Artigo completo sobre Nevogilde: onde o granito guarda memórias medievais
Conheça Nevogilde em Lousada, Porto: freguesia com 343 hectares de vinhas, igreja barroca setecentista e a secular Festa do Senhor dos Aflitos.
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O adro da igreja ergue-se sobre a pequena elevação, e o granito dos degraus guarda ainda a humidade da manhã. Lá em baixo, entre os muros de xisto que desenham parcelas estreitas, as vinhas estendem-se em socalcos irregulares até onde a vista alcança os primeiros carvalhais. O sino toca ao meio-dia — o mesmo que foi baptizado em 1947, depois de ter sido recolhido em 1936 para fundir com os outros, durante a guerra civil de Espanha — e o som propaga-se devagar sobre os telhados de telha escura, sobre os pátios onde secam os panos ao sol, sobre as hortas onde alguém trabalha encurvado entre as couves.
Nevogilde não grita a sua presença. Ocupa apenas 343 hectares na geografia de Lousada, mas o nome traz consigo o peso de uma memória antiga: Nova Gilda, a guilda nova, documentada pela primeira vez em 1258 no Livro dos Forais de Afonso III. As escrituras do século XIII mencionam-na já como comunidade organizada — com foral próprio e obrigações de tributo ao Ordão de Fontarcada — e essa vocação de trabalho colectivo atravessou os séculos. Hoje, os 2451 habitantes mantêm viva a Irmandade do Senhor dos Aflitos, fundada em 1713, uma das mais antigas do Vale do Sousa. A devoção manifesta-se todos os anos na Festa Grande do concelho, quando o arraial transforma o adro em palco de romaria, fogueiras e bailarico ao ar livre. A procissão percorre exactamente o mesmo trajecto desde 1854: desce a Rua do Cemitério, vira à esquerda na Rua da Igreja, sobe até ao Cruzeiro de 1782 e regressa pelo adro.
O barroco dourado e os azulejos setecentistas
A Igreja Paroquial de Nevogilde, reconstruída entre 1723 e 1738 por iniciativa do prior Domingos de Araújo, ergue-se no centro da freguesia como testemunho de um século XVIII devoto e próspero. O portal de granito abre para um interior onde a talha dourada do retábulo-mor (1734, atelier de José de Sousa) captura a luz das janelas laterais, reflectindo-a em tons quentes sobre as paredes revestidas de azulejos. Os 48 painéis da fábrica do Rato datam de 1742-1745 e representam episódios da vida da Virgem com uma paleta azul e branca que aqui se mantém inalterada — o azul-cobalto ainda se nota na borda esquerda do painel da Anunciação, onde a tinta não foi totalmente queimada. Mais discreta, mas não menos significativa, a capela de Santa Águeda resiste no meio rural: construída em 1666 por mandado de António Dias Carneiro, tem pia baptismal de granito com inscrição latina legível ainda hoje. A padroeira é celebrada a 5 de Fevereiro com procissão, missa solene e a distribuição do bolo tradicional — receita que Maria da Ascenção guardou durante 73 anos e que agora passou à neta, mantendo o peso exacto de 12 ovos para cada 2 kg de farinha.
Vinhas, ribeiros e trilhos entre o xisto
A altitude modesta — 183 metros — não impede que a paisagem ondule em suaves colinas onde se alternam soutos, vinhas e manchas de carvalhal. Ribeiros de águas limpas cortam o território em direcção ao Rio Sousa: o de Nevogilde nasce na Serra de São Mamede, junto ao lugar de Cidadelhe, e desagua 14 km depois, já em Freamunde. Ao longo das margens cresce o musgo verde-escuro que só prospera onde a água nunca falta — os mais velhos dizem que quando o musgo seca, é sinal de inverno rigoroso. O trilho pedestre que liga a igreja à capela de Santa Águeda, aberto em 2008 pela Associação de Caçadores mas baseado em caminhos medievais, serpenteia entre muros de xisto cobertos de fetos, passa junto a latadas carregadas de uvas brancas — o Loureiro é a casta dominante aqui, plantada desde 1892 depois da filoxera ter dizimado as vinhas anteriores — e oferece pausas naturais à sombra dos sobreiros. Não há áreas protegidas classificadas, mas o equilíbrio rural mantém-se intacto: as parcelas pequenas (média de 0,3 ha), os caminhos de terra batida, o ritmo lento das estações.
Sabores que se cozinham no forno de lenha
A gastronomia de Nevogilde ancora-se na memória do fumeiro e do forno comunitário. O de Nevogilde, reconstruído em 1952 no mesmo local do anterior (que datava de 1847), ainda funciona todos os sábados: é preciso marcar com a D. Ilda ao sexto dia útil do mês, trazer a lenha própria — carvalho ou sobreiro — e pagar 5 euros pela limpeza. O cabrito assado em lenha de carvalho emerge dourado e aromático, a pele estala sob os dentes, a carne desfaz-se com a pressão do garfo. O arroz de sarrabulho, preparado no dia seguinte ao matanço tradicional (que ainda acontece em Janeiro, nas quintas de Vale de Maceira e Outeiro), traz o sangue e as miudezas do porco à mesa em preparações densas, temperadas com colorau de Esposende e cominho da terra. Nas tasquinhas que abrem durante as festas, servem-se francesinhas de carne de porco da terra — versão local mais robusta e menos codificada que a prima portuense, com pão de milho e linguiça de sangue. A doçaria conventual completa a refeição: toucinho-do-céu da receita de 1912 da avó Albertina, bilhóres fritos no azeite novo (primeira semana de Dezembro), doces de ovos que concentram o açúcar e a gema em texturas untuosas. E o vinho verde, fresco e ligeiramente efervescente, lava o palato entre garfadas — o da Quinta do Outeiro, colheita manual em caixas de 20 kg, fermentação em cubas de cimento de 1963.
A vereda para Lousada e o piquenique junto à ribeira
Há uma vereda rural que sai de Nevogilde em direcção à sede do concelho, caminho usado há séculos por quem ia vender produtos ao mercado ou assistir a ofícios religiosos maiores. Hoje, percorrê-la a pé é entrar numa geografia de silêncios pontuados: o chilrear súbito de um melro, o murmúrio constante da água que corre entre pedras, o ranger de um portão de madeira que alguém fecha ao longe. A meio caminho, uma clareira junto à ribeira convida à paragem — pedras lisas pelo uso secular, sombra generosa, água limpa que reflecte o verde das copas. É aqui que, desde 1974, as famílias fazem o piquenique no domingo de Pentecostes: trazem o arroz de sarrabulho em tacho de ferro, o vinho em garrafões de barro, e deixam as crianças descalças na água até ao cair da tarde.
Ao cair da tarde, quando o sol rasante incendeia as fachadas caiadas e o granito das ombreiras ganha tons de mel, Nevogilde revela-se no detalhe que importa: o cheiro a lenha que sobe das chaminés (ainda 73% das habitações usam aquecimento de lenha, segundo os Censos 2021), o eco dos passos na calçada irregular — feita com lajes de xisto extraídas na pedreira de Santa Comba até 1983 —, o peso dos séculos guardado em cada portal de pedra lavrada. Aqui, o quotidiano não precisa de espectáculo para existir.