Artigo completo sobre Bustelo, Carneiro e Carvalho de Rei: Três Aldeias Unidas
Pontes sem pregos, carvalhos centenários e relógios solares nas Terras Altas do Minho
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O som do enxó na madeira não é metálico — é seco, como se a própria água do Olo estivesse a bater no madeiro. Na ponte de Carvalho de Rei, os homens não medem só a olho: usam um cordel de linho esticado entre os cavaletes, herança do pai ou do avô. O rio corre lá em baixo, tão estreito que uma pedra atirada de um lado acorda o outro. Entre Bustelo e Carneiro, as marcas na calçada não são fósseis — são sulcos de aço vivo, feitos pelos tratores que ainda descem com o milho para a moagem.
Três aldeias, um corpo só
A União formalizou-se em 2013, mas o pessoal já ia aos baptizados uns dos outros antes de haver estrada alcatroada. Bustelo, que aparece em foral de 1220 como "Bustello", tem na sacristia um livro de assentos de 1753 onde se lê que "hoje se baptizou Maria filha de José o cego e sua mulher Antónia, padrinhos: o sr. cura e mais ninguém, por ser dia de tempestade". A igreja de Carneiro cheira a cera quente mesmo fora das festas; o altar manuelino tem um anjo com o nariz partido — partiram-lho os franceses em 1809, dizem. O carvalho-rei de Carvalho de Rei não tem placeta: o tronco é tão largo que seis pessoas de mãos dadas não o abraçam. Em Março ainda carregado de bolotas, as gaivotas voam lá de cima do Marão só para as bicar.
Relógios solares e pão de milho
O relógio de sol na parede da casa do canteiro está desaprendido: perdeu-se-lhe o gnomon há três invernos, mas a dona D. Alda continua a olhar para a mancha como quem vê as horas. A padaria de Carneiro abre às 4h30 quando o forno ainda cospe lenha. Quem quiser aprender tem de chegar antes das 5h; leva a farinha de milho da cooperativa e leva para casa uma broa quente que racha em cima do banco do carro. O cheiro fica nos cabelos dias seguidos.
Carne, mel e vinho verde
A chanfana leva vinho tinto, não branco; o segredo é não lavar a panela de barro entre um cozido e outro — "ela tem memória", diz o Sr. António da tasca O Travesso. O mel do Reboredo é tão escuro que parece breu; ao fim de três anos cristaliza-se e é preciso aquecer o frasco ao sol para tornar a mexer. O vinho verde do Sousa bebe-se em copos de cerâmica baixos, o mesmo que se usa para o aguardente: serve-se cheio até a borda, bebe-se de um gole, deixa-se cair a borra para o prato.
Trilhos de água e xisto
O PR2 começa mesmo atrás da igreja de Bustelo, mas o placard já perdeu metade das letras. Desce-se por um corredor de silvas que arranham os braços; os moinhos do Olo têm rodas paradas com as pás partidas, mas no do meio ainda mora o Sr. Joaquim que moía até 1998. A água da levada vem gelada; quem se atirar ao poço em Agosto sai com os dentes a tremer. Em Covas do Monte há um espigueiro com inscrição a lápis: "Isto é de Domingos, quem tocar leva porrada".
Memórias impressas na pedra
O Museu de Bustelo funciona na antiga escola primária; a sala cheira a estufa de ferro a óleo queimado. No primeiro armário está o testamento do padre Pinto de Andrade, escrito a tinta púrpura: deixou 200 réis "para os meninos pobres que souberem o catecismo de cor". O livro de Maria Amélia Carvalho está à venda na papelaria de Amarante, mas aqui empresta-se de porta em porta, com a capa debrada e anotações à margem: "isto foi o que a minha avó fazia".
Na ponte, os homens terminam quando o sol desaparece atrás do Carvalhinho. Guardam o serrote dentro do saco de lona, atiram as aparas ao rio — flutuam como palitos de despacho. A madeira nova range, mas daqui a duas semanas, quando o orvalho da lua cheia a molhar, o som amansa. Lá em baixo, o Olo leva as aparas em direção ao Tâmega, lentamente, sem pressa de chegar a lado nenhum.