Artigo completo sobre Gove: onde o sino ecoa no vale do Douro a 428 metros
Gove, em Baião, Porto, estende-se por 11 km² de declives até ao Douro. Descubra a vida a 428m de altitude, o Mel das Terras Altas DOP e tradições vivas.
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O sino da igreja bate três vezes e o som espeta-se no ar como alfinete em cortinado. Não é campainha de turismo: avisa mesmo quem tem orelhas para ouvir que são horas de ir jantar. A 428 metros, o ar é outro — não o peso do Douro, mas uma lufada que leva cheiro a terra revirada e à lenha que ainda não é carvão. Gove não é grande: onze quilómetros quadrados, 1742 almas. Dá para percorrer de fones nos ouvidos, mas mais vale ir devagar, senão perde-se o detalhe.
Entre o rio e a serra
A estrada sobe em ziguezague como quem escapa ao calor. As casas espalham-se às costelas do monte, umas viradas para o sol, outras para a sombra, todas com a mesma vista em desconto: vinhas em socalcos que parecem escadaria de gigante, carvalhos a fazer sombra a gado que não está à venda. O granito aparece nu nas muros, musgo incluído. Não é a paisagem dos cartões-postais do Pinhão — aqui a verde é mais que a azul e os turistas ainda são os filhos que voltam no fim-de-semana. Densidade populacional? 151 por km², o que em miúdo quer dizer: há espaço para todos, mas falta gente para o ocupar.
Calendário de promessas
Agosto é mês de Festa da Senhora de Ao Pé da Cruz. As portas que estiveram fechadas desde Natal abrem-se, sai o cheiro a loiça nova e a avental de farinha. Quem emigrou para Matosinhos despacha o pernil de Le Mans a correr, só para chegar a tempo das filhós. Já no fim do verão é a vez de São Bartolomeu: as eiras ainda têm cheiro a trigo debulhado e o mel das Terras Altas — DOP, se faz favor — está engarrafado. Âmbar escuro, sabor a urze e a castanheiro, doce que pega nos dentes. Ninguém escreve as receitas, mas toda a gente sabe que o pão-de-ló só fica bem na forma de barro da tia Albertina.
Geometria demográfica
Há 208 putos e 320 reformados. Faz as contas: cada miúdo tem direito a um avô e meio. Nas escadas de pedra entre os largados, cruzam-se mais bengalas que mochilas. Ainda assim, os dez alojamentos locais enchem-se aos fins-de-semana: casais de Lisboa que querem "desligar", famílias que acham que apanhar castanha é programa cultural. Baião fica a dez minutos de carro — dá para ir ao banco, ao dentista e voltar a tempo de almoçar chanfana no Tasquinha do Quim.
Texturas do quotidiano
Andar por Gove é trocar de casaco a cada curva. Sol queimado no largo, sombra de souto que mete frio, vento na crista que desarranja o cabelo. A terra soa a seco em agosto, a molhado em outubro. Nas hortas, as couves crescem altas como se fossem pagar renda. Há sempre um galo a ensaiar às três da tarde, sempre uma porta a ranger que parece gaita de foles. Ao entardecer, quando a luz pega nos troncos dos pinheiros e o vale se enche de azul, percebes: Gove não quer plateia, quer gente que fique. Basta um fumo direito, uma janela amarela, um cheiro de caldo que escapa pela fresta. Sinais pequenos, mas que dizem alto: aqui ainda se vive, se te apertares os sapatos e subires a ladeira.