Artigo completo sobre Frende: onde o mel nasce entre carvalhos e urzes
Freguesia de Baião onde a apicultura artesanal marca o ritmo das estações a 312 metros de altitude
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O zumbido grave das abelhas atravessa os bosques de carvalho antes mesmo de se avistar o primeiro apiário. Em Frende, são elas que marcam o ritmo das estações — mais intensas na primavera, quando os lameiros explodem em flores silvestres, discretas no Outono, quando os apicultores recolhem os favos de mel dourado que transportam o sabor acre das urzes e a doçura dos castanheiros. A altitude de 312 metros confere à freguesia um microclima particular: as manhãs chegam envoltas em nevoeiro húmido que se agarra aos pinhais, e ao meio-dia o sol incide directo sobre os terrenos ondulados, aquecendo o granito dos muros de socalco.
Caminhos que atravessam séculos
A origem do nome — possivelmente derivado do latim "Frenda", ponte ou cruzamento — sugere que Frende nasceu no século XIII como ponto de passagem. Não há monumentos imponentes nem igrejas de fachada trabalhada, mas os caminhos de terra batida que ligam a freguesia a Loivos do Monte conservam a mesma função de há setecentos anos: conectar gente, mercadorias, histórias. Quem percorre estes trilhos a pé sente o silêncio denso da montanha interrompido apenas pelo ranger dos carros de bois — ainda usados pontualmente para transporte de lenha — e pelo eco distante do sino da Igreja de São Bartolomeu, mandada construir em 1713.
A densidade populacional baixa — 580 habitantes em 290 hectares — permitiu que práticas tradicionais sobrevivessem sem pressão urbanística. Os 52 jovens que frequentam a Escola Básica do 1.º ciclo de Frende aprendem a ler a paisagem como os avós: sabem distinguir o mel de urze do mel de castanheiro pela cor e pela textura, reconhecem o momento exacto de colher as maçãs reineta nos pomares familiares.
Mel que sabe a altitude
O Mel das Terras Altas do Minho DOP é o produto que coloca Frende no mapa gastronómico, mas não por acaso. A altitude, a diversidade botânica dos bosques e a ausência de monoculturas intensivas criam condições ideais para uma apicultura artesanal que rejeita atalhos industriais. Nos pequenos apiários familiares — estruturas de madeira gretada pelo tempo, pintadas de azul desbotado — as colmeias dispõem-se em filas paralelas viradas a sul. O mel resultante tem cor âmbar escuro e cristaliza devagar, conservando aromas complexos: resina de pinho, flor de silva, pólen de carvalho.
A cozinha tradicional aproveita este mel em combinações inesperadas: untado sobre fatias grossas de pão de milho ainda quente, misturado no tempero da feijoada à transmontana para equilibrar a acidez do tomate, ou simplesmente acompanhando queijos curados de ovelha. Nos dias de festa — a Senhora de Ao Pé da Cruz (primeira semana de maio) e São Bartolomeu (24 de agosto) — as mesas comunitárias enchem-se de enchidos caseiros defumados em fumeiros de granito, caldo verde onde a couve galega nada em azeite verde-limão, e pão de ló de textura esponjosa que desmancha na língua.
Paisagem que se caminha devagar
Não há miradouros assinalados nem placas turísticas, mas qualquer curva nos caminhos rurais oferece enquadramentos inesperados: ao longe, a silhueta recortada do vale do Douro; em primeiro plano, oliveiras centenárias de tronco retorcido que projectam sombras curtas ao meio-dia. A ciclovia que liga Baião ao Tâmega passa a 2 km de Frende, permitindo que ciclistas façam desvios curtos para explorar os arruados campos onde ainda se cultiva milho miúdo e feijão-frade em socalcos estreitos.
A observação de aves — melros, pintassilgos, chapins-azuis — funciona melhor ao amanhecer, quando o frio húmido da noite ainda paira sobre os bosques e os pássaros descem aos lameiros em busca de insectos. O silêncio é tão denso que se ouve o bater de asas a vinte metros de distância.
Ao entardecer, quando a luz rasante tinge de cobre os telhados de telha vermelha e o fumo das lareiras começa a subir vertical no ar parado, o zumbido das abelhas regressa — mais suave agora, quase um murmúrio. É o som que fica na memória: constante, laborioso, doce.