Artigo completo sobre Caíde de Rei: onde o sino marca o ritmo da terra
Freguesia de Lousada com 2423 habitantes entre vinhas, festas religiosas e tradição viva
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O som do sino da igreja matriz — aquele mesmo, de ferro fundido que se partiu em 47 e o Sr. Albano soldou de volta — desce a encosta abaixo como um aviso. São oito badaladas que se perdem entre os muros de xisto e as videiras que ainda aguentam os palafitas de madeira podre. Em Caíde de Rei, onde a estrada municipal 205 faz a curva perigosa junto ao cemitério, o nevoeiro da manhã traz o cheiro a estiércis que o Adolfo espalhou no campo das patranhas antes do galo cantar.
Cá em baixo, na rua do Cruzeiro, a D. Idalina já pôs o pão no forno da padaria que fechou em 98 mas ela mantém aceso. São 2423 almas por conta, mas na prática são menos: os jovens foram todos para a Margem Sul ou para o Canadá, e só voltam no fim de semana da festa — quando o senhorio dos Aflitos transforma a vila num formigueiro de gente com vontade de promessas e saudades na boca.
O dia em que o Senhor dos Aflitos desce à vila
Começa na sexta-feira, com a procissão das velas que desce desde o Cruzeiro Alto até à igreja. Os homens vão de camisa branca e a mulher do Zé Manel vende cerveja escondida no cesto da roupa porque o padre não permite tendas perto do adro. Ao sábado, os cânticos começam às cinco da madrugada — é a alvorada que ninguém consegue dormir, com os bombos do Vilar a marcar o compasso que se sente no estômago. No domingo, depois da missa das oito, o São João dá sopa de cebola a toda a gente e o vinho verde corre de garrafões de cinco litros que o pai do Bruno traz do Marco de Canaveses. Não é vinho de marca, é de ramo mesmo, com aquela bolha que faz cócegas na língua e deixa os olhos marejados depois do terceiro copo.
O que se come quando ninguém está a ver
Na taberna do Horácio — que é só uma porta na cave da casa dele — há sempre chouriço de carne fumado na lareira. Ele corta às fatias grossas, serve em pratos de barro e não aceita dinheiro: "Depois logo se vê", diz. Acompanha com pão de milho que a mulher do Horácio faz no forno de lenha, aquele que fica no quintal junto à figueira. Se for inverno e chover, aparece sempre alguém com uma garrafa de aguardente caseira — a da D. Alice que destila no alambique do vizinho e que faz arder a garganta de quem não está avisado.
O silêncio depois da colheita
Quando a uva acaba e as folhas das videiras ficam vermelhas como ferrugem, a vila enterrece. Os tractores arrastam-se pela EN333 com os reboques vazios, o cão do café do Quim deixa de ladrar às passaradas e até o sino parece mais cansado. É nesta altura que o ar cheira a terra virada e a folhas a apodrecer — um cheiro doce e ácido que se fica na roupa como promessa de chuva. Às cinco da tarde, quando o sol se esconde atrás do monte do Viso, as sombras estendem-se pela estrada como dedos compridos e o frio sobe dos pés para dentro dos ossos. É hora de regressar a casa, acender a lareira com pinho seco e esperar que amanhã o sino volte a tocar — talvez mais tarde, porque o sacristão gosta de dormir mais uma horinha quando o tempo aperta.