Artigo completo sobre Gondomar: 47 mil almas entre o Douro e o granito
Três freguesias unidas formam um dos territórios mais densos do distrito do Porto
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O rio está ali em baixo, largo e denso, a arrastar reflexos de cobre ao fim da tarde. Do alto da Rua de São Cosme — a 94 metros acima do nível do mar, pouco mais que uma colina mas o suficiente para mudar toda a perspectiva — o Douro não parece correr: parece respirar, lento, enchendo e esvaziando os pulmões entre Gondomar e Folgosa. O ar tem peso aqui. Humidade que sobe do vale, misturada com o cheiro vegetal das vinhas que ainda resistem na encosta junto ao Cais das Devesas, e o som intermitente da EN222 que lembra, sem cerimónia, que isto não é campo — é a terceira freguesia mais densamente povoada do distrito do Porto.
Três nomes, um território cosido à pressa
Em 28 de Janeiro de 2013, a reforma administrativa juntou três freguesias numa só: São Cosme, Valbom e Jovim. Três identidades com raízes medievais — Valbom já aparece em forais de D. Sancho I em 1192 — comprimidas numa designação burocrática de 43 caracteres. Gondomar surge em documentos desde 869, no Testamento de D. Flâmula, onde se refere ao "territorium Gundemari". São Cosme herdou o nome do santo mártir venerado na igreja paroquial desde 1541. Valbom é mais transparente: "vallis bona", uma descrição directa da fertilidade que o terreno oferecia aos horticultores que aqui vinham de barco vender produtos no Porto. Jovim permanece opaco — talvez de "Jovincum", propriedade romana do século IV que se localizava na actual Quinta da Torrinha.
O que se sabe é que esta era terra de vinha e horta até aos anos 1980. A construção da Ponte do Freixo em 1995 e do IC23 em 2001 fez o resto. Hoje, 47 422 pessoas — confirmado pelos Censos 2021 — vivem em 23,41 km². Isso traduz-se em 2 025 pessoas por km²: ruas como a Rua 25 de Abril em Valbom, onde os prédios de seis andares cresceram ao lado de quintas centenárias como a Quinta da Moura, com os seus muros de granito de 1743 cortados por garagens de betão. A urbanização não pediu licença à paisagem; instalou-se entre os caminhos de pedra que ligavam São Cosme à Capela de São Bento das Pêras.
O peso da demografia no passeio
Caminhar por esta freguesia é cruzar gerações em camadas visíveis. Há 5 832 jovens com menos de 14 anos e 10 164 residentes acima dos 65. Os números não mentem: por cada criança que se ouve no recreio da EB2,3 de Valbom, há quase dois idosos sentados no banco de granito junto ao coreto da Praça da República, com os joelhos cobertos por um xaile mesmo quando o sol aquece a pedra. Esta desproporção dá ao quotidiano um ritmo próprio — o Café Central enche às 10h30 quando os reformados saem do Centro de Dia, a Farmácia Silva tem fila constante às 16h00 para renovar receitas, e a Mercearia do Carmo ainda pesa o chouriço à mão, com a conversa ao balcão a demorar mais do que a compra.
Encostas que guardam o olhar
O terreno é acidentado, e isso salva-o. Onde a construção não chegou — ou chegou mas tropeçou no declive de 18% da Rua da Serra — sobrevivem encostas voltadas para o Douro com vinha americana que resistiu à filoxera. Em Valbom, nas Escadas do Garrano, a vegetação desce até quase tocar a água. O Ribeiro de Valbom corta o território por baixo da EN222, alimentando a Levada do Raso que ainda irriga quintas como a Quinta do Barbosa. Em São Cosme, há ainda 12 hectares de vinha, resíduos de uma vocação agrícola que o betão não apagou — os últimos vinhateiros vendem uvas à Cooperativa de Santa Marinha desde 1958. O Passadiço de Gramido, inaugurado em 2017, oferece 1,2 km junto ao rio — tábuas de ipé sobre a margem, onde se vê o barco do Zé Paulo a recolher redes de lampreia em Março.
A elevação média de 97 metros dá a estas encostas uma geometria particular: nunca se está verdadeiramente no alto, mas também nunca se está ao nível da água. Há sempre um desnível, uma rampa, um muro de suporte em xisto que marca a cota 60. Os pés sentem-no — calcetada de granito irregular na Rua do Mexido, cimento rachado na Escadinhas de São Brás, terra batida nos caminhos que ligavam Jovim ao cais de embarque de carvão na Praia de Fráguas.
Santos e fogueiras
Duas festas marcam o calendário: a Festa de São Bento das Pêras, no primeiro domingo de Agosto, e a Festa de São Brás, no terceiro domingo de Fevereiro. Em São Bento, a procissão sai da igreja matriz às 16h00 com os andores de ourivesaria de 1843, percorre a Rua Direita onde se mantêm as casas com escudos de armas do século XVIII, e termina com fogo-de-artifício lançado do adro sobre o Douro. Em São Brás, a confraria dos Clavários da Misericórdia de Valbom distribui 800 maços de pinhão torrado, mantendo tradição que vem de 1620 quando o santo protegeu a freguesia da peste. A freguesia tem dois monumentos classificados: o Solar dos Tovar, com a sua capela do século XVI e azulejos de 1710, e o referido Imóvel de Interesse Público na Quinta da Costa onde D. Maria I hospedou-se em 1788.
Dormir entre o rio e a cidade
Para quem chega de fora, há 68 alojamentos registados na plataforma municipal — desde o apartamento na Avenida da República onde a D. Alda aluga dois quartos desde 1995, até aos quatro quartos no Hostel Douro View que abriu em 2019 no antigo armazém de tanoaria. A oferta é modesta, funcional, sem pretensões de luxo. Não é aqui que se encontra o hotel de charme com vista para o Douro; é aqui que se encontra a janela do apartamento alugado na Rua do Passeio Alegre, com as fotos dos netos na televisão, de onde se avista um recorte do rio entre a fábrica desactivada da Siderurgia Nacional. A logística é simples: 19 minutos de metro do Campanhã até à estação de Valbom, com comboios de 15 em 15 minutos durante a hora de ponta, uma acessibilidade que justifica o nível de ocupação do território que começou com a construção dos primeiros blocos da CML em 1976.
O som que fica
Há um momento, ao fim do dia, quando o último 906 da STCP sobe a Rua da Senhora da Hora e o trânsito abranda. Do lado de Valbom, se se descer as 183 escadas do Calçadinho até ao Cais do Cavalo, ouve-se o Douro — não como uma torrente, mas como um murmúrio contínuo de água grossa contra o molhe de granito onde os barcos deixavam sal em 1930. É um som que não se confunde com o de nenhum outro rio, porque carrega nele o peso de todo o vale, das 47 caves que existiam em São Cosme em 1758, dos barcos de vazio que transportavam carvão de Vila Nova para as siderúrgicas. E é esse murmúrio — não a vista, não a história, não os números — que se leva desta freguesia para casa. Um som grave, paciente, que continua às 3h00 da manhã quando o Zé Manel acende o motor do barco para ir buscar as redes de lampreia, muito depois de quem visita ter partido.