Artigo completo sobre Grilo: Onde os Sinos Ecoam Sobre o Vale do Douro
Freguesia de altitude em Baião com vistas amplas, mel DOP e festas que resistem ao tempo
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O sino da igreja marca as horas no adro de Nossa Senhora da Conceição. Soa às sete, às doze e às sete outra vez — há três séculos que não muda. O bronze nasceu em 1784, fundido pelos Oleiro, uma família de campaneiros que vieram do Fundão: ainda se lê o nome no colarinho, apesar da ferrugem. Quando o vento é de nascente, o som chega ao Marco de Grilo, onde o Douro faz o primeiro meandro grande; quando é de poente, perde-se na garganta do Tâmega antes de Crestuma.
Quatrocentos e setenta e dois habitantes, segundo os Censos 2021, mas na realidade são menos. Na segunda quinzena de Agosto, quando a festa da Senhora de ao Pé da Cruz aproxima-se, aparecem os “forasteiros” — filhos que partiram para o Barreiro nos anos 70, netos que hoje trabalham no Parque Nascente. A procissão sobe a Rua do Calvário às nove da manhã, passa pela casa onde viveu o padre Américo, o úrico grilense que foi cónego na Sé do Porto, e termina no adro onde, em 1962, o alpendre caiu por cima do coreto durante a missa campal. Ninguém se magoou — dizem que a Senhora protegeu.
O mel é de tom amadeirado porque as abelhas pousam sobretudo em carvalho-negral e esteva. Há quinze produtores registados na Cooperativa de Baião, mas só três têm DOP Mel das Terras Altas do Minho: Armando Silva, na Canada da Serra; os irmãos Lima, no lugar de Santo António; e Idalina Matos, que herdou as colmeias do pai em 1998, depois da tempestade que derrubou os sobreiros da Póvoa. Quem quiser comprar, bata à porta antes das dez da manhã — depois disso ela está nos campos, a cobrir as alqueiras com tela de proteção contra a geada, que em 2017 chegou a 4 ºC negativos a 14 de Maio.
A estrada municipal EM534 sobe 280 metros em 3,4 km. Antigamente chamava-se “Caminho do Torno”, porque os cocheiros tinham de dar meia-volta larga no Patameira para não entalar os eixos. Hoje é alcatoada até ao cruzeiro de 1893, depois torna a pissoir de xisto solto. Quem seguir a pé encontra, a meia encosta, a capela de São Bartolomeu — construída em 1627, reedificada em 1926 após o raio que partiu a campa do fundador, o capitão-mor António de Noronha. Lá dentro, um quadro de talha dourada guarda um relicário com fragmentos do osso do santo; o sacrista, o sr. Albano, abre às quartas e aos domingos, se lhe telefonarem antes.
Há uma única unidade de alojamento local: a Casa do Rio Frio, casa de lavrador do século XVIII, com pia de granito na cozinha e lareira onde cabem três cepos de carvalho. Fica no lugar de Calvos, a 425 m de altitude. O código postal é 4640-011, mas não há caixa do correio — a correspondência vem por mota, de segunda a sexta, depois de descer a EM534 e subir outra vez até Grilo. O céu, sem poluição luminosa, permite ver a Via Láctea entre 15 de Julho e 15 de Agosto, quando o vento baixa e as nuvens se agarram ao vale do Tâmega.