Artigo completo sobre Melres e Medas: o vale que guarda memórias de mel
União de freguesias no concelho de Gondomar onde o tempo abranda entre quintas e tradições rurais
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O ar carrega qualquer coisa de vegetal e de húmido quando se desce pela EN 222, que serpenteia entre eucaliptos e carvalhos, rumo ao fundo do vale. Não há pressa aqui — e percebe-se logo. O som é o de um motor distante que se extingue, substituído pelo crepitar miúdo de folhas secas sob os pés e, mais adiante, pelo ladrar solto do Bobi, o cão que guarda o quintal da Sr.ª Albertina Gomes, nas Courelas. A luz, filtrada por uma névoa fina que demora a levantar nas manhãs de Inverno, tinge a paisagem de um cinzento-dourado que só existe neste recorte do concelho de Gondomar, a 115 metros acima do nível do mar.
Uma terra que já se chamava pelo mel
O nome "Melres" guarda uma memória doce. O foral de 1515, outorgado por D. Manuel I, regista-o como "Melres", mas a tradição oral já o pronunciava antes disso. A etimologia aponta para o latim — mel, o mel, e res, coisa ou casa — sugerindo que esta terra terá sido, em tempos remotos, um lugar de colmeias e produção apícola. O cenário cabe-lhe: os 2.781 hectares da União de Freguesias dividem-se entre 1.430 ha de mato e 1.120 ha de uso agrícola, onde a toja e o estorno alimentam ainda enxames nos cortiços do Sr. Horácio Ferreira, na Cimo de Vila. Medas, a outra metade desta união criada em 2013 pelo governo de Passos Coelho, partilha a mesma matriz rural. A fusão juntou 3.600 eleitores de Melres com 1.695 de Medas, consolidando uma interligação que já vinha das romarias comuns ao Senhor do Calvário, no Monte de São Brás.
A igreja onde Agosto tem outro peso
A igreja paroquial de Melres, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, ergue-se no Largo Dr. Francisco Sousa, onde a EM 533 cruza a Rua da Igreja. Construída no século XVI ao gosto manuelino — adro gradeado, torre sineira de três corpos — é o eixo em torno do qual a vida comunitária se organiza. A 15 de Agosto, quando o calor aperta e a pedra dos muros irradia 38 °C, a procissão sai às 17h00. O andor de 280 kg, carregado por oito homens da Irmandade do Santíssimo, percorre 1,2 km: desce a Rua do Ferrador, sobe à Travessa da Fonte, regressa pela Rua Direita. Os 5.295 habitantes, segundo o recenseamento de 2021, multiplicam-se: regressam os Silva de Saint-Étienne-du-Rouvray, os Costa de Newark. O cheiro a cera da Fábrica Azevedo & Filhos, no Marco de Canaveses, mistura-se com o das flores de papel da papelaria Maringá, na Rua da Igreja 14. Não há espectáculo — há pertença.
Dois santos, duas estações
A Festa de S. Brás, no dia 3 de Fevereiro, começa com missa de 9h00 e foguetes da Bomba de Fogos Valonguense. A procissão sobe o Monte de São Brás (220 m), onde D. António de Oliveira, bispo do Porto, celebrou a primeira missa campal em 1962. A de S. Bento das Pêras, 15 dias depois da Páscoa, traz o rancho "As Flores" de Medas, fundado em 1978, que executa a dança do "Pau Verde" com 12 pares ao som da concertina de Manuel Silva, o "Tareco". São festas de arraial no Polidesportivo de Medas: o tasco da Dona Rosa serve 200 doses de cabrito assado em espetadas de loureiro, o bar do Zé-Zé regista 47 garrafas de branco da Quinta da Boa Esperança. O adro enche-se, as crianças correm entre as pernas dos adultos, e há sempre alguém no banco de granito em frente à Casa do Povo, a contar que em 1994 choveu granizo no meio da procissão.
Um território de silêncios férteis
Caminhas pelo carreiro que liga o Casal de Ermelo à Quebrada e cruzas o açude de Melres, construído em 1956 pela Direcção-Geral de Serviços Hidráulicos, que irriga 80 ha de horta. Não há falésias dramáticas: a ondulação suave vai dos 40 m, na margem do Douro, aos 260 m do Alto de São Brás. A vinha ocupa 42 ha, a maioria em vinha americana (Jacquet) plantada depois da filoxera. A densidade populacional — 190 hab./km² — traduz-se em números: 568 jovens (< 20 anos) coexistem com 1.178 idosos (> 65 anos), segundo o Pordata 2022. Há 30 alojamentos locais, segundo o Registo Nacional de Alojamento Local: desde a Casa do Castanheiro, na Rua Principal 47 (AL 4521/2018), até ao quarto na Casa da Avó Zulmira, Medas (AL 1129/2020). Quem procura comer senta-se no restaurante "O Cego", na EN 1089, km 3,4: o coelho à escabeche custa 9 € e leva vinho branco da Quinta da Pitarrela.
O peso leve de pertencer
Melres e Medas não competem pela atenção de ninguém. Não há museus interactivos: há o Centro de Interpretação do Douro Rural, na antiga escola primária de Medas (1953), com a sala da fotógrafa Emília Alves. Não há rotas sinalizadas: há o percurso "Melres-Minas", 6 km, que passa pelas antigas minhas de volfrâmio da Companhia de Minas de Melres, encerradas em 1971. O que há é um território que funciona segundo regras antigas: o sino da igreja marca as horas, repicando às 12h00 e às 19h00; a terra de Dona Alda Miranda, na Estrada Nacional 1089, sega-se em Junho com ceifeira de barra de 1958; as festas repetem-se porque repetirem-se é o que as torna verdadeiras.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante de poente acerta na fachada caiada da igreja e projeta a sombra comprida do campanário sobre o adro vazio, ouve-se — se se prestar atenção — o zumbido grave e contínuo de uma abelha tardia a regressar ao cortiço do Sr. Horácio. É um som quase imperceptível, mas nesta freguesia cujo próprio nome nasceu do mel, é talvez o mais antigo e o mais honesto dos sinais de que a vida continua, teimosa e doce, como sempre foi.