Artigo completo sobre Baguim do Monte: entre o asfalto e o ribeiro do Norte
Freguesia mais populosa de Gondomar onde o granito setecentista resiste ao betão metropolitano
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O sino da Igreja de S. Bento das Pêras toca às nove da manhã e o som propaga-se curto, abafado pelo trânsito matinal que já enche a estrada principal. Mas basta virar para a travessa que desce em direcção ao Rio Tinto — cinquenta metros, não mais — e o ruído dos motores dissolve-se no murmúrio da água sobre pedra. Há um cheiro húmido de terra e folha decomposta que sobe das margens, e a luz filtra-se entre copas de carvalho-alvarinho com aquela qualidade difusa, quase láctea, que só as manhãs do Norte de Portugal produzem nos meses frios. É neste intervalo — entre o asfalto e o ribeiro, entre o urbano e o que resta do rural — que Baguim do Monte se revela.
Com mais de catorze mil habitantes comprimidos em pouco mais de cinco quilómetros quadrados, esta é a freguesia mais populosa de Gondomar e uma das mais densamente povoadas de todo o Norte. Os números — 2634 pessoas por quilómetro quadrado — traduzem-se em prédios de quatro e cinco andares que cresceram a partir da segunda metade do século XX, quando a expansão da Área Metropolitana do Porto engoliu o que fora, durante séculos, uma pequena aglomeração rural. O próprio topónimo carrega esse passado agrário: "Baguim", do latim, remete para "casa de bens" ou "casa de bagos", evocando um celeiro ou propriedade de cultivo. Em cartas régias, a localidade aparecia como "Baguim de Cima", para a distinguir de "Baguim de Baixo", hoje freguesia vizinha. A confusão com Rio Tinto persiste — muitos tomam uma pela outra —, mas Rio Tinto é, na verdade, uma das principais zonas urbanas dentro dos limites de Baguim do Monte.
O granito setecentista e a bênção dos pães
A Igreja Paroquial de S. Bento das Pêras é o eixo do que existe de património edificado. Construção do século XVIII, de fachada sóbria em granito escurecido pelo tempo e pela humidade atlântica, ergue-se no centro da freguesia como uma âncora entre dois mundos: o das hortas que ainda subsistem nos quintais traseiros e o dos blocos residenciais que lhe cresceram em redor. No Verão, é dela que parte a procissão da Festa em honra de S. Bento das Pêras — missa cantada, foguetes que estalam no ar quente de Julho ou Agosto, barracas de gastronomia onde o fumo das grelhadas se mistura com o cheiro a algodão doce. O arraial estende-se pela noite, e as luzes das barraquinhas reflectem-se nas janelas dos prédios circundantes, criando uma sobreposição curiosa entre romaria e vida suburbana.
Mais discreta mas igualmente enraizada, a Festa de S. Brás acontece no início de Fevereiro, junto à pequena capela de campo dedicada ao santo. Aqui mantém-se a tradição da "carnavalada de S. Brás" e a bênção dos pães — um gesto que liga a freguesia ao tempo em que os fornos comunitários eram o centro da vida colectiva. Alguns desses fornos continuam activos, e o pão que deles sai, de côdea grossa e miolo denso, ainda aquece as mãos de quem o parte ao pequeno-almoço.
Rojões, sarrabulho e o vinho das videiras de quintal
A mesa de Baguim do Monte não ostenta certificações nem rótulos DOP, mas carrega a robustez da cozinha do Vale do Sousa. O rojão à moda de Gondomar — carne de porco cortada em cubos, frita na própria gordura até dourar, servida com castanhas ou tripa enfarinhada — é prato de sustância para dias curtos e céu cinzento. O arroz de sarrabulho, escuro de sangue cozido e temperado com cominhos, chega à mesa em travessa funda, fumegante. As papas de abóbora com feijoca, mais raras, surgem nas mesas de família sobretudo no Outono. Em época de festa, o caldo de castanhas aquece as noites de arraial, e há quem ainda produza, em pequenas parcelas de vinha familiar espalhadas pelas encostas suaves da freguesia, um vinho tinto verde — ácido, leve, com aquele travo vegetal que pede companhia de carne gorda.
Passadiços sobre a levada
O Trilho do Rio Tinto oferece cinco quilómetros circulares que partem junto à igreja paroquial e seguem a antiga levada até ao Parque Urbano de Rio Tinto. O percurso alterna entre passadiços de madeira sobre zonas alagadiças e caminhos de terra batida sob coberto de sobreiros e eucaliptos. Nos troços mais abrigados, o medronheiro e a urze formam matagais densos onde, na Primavera, o zumbido dos insectos substitui qualquer outro som. Junto às margens, lameiros estreitos atraem aves aquáticas — garças, galeirões — que se deixam observar a curta distância, indiferentes aos caminhantes. Para quem viaja com crianças, o parque infantil no extremo do percurso funciona como recompensa lógica.
A inserção da freguesia no Parque das Serras do Porto amplia as possibilidades: trilhos rurais ligam Baguim a Fânzeres e a Rio Tinto, e as colinas entre os cem e os duzentos metros de altitude proporcionam vistas sobre o tecido urbano do Grande Porto, com a Serra do Pilar e a ponte da Arrábida como referências distantes nos dias limpos.
Quinze minutos até à Invicta
A logística é um dos trunfos discretos de Baguim do Monte. O polo da Linha de Metro do Porto, no centro de Rio Tinto, coloca o viajante na Trindade ou em São Bento em quinze minutos — tempo suficiente para ler meia crónica no telemóvel. O Mercado Municipal, aberto de manhã nos dias úteis, é paragem obrigatória para quem quer perceber o ritmo quotidiano: bancas de hortaliça, conversas cruzadas entre vendedoras, o som metálico das balanças. A três quilómetros, o Centro Interpretativo da Cortiça de Gondomar explica a ligação histórica do concelho a este material, e o Solar dos Condes de Baguim, casa senhorial setecentista de traço rococó, merece o desvio pela elegância contida da sua fachada. Para serões de chuva, o Pavilhão Multiusos de Baguim acolhe competições de andebol e eventos culturais ao longo de todo o ano.
Ao fim da tarde, quando a luz desce e o granito da igreja paroquial ganha um tom quase ferrugem, o sino volta a tocar. Desta vez, sem pressa. E entre o último badalar e o silêncio que se segue, ouve-se — se se prestar atenção — o correr da água do Rio Tinto, lá em baixo, no fundo da travessa. É esse som, persistente e discreto sob a malha urbana, que Baguim do Monte guarda como assinatura: um rio que a cidade tapou mas não conseguiu calar.