Artigo completo sobre Galveias: memória maneirista no coração do Alentejo
Vila alentejana preserva conjunto arquitectónico do século XVI classificado como interesse público
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O pão de testo esfria sobre o balcão de mármore da pastelaria, ainda com o cheiro a lenha preso na côdea. É manhã cedo em Galveias e a luz rasante do Alentejo entra pela porta aberta, desenhando rectângulos brancos no chão de mosaico. Lá fora, na Praça da República, o cruzeiro de 1787 projecta uma sombra curta sobre a calçada irregular. A inscrição latina na pedra está gasta pelo tempo e pelas mãos de gerações que ali pararam para rezar ou simplesmente para respirar antes de seguir caminho.
Esta vila de 1022 habitantes guarda um facto histórico: até 1836 foi sede de município autónomo, com câmara e cadeia próprias. A fachada setecentista do antigo edifício camarário ainda se reconhece na praça - hoje é café. O topónimo remonta ao século XIII e aparece num foral de 1257 como "Gallveas", derivado do nome pessoal medieval Galvão ou Galveio — provavelmente o primeiro senhor destas terras de planície ondulada entre os 140 e os 240 metros de altitude. No adro da igreja matriz, uma pedra de armas recorda essa linhagem leonesa que baptizou o lugar.
O único imóvel de interesse público do concelho
A igreja de Nossa Senhora da Assunção ergue-se maneirista, do século XVI ou XVII, com um retábulo barroco em talha dourada. Os painéis de azulejo setecentista cobrem as paredes laterais, azuis e brancos, contando histórias bíblicas em cenas geométricas. Este conjunto — igreja, cruzeiro e antiga casa da câmara — recebeu em 1978 a classificação de Imóvel de Interesse Público, o único em todo o concelho de Ponte de Sor. A distinção não é acidental: a harmonia entre o sagrado e o civil, entre a pedra e a cal, desenha aqui uma memória arquitectónica rara.
Mais a norte, no lugar de Aldeia de João Pires, a capela de São Brás espera na solidão do montado. Nave única, campanário em cornija, silêncio denso que só é quebrado pelo vento nos sobreiros. O território estende-se em suaves ondulações até à serra de São Domingos, onde o montado de sobro e azinho oferece sombra e bolota aos javalis que por ali circulam ao anoitecer.
A paisagem que a barragem transformou
A década de 1940 trouxe a barragem de Vale do Gaio e, com ela, a submersão de 400 hectares de terras férteis. As melhores leiras desapareceram debaixo de água, e muitos agricultores partiram para Lisboa ou para as colónias. O que ficou foi um espelho de 200 hectares rodeado de pinhal, onde hoje se pratica canoagem e se observam garças-reais de pescoço dobrado sobre a água parada. O trilho Rota dos Açudes percorre oito quilómetros entre a vila e o barramento, passando por moinhos de vento em pedra e açudes medievais onde o ribeiro de Sor ainda murmura entre freixos e choupos.
A cozinha de Galveias assenta no azeite do Alto Alentejo e na carne de porco alentejano. No Verão come-se sopa de tomate com ovos escalfados, servida fria em tigelas de barro. No domingo de Páscoa, quando se celebra o Encontro de Compadres — cortejo que rememora o encontro do Cristo Ressuscitado com a Virgem —, assa-se cabrito em forno de lenha. Em Agosto, para a festa da padroeira, prepara-se ensopado de borrego com hortelã fresca. O queijo Mestiço de Tolosa, com Indicação Geográfica Protegida, ainda se produz em explorações familiares: pasta mole, casca florida, sabor que pede compota de figo ou mel de rosmaninho. A doçaria inclui os queques de Galveias, pequenos bolos fofos perfumados com raspa de limão, e os coscorões de Entrudo, fritos em azeite fervente.
Calendário de fogueiras e caretos
O Carnaval traz os caretos de lata, mascarados que percorrem as ruas ao som de concertinas, batendo latas velhas num ritmo que ecoa entre as fachadas caiadas. Na noite de São João acendem-se fogueiras e salta-se para a sorte, os pés descalços tocando brevemente a terra quente antes de voltar ao chão frio. Em anos pares organiza-se a Feira do Queijo e do Pão, mostra de produtos artesanais que recupera o mercado mensal medieval e enche a praça de tabuleiros, cestos de vime e conversas ao sol.
Ao fim da tarde, quando a luz poente doura as searas de trigo e o montado ganha tons de cobre, o adro da igreja volta a encher-se de sombra comprida. O cruzeiro de 1787 permanece imóvel, a inscrição latina cada vez mais ilegível, testemunha silenciosa de todos os que aqui pararam — para rezar, para partir, para ficar.