Artigo completo sobre Nespereira e Casais: vinhas, festas e vida rural
Entre vinhedos do Vinho Verde, duas aldeias preservam tradições e ritmos da terra em Lousada
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da igreja bate doze vezes e o som abre caminho entre os campos. Não é o único: logo ao lado ouve-se o cão do Adão ladrar, depois o ronco abafado do tractor do Sequeira a subir a lomba. Nespereira e Casais não são postais — são duas aldeias que ainda rangem os ossos de manhã. A 203 metros, o ar traz terra queimada depois da chuva e, nas manhãs frias, a fumaça das lareiras sobe direita como um dedo.
Duas Aldeias, Uma Freguesia
A união veio no papel, mas cá em baixo cada lado manteve a sua boca de lobo. Em Nespereira o adro é maior e há sempre três ou quatro de bengala a combater o tempo. Em Casais a fonte é que manda: quem vai buscar água depois do jantar conta o dia inteiro. São 3434 habitantes, mas na terra marca mais quem falta: as casas fechadas com persianas verdes, as chaminés sem fumo, as fotografias nos cantos dos cafés.
A vinha continua a mandar. Estamos na zona mais quente dos Vinhos Verdes: Loureiro, Arinto e Trajadura em latadas altas que obrigam a esticar o pescoço. Durante as vindimas o cheiro a mosto fica preso à roupa e os tractores entopem as estradinhas, deixando pegadas purpúreas que a chuva demora a levar.
O Senhor dos Aflitos e Santa Águeda
A Festa do Senhor dos Aflitos é o que resta do ano. Durante três dias a estrada nacional transforma-se em feira: a banca da dona Alzira faz milhões em farturas, o Quim dos cavalos vende rimas de balas por um euro e os emigrantes aparecem com a pele morena e o discurso pronto. A procissão desce devagar: o andor balança, os foguetes rebentam no ar e só se faz silêncio quando o padre levanta o braço. É nessa pausa que se ouve o coração da aldeia.
Em fevereiro, Santa Águeda passa mais despercebida, mas não menos sentida. As mulheres saem à rua com os penteados presos por fita, carregam a imagem e cantam. Há quem leve broa de milho ainda quente, há quem aqueça vinho com canela para dar às mãos geladas. É o dia em que elas mandam — e os homens fingem que não gostam.
O Quotidiano Entre Gerações
A escola básica de Nespereira ainda tem três turmas, mas o 1.º ciclo de Casais fechou há três anos. No Café Central, ao meio-dia, cruza-se a juventude nos carrinhos de golfe com os velhos na Sueca. Os primeiros falam de futebol e de obras em Braga; os segundos falam de tempos em que o milho era medido em alqueires e o vinho vendido a garrafas de três litros.
Ainda há quem labre a terra com dois bois, ainda há quem faça vinho para encher a garrafa de novembro. Mas também há vinha abandonada: os netos foram para o Porto, a renda não paga os dias. De vez em quando aparece um estrangeiro a querer comprar casa, olha para o silêncio, oferece metade do preço e vai embora.
Quando o sol se põe atrás do Monte do Marco, o sino volta a bater. Não é chamamento — é só a hora que passa. Nas vinhas já ninguém, só o vento a mexer nas folhas e um cheiro leve a uva pisada que ficou preso ao ar.