Artigo completo sobre Caretos de Várzea e o vale do Pelhe em Felgueiras
Cinco aldeias unidas entre vinhedos, granito e tradições centenárias no coração do Douro
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O som chega antes de qualquer imagem. Um chocalhar ritmado, metálico e insistente, que rebate nas fachadas de granito e se perde entre os vinhedos em socalco. Os Caretos de Várzea — figuras mascaradas que desfilam no Entrudo — assobiam e agitam campainhas pelas ruas estreitas, num ritual que ninguém sabe datar com exactidão mas que ninguém ousa interromper. Quem os vê pela primeira vez sente o peito apertar com o absurdo festivo daquelas silhuetas a correr entre casas senhoriais com brasões lavrados em granito cinzento, muros cobertos de líquen e quintais onde a vinha trepa em latada. Esta é a União das freguesias de Margaride (Santa Eulália), Várzea, Lagares, Varziela e Moure — cinco aldeias do concelho de Felgueiras que, desde a reorganização administrativa de 2013, partilham nome oficial mas conservam identidades muito próprias, esculpidas ao longo de séculos entre o vale do rio Pelhe e os outeiros cobertos de giesta.
Pedra sobre pedra, século sobre século
A toponímia conta logo parte da história. Margaride vem provavelmente do nome pessoal medieval "Margarido", registado em doações de terras dos séculos XII e XIII. Moure aponta para "mouro", indício de ocupação anterior — castros pré-romanos, talvez, cujas pedras foram absorvidas por gerações de construtores. A paisagem ondulada, entre os 200 e os 400 metros de altitude, favoreceu desde cedo a viticultura e a tecelagem de linho, duas actividades que moldaram a economia e a paisagem até bem dentro do século XX. No Largo da Igreja de Santa Eulália, o pelourinho de granito erguido em 1786 — o único do concelho fora da sede — marca o ponto onde se cruzavam justiça e comércio. Hoje, no primeiro domingo de cada mês, o adro volta a encher-se com um mercado de artesanato que ocupa o mesmo espaço, quase como se a pedra guardasse memória de transacções.
A Igreja Matriz de Santa Eulália, edifício setecentista, guarda no interior um retábulo barroco em talha dourada que apanha a luz da manhã por uma fresta lateral — o ouro reluz com uma intensidade que parece desproporcionada para a sobriedade da fachada em cantaria nua. Em Lagares, a Capela de São Sebastião, também do século XVIII, conserva azulejos da mesma época, com o azul cobalto a destacar-se contra a cal branca das paredes. E em Moure, a ponte medieval sobre o Pelhe — um único arco ogival de pedra — resiste à corrente com a mesma obstinação silenciosa de quem já viu passar setecentos invernos.
Onde a vinha resistiu à filoxera com murta e teimosia
A história vitivinícola destas terras tem um capítulo que os enólogos contemporâneos estudam com curiosidade renovada. Quando a filoxera devastou as vinhas do Douro e do Minho entre 1865 e 1875, os habitantes de Moure recusaram a rendição. Plantaram videiras em pequenas parcelas cercadas de murta — uma técnica de resistência natural que manteve viva a tradição local enquanto propriedades maiores sucumbiam. Hoje, a sub-região do Sousa produz Vinho Verde predominantemente branco, leve e fresco, que encontra par perfeito nos enchidos caseiros da zona. No Centro Interpretativo do Vinho Verde de Margaride, a prova de três rótulos locais acompanha-se de uma oficina de fabrico de chouriço — e o aroma a pimentão e fumeiro impregna a roupa durante horas.
A Rota das Quintas, um circuito de doze quilómetros que se percorre a pé ou de carro, passa por seis propriedades familiares com venda directa de vinho, compotas e artesanato. É nessas quintas que se prova a broa de milho com chouriço de vinho, ainda quente, cortada à mão sobre tábua de castanho. Os rojões à moda de Margaride — entremeada de porco bísaro com arroz de sarrabulho — são prato de festa e de sustento, servidos em louça funda, o molho espesso a soltar um vapor que cheira a banha, a cominhos, a terra. As papas de sarrabulho, enriquecidas com fígado de galinha e um toque de canela, dividem opiniões à primeira colherada e conquistam adeptos à segunda. Para fechar, o toucinho-do-céu de Santa Eulália, denso de gemas de ovos de galinha criada, com aquela textura que cola ao palato e se dissolve devagar.
Cinco moinhos e um tear centenário
O Trilho dos Moinhos liga Margaride a Moure ao longo de oito quilómetros que acompanham as levadas do Pelhe. Cinco moinhos de água recuperados pontuam o percurso — em cada um, o som muda ligeiramente: a roda que range, a água que bate na pedra com força desigual, o silêncio súbito quando o caminho se afasta do rio e sobe para um outeiro de urzes. Dali, o vale abre-se em socalcos verdes e castanhos, com os carvalhos-alvarinhos a marcar a fronteira entre vinha e bosque. Os percursos de BTT entre Lagares e Várzea seguem caminhos de xisto que estalam sob os pneus, e o posto de turismo local aluga bicicletas para quem prefira a descida ao esforço da subida.
Em Moure, o Loom Museu oferece um workshop de tecelagem de linho num tear centenário. A madeira do tear, escurecida por décadas de uso, tem um toque macio e oleoso. O ritmo dos pedais e da lançadeira cria uma cadência hipnótica — tac-tac, tac-tac — que explica como gerações inteiras passaram dias a fio nesta posição, transformando fibra em pano. A Feira anual de São Mateus, no terceiro fim-de-semana de setembro, ainda vende peças em linho e lã, lado a lado com artesanato contemporâneo.
O bispo que disse não
Desta terra saiu o Padre António Ferreira Gomes, nascido em Margaride em 1906, bispo do Porto entre 1952 e 1982. A sua oposição à ditadura — frontal, documentada, sem recuo — custou-lhe o exílio entre 1959 e 1970, quando Salazar lhe negou o regresso ao país. A carta pastoral de 1958, onde denunciava a "fome, a ignorância e o medo" do regime, conferiu-lhe uma estatura que ultrapassa a diocese. Caminhar pelo Largo da Igreja onde ele foi baptizado, com o pelourinho à esquerda e os vinhedos ao fundo, é perceber que a teimosia desta gente não se manifesta apenas na vinha cercada de murta.
A capela mais pequena do distrito
Em Varziela, escondida entre muros de granito e hortênsias que já perderam a cor no inverno, a Capela de Nossa Senhora da Conceição ocupa apenas nove metros quadrados — a mais pequena capela votiva do distrito do Porto. Construída em 1892 por iniciativa de um casal sem filhos, cabe lá dentro uma pessoa de joelhos e pouco mais. A porta de madeira gretada pelo sol abre com um rangido seco. Lá dentro, o cheiro a cera fria e a humidade antiga. É um espaço que não convida à permanência — convida à intensidade. E talvez seja essa a melhor definição para estas cinco aldeias reunidas sob um nome comprido: 17 695 pessoas, 1744 hectares de vale e outeiro, e a convicção silenciosa de que o que se faz com as mãos — vinho, linho, chouriço, pedra lavrada — não precisa de ser grandioso para ser exacto.