Artigo completo sobre Santa Cruz e São Tomé: onde o Douro encontra a pedra
Socalcos de vinha, regos romanos e igrejas centenárias entre o rio e a montanha de Baião
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O sol rasante da tarde acende o xisto dos muros em tons de bronze e cobre. Nos socalcos que descem em degraus irregulares até ao Douro, a videira enrola-se em arames tensos, e o vento traz o cheiro a terra seca misturado com o aroma adocicado de esteva. Ao longe, o sino da Igreja Paroquial de Santa Cruz marca as cinco badaladas — som que se perde na curva do rio antes de chegar a Covelas, onde o vento já não o leva. É aqui, entre Santa Cruz do Douro e São Tomé de Covelas, que a montanha e o Douro se encontram sem pressa, tecendo uma paisagem de pedra, água e costelas partidas.
Duas aldeias, uma história comum
A união formal destas duas freguesias aconteceu em 2013, mas quem cá vive sabe que sempre foram vizinhas de sempre — separadas por um vale e umas quantas curvas, unidas pelos mesmos caminhos de terra batida. Santa Cruz do Douro deve o nome a uma antiga capela erguida no cimo da ladeira, onde as mulheres iam rezar para o parto correr bem. O cruzeiro de pedra do século XVI, junto à estrada, tem uma inscrição latina que ninguém lê há gerações — mas os mais velhos dizem que foi mandado fazer por um homem que sobreviveu à queda de um cavalo. Em São Tomé, a Igreja Matriz foi reconstruída no século XIX com pedras da antiga, mantendo o campanário sineiro que soa desafinado quando está frio.
Água que corre em regos antigos
Caminhar pelos trilhos é descobrir que a água tem memória. Os regatos — canais de pedra aberta que os avós chamavam de "levadas" — ainda trazem água das nascentes para as hortas em dias alternados, segundo a tabela que ninguém ousa alterar. A ribeira de São Tomé, que desce a saltos entre carvalhais, guarda nas poças o reflexo dos moinhos abandonados: três no total, o do Penedo ainda tem a roda presa ao eixo, mas o telhado caiu no ano passado. O Caminho dos Socalcos, que começa atrás da taberna do Sr. António, sobe por entre muros onde crescem figos silvestres — quem os prova fica com os dentes presos. No miradouro do Carril, o Douro aparece em pleno serpenteamento, mas é o cheiro a urze queimar no outro lado da encosta que marca o fim de tarde.
Festas que acordam a aldeia
Em maio, a procissão da Senhora de Ao Pé da Cruz sobe a ladeira com velas de cera de abelha que gotejam nas mãos das crianças. As cantigas ao desafio já não são como antigamente — agora há uma senhora de Viseu que vem de microfone — mas o bolo doce ainda se faz no forno do Zé Manel, com canela da horta e açúcar mascavado. Em agosto, São Bartolomeu traz gente que já não cá mora: os emigrantes que voltam para mostrar os netos, os filhos dos filhos que não sabem o nome das ruas. No concurso de pão, ganha sempre a D. Rosa, mas ninguém se importa porque ela traz manteiga caseira para toda a gente. O Cortejo do Ramo, no Domingo de Pentecostes, aguenta-se por quatro velhas que ainda sabem fazer as coroas de louro — as crianças querem é os rebuçados que a farmácia oferece. Em novembro, há quem deixe ainda o pão na mesa para as almas, mas é mais por hábito que por crença.
Sabor a lenha e pedra quente
A cozinha nasce do forno que o pai do Zé construiu em 72, com tijolos da antiga escola. O cozido leva chouriça de porco preto que o vizinho troca por vinho, e a couve vem da horta onde a neta plantou sementes que trouxe de França. O bacalhau vai ao forno com batatas ao quadrado — "nem muito grossas nem muito finas", como a mãe ensinou — e a broa é da Padaria Central, que ainda vai às 4 da manhã. O cabrito é do Sr. Joaquim, que os cria atrás da casa e mata-os no outono; leva alho da terra e louro da moita junto à estrada. Os bolinhos de São Tomé são mistério: cada casa tem a sua receita, mas ninguém revela se leva mais batata-doce ou mais farinha. O mel é do Celestino, que tem colmeias na serra e vende em potes de vidro que guarda o ano todo — tem gosto de esteva quando chove, de rosmaninho nos anos de seca.
Onde o xisto guarda o calor do dia
Ao cair da noite, os muros ainda queimam as costas de quem se senta. O silêncio é denso, mas não é total: há o cão do Abílio que ladra para o nada, o trator do Zé que aquece antes de ir para casa, a televisão da D. Amélia que se ouve pela janela aberta. O cheiro a lenha mistura-se com o fumo das folhas que queimam nos jardins — é tempo de limpar as vinhas. O Douro, lá em baixo, torna-se uma faixa sem luz onde se perde o olhar. É este cheiro a terra quente e a fumo verde que fica na roupa, lembrança de um lugar onde as pedras sabem os nomes de quem as colocou.