Artigo completo sobre Ansiães: Onde a Altitude Molda a Vida na Serra
797 metros de altitude, gado maronês e mel das Terras Altas definem esta freguesia de Amarante
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A névoa não cai, sobe do Tâmega como se o rio tivesse memória. A 797 metros, o ar corta os pulmões mesmo em plena manhã de São João — quem vem do Porto nota-o logo, o mesmo ar que faz as crianças daqui tossirem ao acordar. O granito das paredes antiga-se a cada inverno; nas casas abandonadas, o reboco cai em lascas que parecem pele de serpente. Ansiães não é um punhado: é uma teia de casas que se agarram à serra como quem tem medo do vento.
Onde o gado marca a hora
As maronesas descem às nove da manhã, sobem ao cair da noça. Não é poesia — é o ritmo que conheço desde miúda, quando ia buscar o leite à casa do Sr. António. As vacas de pelagem de noite de outono pastam onde o meu avô semeava centeio; agora só o centeio-bravo cresce entre as pedras. Em Dezembro, quando a estrada nacional corta, os estábulos fumegam e o cheiro a feno molhado entranha-se nos casacos. A carne — sim, tem aquela gordura entretecida que se derrete na frigideira — sabe ao que a serra deixa crescer devagar.
O mel é outra história. O meu tio mantém colmeias no lameiro de baixo — onde as raparigas da aldeia iam fazer ginástica no verão (sim, é verdade). O mel de urze é tão escuro que parece café, e amargo que nem todos gostam. Quem o prova no estrangeiro escreve a pedir mais: "envia-me daquele que sabe a pinho e a terra molhada".
O peso do vazio
Dezoito pessoas por quilómetro quadrado significa que posso ir buscar pão à padaria do Carvalho e não cruzar com ninguém. Significa que a casa da Dona Rosa — aquela com a figueira que esmagava o telhado — agora é só figueira e telhado. Dos 516, conheço 400 pelos apelidos: há mais Fernandes do que dias de chuva. As crianças — essas 33 — são netos que ficaram. A escola fechou no ano em que o Simão partiu para França; agora a sala serve para junta de freguesia e para guardar os enxertos que ninguém planta.
Mas o vazio tem peso. Os javalis vêm comer as batatas da minha mãe em Outubro. As águias-d'asa-redonda sobrevoam o adro da igreja como se fossem de casa. E há manhãs — especialmente depois da primeira neve — em que o silêncio é tão completo que oiço o sangue a bater-me nos ouvidos.
Pedra que fala
A Igreja de São Mamede tem uma pedra com uma marca de bala — dizem que foi no 28, mas o meu avô dizia que foi o seu avô a brincar com a espingarda. O granito é o mesmo de sempre: cinzento-azulado, com veias de quartzo que brilham ao sol da tarde. As capelas brancas — há três — cheiram a cera de vela e a tochas de festa. Na romaria, o padre ainda vai de carro até ao Marco porque as senhoras não conseguem descer a encosta de salto alto.
Vinho que magoa
As vinhas do Sr. Jaime ficam no alto do Caramanchão — onde o vento norte te faz chorar. São uvas de loureiro, mas o vinho não tem nada daqueles verdes doces do Minho. É ácido que corta, com um travo de xisto que fica na língua. Bebe-se em copos pequenos, com tremoços e conversa de tacho. Quem vem de fora torce o nariz; nós chamamos-lhe "vinho de homem".
Há duas casas para turistas — uma é a casa onde nasci, agora com aqueles chineses de Lisboa que vieram "viver da terra". Não há sinais, não há rotas. Há o silêncio que pesa às quatro da tarde, o cheiro a lenha que se queima mal o sol se põe, e a certeza — que ninguém diz em voz alta — de que isto vai acabar quando as máquinas deixarem de pegar e os últimos cães morrerem.