Artigo completo sobre Revinhade: Granito e Vinhas nas Encostas de Felgueiras
Revinhade, em Felgueiras, mantém comunidade viva a 440 metros de altitude, com património nacional classificado e vinhedos tradicionais nas encostas do Dou
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O granito queima os pés descalços ao meio-dia, mas às sete da manhã ainda guarda o frio da noite. É nessa hora que as mulheres de Revinhade descem às terras com o cabide de pano à cabeça - nenhuma usa chapéu, o tecido é mais leve e segura o cabelo ao mesmo tempo que abanica o suor. A 440 metros, o nevoeiro não é um visitante: é vizinho. Instala-se em Outubro e só despacha em Maio, quando os pessegueiros já estão com fruta do tamanho de uma bola de berlim.
A matemática que não fecha
Dizem 799, mas quem conta sabe que são menos. Na lista da junta faltam os que se foram embora há dez anos e ainda lá têm a morada da mãe. Os 101 putos até aos catorze não se vêm na rua - estão todos em Felgueiras, no agrupamento que fica a três quilómetros. O que se cruza são os reformados: 101, sim, esse número é certo. Estão nos bancos de cimento à frente do café "O Padrão", onde o galão custa oitenta cêntimos e vem com um corte de pão de milho que a D. Rosa faz numa frigideira de ferro que tem três vezes a idade da neta.
A densidade de 239 habitantes por quilómetro quadrado não conta as vacas. Nem os cães de guarda que ladram desde as cinco da manhã, quando o Zé Mário liga a moto para ir para a fábrica da Selmark. São 14 quilómetros até lá, faz-se em 20 minutos se não houver neblina. Ele sabe os pontos-mortos da estrada de cor: depois da curva do Carvalhal, antes da ponte de Sardoal, onde o nevoeiro se agarra ao capô como alguidar de sopa escorrida.
Vinhas que não sabem de vinhos verdes
As videiras não lêem diplomas. Aqui não há "região demarcada", há é socalcos que o avô do avô já abria com a enxada encurvada. A casta é azal - não essa que está nos manuais, mas a "azal de Revinhade" que a D. Lúcia guarda em sementes dentro de um frasco de compota no armário. Diz que vem de umas vinhas que o bispo mandou plantar há 200 anos, mas ninguém sabe se é verdade. O que se sabe é que o vinho fica ligeiro, quase ágido, e que mata a sede melhor que a coca-cola que só se bebe nas festas.
O granito não é cinza-azulado - é cinza-cinzento, com manchas pretas onde se acumula o musgo. Quando chove (e chove 180 dias por ano), torna-se escorregadio como sabão. É por isso que as botas de borracha são obrigatórias, as de camurça ficam arruinadas em duas semanas. No tanque da aldeia, onde as mulheres lavavam a roupa até aos anos 80, a pedra está lisa de tanto uso. Ainda se vêem as marcas do suporte onde se esfregava o sabão azul - agora é onde as crianças aprendem a nadar no Verão, quando a água que desce das minas não está gelada.
O que o monumento não diz
Há um cruzeiro na bifurcação para Paradela. É nacional sim, mas não é isso que importa. Importa é que foi lá que o Toninho beijou a Céu pela primeira vez, no São João de 1997. O cruzeiro é do século XVIII, dizem os papéis, mas para eles é o sitio onde ele lhe prometeu que voltava "a custo de vida". Voltou - passados 8 anos, com um Audi A3 e uma namorada de Lisboa que durou três meses. A Céu casou com o filho do dono do talho e agora tem três filhas que nunca usarão o vestido de renda que a avó lhe foi tecendo desde aquela noite.
O som que não tem nome
Às sete e meia da manhã, quando o sol finalmente salta o Monte do Pilar, ouve-se o primeiro tractor. É o Zé Paulo que vai para as "terras de cima" - são 45 minutos a pé, mas de tractor faz-se em 10. Atravessa a aldeia devagar, porque a neta ainda dorme no infantário que ocupa a antiga casa do padre. O som do motor ecoa nas paredes de granito como um trovão abafado - não é barulho, é aviso. Avisa que o dia começou, que o pão já deve estar na padaria de Cepelos (a única que ainda vai a pé), que os cães podem parar de ladrar porque já sabem que é ele.
Às sete da tarde, quando o nevoeiro sobe do rio Sousa como leite a ferver, o silêncio é outro. É o silêncio que faz cócegas nos ouvidos - tão denso que se ouve o sangue. É nessa hora que as televisões se ligam para o telejornal, que as sopas de couve começam a ferver, que as lenhas estalam dizendo "estou aqui". O fumo não sobe direito: enrola-se nas telhas como cobra que procura buraco. É o cheiro que diz a um emigrante onde fica a casa da mãe - mesmo sem GPS, mesmo sem nome na estrada.
O Inverno que não perdoa
Em Janeiro, o frio entra pelas frestas como água por alguidar rachado. As casas mais antigas têm janelas que não fecham - resolve-se com jornal embolado nas frestas e um cobertor aos ombros quando se vai da cozinha para o quarto. O leito dos rios secos enche-se de gelo que estala como vidro quando se pisa. É nessa altura que se fazem as matanças - o porco cria-se durante o ano todo só para estes dias. O cheiro do sangue cozido com farinha espalha-se pela aldeia toda, e as crianças sabem que é dia de "sarrabulho" quando acordam com essa mistura de doce e ferro na boca.
A tarde cai às quatro e meia. Não é metáfora - cai mesmo, como se alguém puxasse uma manta cinzenta sobre a aldeia. É nessa hora que os telemóveis começam a apitar: filhos que ligam de Lyon, de Newark, de Carcavelos. "Mamã, estás aí?" "Estou, filho, estou aqui." A luz da cozinha amarela projeta-se no chão de terra batida como quadrado de manteiga derretida. Do lado de fora, o nevoeiro já comeu a estrada. Do lado de dentro, o fumo da lenha desenha mapas no teto - mapas que só se percebem quando se tem saudade.