Artigo completo sobre Barrosas: vinhas em ramada e cruzeiro de romeiro
Freguesia vinhateira na Serra da Boneca preserva lagares antigos e cruzeiro de Santiago de 1741
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O sino da torre bate três pancadas secas. O eco ressoa sobre os socalcos de xisto, onde as folhas da videira verde ondulam ao vento, deixando ver por baixo o chão de terra batida. No adro da Igreja de Santo Estêvão, o cruzeiro de granito de 1741 projecta uma sombra oblíqua sobre a calçada irregular. Uma mulher fecha a porta do carro, segura um ramo de flores brancas e atravessa a praça em direcção à missa das onze. Barrosas acorda devagar, como quem não tem pressa de chegar a lado nenhum.
A freguesia estende-se pela vertente noroeste da Serra da Boneca, a 409 metros de altitude, dominando o vale do Rio Ovil. Aqui o solo é argiloso — o "barro" que deu nome ao lugar —, e os vinhedos trepam em ramadas de madeira velha, técnica antiga que permite ao ar circular sob as folhas, protegendo a uva do bolor e conferindo ao vinho verde a frescura que o distingue. Nos dias de vindima, em Setembro, ainda se pisam as uvas em lagares de granito abertos, ao ar livre, enquanto alguém desafia os outros para uma cantiga ao desafio e um copo de mosto novo passa de mão em mão.
O cruzeiro que veio de Santiago
No adro da Igreja Paroquial de Santo Estêvão ergue-se um cruzeiro classificado como Imóvel de Interesse Público, mandado construir por um romeiro que regressou a pé de Santiago de Compostela. As inscrições, ainda legíveis, indicam que serviu de marco miliário no antigo Caminho de Porta Nova, a rota que ligava o interior ao Porto. Dentro da igreja, a talha dourada dos retábulos barrocos brilha sob a luz das janelas altas, e os azulejos pombalinos cobrem as paredes laterais da capela-mor abobadada, numa profusão de azuis e brancos que contrasta com o granito cinzento das pilastras.
Dispersos pela freguesia, pequenos cruzeiros de pedra marcam encruzilhadas, capelas rústicas guardam imagens de madeira policromada, e espigueiros de granito resistem ao tempo junto às eiras. A paisagem é de muros de xisto que sobem e descem os montes, suportando hortas familiares, pomares de citrinos e vinhas conduzidas em pérgola. A Ribeira de Cavalos forma pequenas cascatas naturais, procuradas no Verão por quem conhece os caminhos menos óbvios — se não conheces, pergunta pelo Zeferino do café, ele explica-te onde ficam.
Mesa robusta, vinho leve
A cozinha de Barrosas é minhota e sem artifícios. O caldo de nabos fumega na tigela de barro, carregado de chouriça e farinheira. O arroz de sarrabulho, escuro e denso, acompanha-se de rojões à minhota com batatas estaladiças e colorau. Nos dias de festa grande, serve-se o cozido à portuguesa em travessas fumegantes. O pão-de-ló sai do forno de lenha ainda quente, húmido no centro, e o toucinho-do-céu desmancha-se na boca com sabor intenso a amêndoa e gema. À mesa, o vinho verde branco — ligeiramente gaseificado, fresco, com acidez viva — corta a gordura do fumeiro. Depois do café, uma aguardente de vinha velha, guardada em garrafão de vidro, fecha a refeição. É forte que nem o Zezé a lavar roupa, mas vai com jeitinho.
A festa que duplica a freguesia
No domingo seguinte a 15 de Agosto, Barrosas transforma-se. A Festa Grande do Concelho em honra do Senhor dos Aflitos atrai milhares de peregrinos e emigrantes regressados, duplicando a população residente. A procissão percorre as ruas enfeitadas com colchas bordadas nas janelas, bandas filarmónicas tocam marchas solenes, e a feira instala-se na praça com artesanato, doces regionais e vinho a copo. À noite, o arraial prolonga-se até tarde, com música popular e foguetes que iluminam o céu sobre os socalcos. É quando o Alfredo, que emigrou para França em 74, se lembra que afinal até gosta disto — só vem cá para as festas, mas vem sempre.
A 5 de Fevereiro, Santa Águeda — padroeira das mulheres e protectora contra o fogo — recebe missa cantada, bênção do pão e distribuição de bolos tradicionais. Durante a Quaresma, o cortejo dos Passos leva imagens de madeira pelas aldeias, e em Maio as raparigas colorem as cruzes junto às esquinas das ruas.
Caminhar entre moinhos e levadas
A Rota dos Moinhos parte da igreja e desce até à Ribeira de Cavalos, passando por três moinhos de água recuperados, levadas de pedra e pontes estreitas. São quatro quilómetros que se fazem bem, mesmo depois do almoço — mas leva água, que o café do meio do percurso só abre quando o António tem vontade. O percurso atravessa bosques de carvalho-alvarinho e pinhal bravo, onde se ouvem o milhafre-real e a águia-de-asa-redonda. Do miradouro da Serra da Boneca, a vista abre-se sobre o vale do Ovil, com os socalcos desenhando linhas horizontais no verde intenso da paisagem. Dizem que a serra tem esse nome porque vista de lado parece uma boneca deitada — vai lá tu ver se é verdade.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante dourar as folhas das videiras e o cheiro a lenha começar a subir das chaminés, fica o som da água a correr nas levadas — constante, discreto, como uma respiração antiga que nunca parou.