Artigo completo sobre Loivos da Ribeira e Tresouras: vinhas e mel no Douro
Freguesia de Baião onde os socalcos ditam o ritmo entre o Tâmega e as colmeias da serra
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O sino da capela bate três pancadas secas que ecoam pelo vale do Tâmega. O som atravessa os socalcos de vinha, ricocheteia nas paredes de xisto das adegas e perde-se na curva do rio, lá em baixo, onde a água corre turva depois da chuva da madrugada. Aqui, na encosta que sobe desde a margem direita até aos 242 metros de altitude média, Loivos da Ribeira e Tresouras formam uma única freguesia desde 2013 — duas aldeias unidas pela mesma geometria de socalcos, pelo mesmo ritmo ditado pelas vindimas e pela Senhora de ao Pé da Cruz, cuja festa ancora o calendário religioso destas 717 hectares de terreno inclinado.
Setenta pessoas por quilómetro quadrado. O número traduz-se em casas espaçadas ao longo dos caminhos rurais, quintais onde ainda se planta o milho miúdo para as galinhas, fumeiros pendurados nas cozinhas de tecto baixo. Dos setecentos habitantes, cento e setenta e cinco têm mais de sessenta e cinco anos; sessenta e cinco não chegaram aos quinze. A matemática demográfica desenha o retrato de tantas freguesias do interior duriense: o êxodo silencioso, as escolas fechadas, os campos que voltam ao mato quando não há braços para os trabalhar.
A geometria do vinho e do mel
A paisagem organiza-se em patamares. Vinhas velhas de enforcado alternam com parcelas recentes de vinha ao alto, os aramados tensos desenhando linhas rectas na encosta. Entre os bardos, oliveiras retorcidas marcam os limites das propriedades — a mesma estrutura fundiária que se mantém há gerações, dividida e subdividida em leiras estreitas. Mais acima, onde o terreno já não compensa o esforço da lavoura, o mato fecha: giesta, urze, carqueja. É aí que as colmeias encontram o seu território. O Mel do Douro DOP, certificado e reconhecido, resulta desta flora agreste e da altitude que tempera as floradas. Os apicultores locais, organizados na Cooperativa de Loivos, colhem entre 15 a 20 toneladas anuais que vendem directamente em Arcos de Valdevez e Braga.
O rio Tâmega, invisível mas omnipresente, comanda a orientação das casas e a disposição dos caminhos. Todas as estradas descem na sua direcção, todas as águas correm para o seu leito encaixado entre montanhas. A margem direita, onde estas duas aldeias se agarram, apanha o sol da tarde — luz dourada que incendeia as videiras no Outono e aquece o granito das soleiras até ao anoitecer.
Festa e calendário
Agosto traz a Festa de São Bartolomeu, procissão e arraial que junta as famílias regressadas de França e da Suíça. Setembro pertence à Senhora de ao Pé da Cruz, devoção documentada desde 1758 cuja capela original ficava no cruzamento dos caminhos para Amarante e Marco de Canaveses, derrubada durante as obras da EN15 nos anos 60. O cruzeiro de pedra que lhe deu nome ainda marca o lugar, a meio da ladeira que sobe para Tresouras. Nestas festas, o adro enche-se, as vozes multiplicam-se, o silêncio habitual quebra-se em risos e motores de tractores enfeitados. Depois, o quotidiano regressa: o tractor que sobe carregado de estrume, o cão que ladra ao carteiro, o fumo branco que sobe direito das chaminés nas manhãs de geada.
Cinco alojamentos — moradias e estabelecimentos de hospedagem modestos — acolhem quem procura a proximidade ao Douro sem o frenesim turístico de Peso da Régua ou Pinhão. Aqui, o rio ainda não se transformou em postal. A paisagem mantém a rugosidade do trabalho: muros caídos à espera de reconstrução, caminhos de terra batida, silêncio cortado apenas pelo vento e pelo grito distante de uma ave de rapina.
Quando a tarde cai e a luz rasante transforma os socalcos numa escadaria de ouro e sombra, o vale do Tâmega respira fundo. O cheiro a terra molhada mistura-se com o fumo das lareiras. Algures, uma porta range. O sino da capela permanece mudo até amanhã.