Artigo completo sobre Águas Santas: fontes milenares no coração da Maia
Nascentes históricas, património manuelino e memória romana numa freguesia viva do Porto
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A água corre antes de se ver. Ouve-se primeiro — um fio contínuo, quase sussurrado, que escapa por entre a pedra da Fonte da Pipa, manuelina, gasta pelo toque de séculos de mãos e cantaros. O granito tem a cor cinzenta-esverdeada de quem convive com humidade permanente, e a superfície está polida nos pontos exactos onde gerações de mulheres pousaram os dedos. É manhã, o ar carrega um frescor que não combina com Junho, e o cheiro é a terra molhada misturada com o perfume adocicado dos tílias do Jardim da Fonte. Estamos a cento e dezoito metros de altitude, no coração de uma freguesia com mais de vinte e seis mil habitantes, e no entanto este recanto soa a aldeia — o murmúrio da água abafa o trânsito da Rua de São Tiago, como se a nascente reclamasse anterioridade sobre tudo o resto.
É precisamente essa anterioridade que dá nome ao lugar. "Agvas Santas" — assim aparece num mapa de 1623, com o "v" em vez do "u", testemunho de uma fama que já corria em época romana: fontes de água pura, reputadas curativas, suficientemente célebres para atrair quem passava a caminho de Santiago ou simplesmente procurava alívio. A toponímia é transparente, mas nunca perdeu força. Ainda hoje, o escudo da freguesia ostenta uma fonte e uma estrela de cinco pontas, alusão a Nossa Senhora do Bom Despacho, padroeira local. E ainda hoje, quem percorre a "Rota das Fontes" — um trilho de cinco quilómetros que liga cinco nascentes históricas — encontra, junto à Fonte de São Tiago, pequenas oferendas deixadas por peregrinos: fitas, moedas, bilhetes dobrados.
O granito que guarda o caminho
A Igreja Paroquial de São Tiago de Águas Santas é o epicentro de tudo. Classificada como Monumento Nacional, ergue-se desde o século XVI sobre o lugar onde, na Idade Média, já existia um templo junto a uma das nascentes. O interior guarda um retábulo barroco do século XVIII — talha dourada que captura a pouca luz filtrada pelas janelas estreitas, projectando reflexos ambarinos nas paredes caiadas. No adro, um cruzeiro granítico do mesmo século desenha a sua sombra comprida sobre a calçada nas tardes de Verão. É aqui que dois caminhos de Santiago — o Central Português e o do Norte — ainda se cruzam antes de se separarem no limite com Moreira da Maia, num ponto assinalado por um marco miliário moderno. A pequena Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, erguida sobre uma antiga ermida setecentista, serve de paragem aos peregrinos que seguem o traçado Central. Quem carrega credencial pode selá-la no Posto de Turismo instalado na antiga casa do guarda-linha — um edifício baixo, de pedra e telha, que recorda o tempo em que o comboio era rei. E com razão: em 1928, a estação ferroviária de Águas Santas foi palco do primeiro comboio eléctrico da Península Ibérica a circular em linha secundária.
Moinhos, levadas e garças no rio
A água que deu nome à freguesia não se limitou a curar — fez girar mós e alimentar teares. No século XIX, fábricas têxteis instalaram-se aqui para aproveitar a força dos cursos de água, e dessa herança industrial sobrevivem os moinhos recuperados: o Moinho do Meio e o Moinho de Cima, onde hoje funciona um Centro Interpretativo com workshops de pão de milho, o cheiro da farinha a espalhar-se pelo ar húmido do interior de paredes grossas. A sul, o Rio Ave marca a fronteira da freguesia e oferece o melhor percurso ao ar livre — a Ecopista do Ave, construída sobre a antiga linha ferroviária, estende-se por oito quilómetros até à ponte romano-medieval de Lidador, vestígio civil de passagem obrigatória para quem seguia para norte. Pedala-se devagar, entre levadas e pequenos lameiros onde garças pousam imóveis, como se talhadas em gesso. A norte, o Monte da Maia sobe até aos cento e oitenta metros, coberto de carvalho-alvarinho e azinheira, e o Parque Urbano de Águas Santas — doze hectares de lagos, circuito de manutenção e sombras densas — funciona como pulmão verde para uma densidade de mais de três mil habitantes por quilómetro quadrado.
Sarrabulho, leitão e massa folhada com doce de ovos
A mesa de Águas Santas cheira a lenha e a milho. As papas de sarrabulho — ensopado denso de enguias e pão — chegam à mesa fumegantes, e os rojões à Minhota vêm acompanhados de papas de milho amarelas, compactas, cortadas em fatias grossas. Nos dias de festa, o protagonista é o leitão assado, servido no tradicional "bodo" da Festa em Honra de Nossa Senhora da Hora, no terceiro domingo de Agosto, entre ranchos folclóricos e uma procissão luminosa que percorre ruas estreitas sob o calor residual do dia. Para acompanhar, Vinho Verde branco da sub-região — leve, gaseificado, com acidez que corta a gordura do assado. Nos doces, o "doce de Águas Santas" é um pastel de massa folhada recheado com doce de ovos, e as "fatias de São Tiago" — barras de massa de amêndoa polvilhadas com açúcar — desaparecem depressa das bancas do arraial.
Procissões, máscaras e fogo no céu
O calendário festivo começa cedo. No primeiro domingo de Junho, a Festa de Nossa Senhora do Bom Despacho enche o adro da capela com barracas de gastronomia, música popular e fogo-de-artifício que ecoa contra as fachadas de granito da Quinta da Ventuzela — casa senhorial brasonada, hoje centro cultural. Na Quaresma, o "Cortejo dos Passos" traz irmandades com andores que representam episódios da Paixão, num silêncio pesado, quebrado apenas pelo arrastar dos pés na calçada. E em anos alternados, na véspera de Carnaval, ressurge o "Enterro do Bacalhau" — sátira popular com máscaras de cartonagem e desfile de charangas, riso solto que contrasta com a solenidade quaresmal que se avizinha. A 25 de Julho, romaria de São Tiago: peregrinos que percorrem o troço final do Caminho Central até à igreja matriz, mochilas ao ombro, conchas penduradas, a credencial quase completa.
O som que fica
Há uma nascente — a "Fonte dos Franceses", assim chamada porque tropas de Soult se terão abastecido ali durante a invasão de 1809 — que corre num recanto discreto, meio escondido por hera e musgo. Não tem a monumentalidade da Fonte da Pipa, nem as oferendas da Fonte de São Tiago. Mas é a que melhor se ouve ao fim da tarde, quando o trânsito abranda e o ar arrefece. Um fio de água sobre pedra gasta, constante, anterior a tudo o que foi construído em redor. É esse o som que se leva de Águas Santas — não como memória, mas como vibração que demora a sair do ouvido, como se a própria freguesia continuasse a correr, algures, dentro de nós.