Artigo completo sobre Xisto, carvão e memória operária em São Pedro da Cova
Conheça a União das freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova em Gondomar, Porto. Explore o Parque Arqueológico da Mina e a herança operária carbonífera.
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O som chega antes da imagem. Um eco metálico, quase fantasmagórico, reverbera dentro da galeria quando o capacete roça no tecto de xisto negro. A lanterna recorta veios escuros na rocha e, entre as camadas comprimidas há milhões de anos, desenham-se fósseis de plantas do Carbonífero — samambaias petrificadas, impressões de caules que já respiravam antes de existirem humanos. O ar é fresco e húmido, com um travo mineral que se cola à língua. Estamos no Parque Arqueológico da Mina de São Pedro da Cova, o único museu mineiro a céu aberto do país, e a descida à galeria subterrânea funciona como uma espécie de baptismo: quem entra aqui percebe, na pele e nos pulmões, o que significou durante quase dois séculos extrair carvão de pedra nesta encosta do concelho de Gondomar.
A primeira mina a céu aberto de Portugal abriu aqui em 1795. O que começou como uma ferida na terra tornou-se motor de uma pequena revolução industrial à escala local: galerias multiplicaram-se ao longo do século XIX, a população cresceu, e nos anos 1920 mais de cinco mil mineiros desciam diariamente às entranhas do Monte Murraco e dos relevos circundantes, fazendo deste o segundo maior centro carbonífero do país. A greve de 1843 — uma das primeiras grandes paralisações operárias nacionais — nasceu destas bocas de mina que ainda hoje se avistam entre muros de contenção de xisto, cicatrizes na paisagem que nenhuma vegetação conseguiu apagar por completo.
A cruz de Santiago e o sino de São Pedro
A União das Freguesias de Fânzeres e São Pedro da Cova, formalizada em 2013, juntou duas comunidades com identidades distintas mas entrelaçadas. Fânzeres — cujo nome deriva de "Faf-araes", terras do senhor medieval Faf — chegou a ser sede de concelho entre 1839 e 1852. São Pedro da Cova carrega no próprio nome a dupla herança: a devoção ao apóstolo pescador e a "cova" que alude às minas. O escudo da freguesia fundida combina o sino de São Pedro com a cruz de Santiago, e essa síntese não é apenas heráldica — sente-se ao caminhar entre as duas igrejas matrizes, separadas por 3,2 quilómetros de estrada sinuosa.
A Igreja Matriz de São Pedro da Cova, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1974, é um templo setecentista de nave única onde a luz entra filtrada e dourada pelos retábulos barrocos. A talha, densa e trabalhada, parece absorver o silêncio da nave. Em Fânzeres, a Igreja Paroquial de São Tiago mostra outra face do mesmo século: campanário sineiro destacado, painéis de azulejos setecentistas com o azul intenso que só a produção portuguesa daquela época conseguia, e uma ampliação oitocentista que lhe deu a escala actual. Dispersas pelo território, a Capela de Santa Bárbara — padroeira dos mineiros desde 1953 — e a Capela de São Bento das Pêras completam uma rede devocional que liga fé, trabalho e terra.
Folão, feijoada e o cheiro a lareira
A gastronomia destas ruas é filha directa da mina e do campo. A Feijoada à Moda de Fânzeres, densa de feijão vermelho, entrecosto, farinheira e chouriço fumado na própria lareira, é comida de quem precisava de calorias para aguentar turnos subterrâneos. O Chanfana de Cabrito — estufado em vinho tinto com louro e colorau — aparece nos dias de festa, quando o aroma escuro e quente se espalha pelas ruas antes mesmo de se ver o prato. Nos meses frios, as caldeiradas de peixe do rio aproveitam enguias e lampreias do Sousa e do Douro, servidas com pão escuro que absorve o caldo até à última gota.
Mas o sabor que mais se cola à memória é o Folão: bolinho frito de massa de ovo, açúcar e canela, consumido durante a romaria de São Tiago em Julho, quando a gordura quente perfuma o arraial e os dedos ficam pegajosos de doçura. Para acompanhar, cerveja artesanal fabricada em pequena escala com água das minas — um detalhe que fecha o círculo entre o subsolo e a mesa.
Trilhos entre galerias e carvalhos
Com 37.753 habitantes distribuídos por 21,96 km², esta é uma freguesia densa — 1.719 pessoas por quilómetro quadrado —, predominantemente residencial, mas que guarda bolsas de verde surpreendentes. O Trilho da Levada, com cinco quilómetros de dificuldade fácil, segue a antiga linha de água que servia as minas e passa por bocas de galeria abandonadas onde a flora ruderal reconquistou o terreno. Painéis explicativos pontuam o percurso, mas é a textura do caminho — terra batida, raízes expostas, o som da água que ainda corre por baixo — que prende a atenção.
No Parque Urbano de Fânzeres, doze hectares com lagos, percursos pedonais e estações de ginásio ao ar livre acolhem caminhantes matinais e famílias ao fim de semana. A Mata da Senra, mancha de bosque autóctone de carvalho-alvarinho e sobreiro, oferece refúgio a piscos-de-peito-ruivo e tartaranhões-caçadores. E ao final da tarde, a subida ao miradouro do Monte Murraco — 290 metros de altitude — recompensa com uma panorâmica sobre o vale do Douro que se estende até onde a neblina permite.
Santos, alecrim e pêras que não são milagre
As festas ritmam o calendário com precisão quase litúrgica. A 3 de Fevereiro, São Brás traz a bênção das gargantas e a distribuição de pequenos ramos de alecrim cujo aroma persiste nos bolsos dos casacos durante dias. Em Março, a Festa de São Bento das Pêras mantém a bênção dos campos e a distribuição de pêras aos fiéis — tradição que remonta a antigas promessas agrícolas e não a qualquer milagre, apesar do que a lenda sugere. O topónimo deve-se simplesmente a uma pomarada de pereiras que existiu no local. As bandas filarmónicas — herdeiras da tradição de António de Lima (1869-1931), compositor que dirigiu a Banda Filarmónica de Fânzeres e cujas marchas populares ainda se executam nas procissões — dão corpo sonoro a cada arraial, com metais que ressoam contra as fachadas de granito.
Às segundas-feiras, o Mercado de Fânzeres abre com bancas de couves, feijão verde e batata de pequena exploração, queijos regionais e enchidos artesanais. A antiga Estação de Comboios de Fânzeres, exemplar eclético do século XIX que pertenceu à primeira ferrovia de via estreita do Norte de Portugal — inaugurada em 1875 para transportar carvão até ao cais do Douro em Campanhã —, observa tudo em silêncio, desactivada desde 1990 mas intacta na sua dignidade de ferro e pedra.
Quando se sai da galeria do Parque Arqueológico e a luz do dia atinge os olhos, há um instante de desorientação. O xisto negro fica para trás, mas o seu cheiro mineral — húmido, antigo, irredutível — permanece nas mãos, como se a montanha tivesse apertado os dedos de quem a visitou e recusasse, ainda, soltar.