, mas tem a humildade de quem sabe que aqui já se rezava muito antes. A torre nem sempre teve sino — durante anos, chamávamos os homens ao trabalho com uma corneta de caca. Ao lado, a Fonte da Aldeia continua a servir: enche garrafas, lava roupa, refresca pés cansados. Às vezes, quando o Verão aperta, ainda lá vou beber água com a mão, como aprendi.
Queijo, azeite e o sabor do quotidiano
A cozinha de São Matias não se exibe porque não precisa. Vive-se dentro de portas, no odor do tomate a estalar no azeite quente, no som do ovo a escalfar na açorda. Minha mãe fazia ensopado de borrego quando o frio castigava os ossos — as ervilhas vinham do quintal, o borrego do curral ali ao lado. O Queijo de Nisa está sempre presente: na marmita do campo, no lanche escondido atrás do sobreiro, na mesa de domingo quando o padre vinha jantar. No inverno, o fumeiro entope-se de chouriços que sabem à fumigação do zambujeiro. As filhós de abóbora fazem-se quando a abóbora do quintal está doce — a massa frita-se no azeite que o Joaquim traz em garrafões de cinco litros, trocado por ovelhas.
A ribeira, o vale e o silêncio
Os 54,66 quilómetros quadrados de São Matias cabem todos na minha memória. A ribeira nasce onde o João diz que viu um texugo — nunca acreditei, mas nunca desmenti. Não há trilhos sinalizados, só os caminhos que os pés foram abrindo: o que vai de Monte Claro a Chão da Velha passa pela oliveira do meu avô, pela pedra onde descascávamos pinhões, pelo sítio onde o Silvestre encontrou o ninho de coruja-das-torres. No ponto mais alto, a Pedra da Velha marca o cume — dali avistei a serra de São Mamede mil vezes, mas nunca a vi igual. O silêncio é tão pesado que parece que nos aperta os ouvidos.
A luz que fica
Quando a tarde cai e o sol rasante incendeia as paredes de xisto, São Matias mostra o que é: não é o número de pessoas — somos cada vez menos — mas a persistência da oliveira que plantaram quando eu nasci, o gosto do queijo que ainda fazemos como minha bisavó fazia, o som da água que me adormeceu em braços. Quem aqui chega não procura espectáculo — procura o sítio onde o tempo se partiu e nunca mais se colou.