Artigo completo sobre Castêlo da Maia: o sino no poço e os grafitos na pedra
Vila medieval com feira desde 1417, torre-prisão e cruzamento de caminhos para Santiago
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O sino não toca — está algures no fundo de um poço, pelo menos na memória colectiva da vila. Dizem que em 1809, quando os franceses vinham aí para cima, os maiatos desceram o sino da Igreja Matriz até ao poço do castelo para o salvar do saque. Verdade ou lenda, a história resume bem Castêlo da Maia: escondemos o que temos de mais valioso, mas quando é preciso, protegemos aquilo que é nosso.
Ao Largo Dr. José Vieira de Carvalho, numa quinta-feira de manhã, o ar cheira a couve e a terra molhada. A feira — a mais antiga do concelho, com licença do rei D. João I desde 1417 — monta-se ali com a mesma naturalidade há seis séculos. Há doces de convento em cima de toalhas de linho, queijo fresco de cabra que ainda suja a mão, hortícolas que vieram de bicicleta dos campos de volta. O pregão da mulher do requeijão mistura-se com o ruído de uma furgoneta da Mimosa a descarregar caixotes.
A torre que serviu de cadeia
O Castelo já não manda no horizonte como antigamente. Sobraram umas pedras da cintura amuralhada e a Torre de Menagem, onde agora há um centro de interpretação. Lá dentro, uma exposição conta a vida medieval e a passagem dos peregrinos — Castêlo é cruzamento de dois caminhos para Santiago, o Central e o da Costa. Mas o que vale a pena ver são os grafitos na parede norte: nomes, datas, cruzes e figuras riscadas por quem esteve preso ali até 1926. O granito guardou tudo, como quem guarda recibos.
A dois passos, a Igreja Matriz de Santa Maria Maior ergue-se com ar de quem já viu tudo. Reconstruíram-na depois do terramoto de 1755, mas o retábulo-mor em talha dourada ainda apanha a luz da tarde e faz parecer que a igreja está por dentro a arder em tons de mel. No adro, o Cruzeiro do Senhor do Bom Despacho faz companhia à Nossa Senhora que veio do Brasil em 1753. Um capitão-maiense prometeu trazê-la se sobrevivesse à tempestade. Cumpriu.
Ruas que se percorrem sem pressa
O centro histórico é para andar a pé, sem destino. O Caminho dos Arcos deve o nome aos arcos que sustentavam cisternas medievais e conserva a escala de quando a vila era só o que se via da torre da igreja. As casas de granito têm varandas de ferro forjado que servem para pendurar a roupa e para os gatos se espreguiçarem. O Solar dos Condes de Azevedo, que agora é da câmara, em dias de chuva transforma-se em sala de concertos — os violinos ecoam nas paredes como se a casa fosse feita de madeira.
Na Rua da Igreja, o Chafariz de 1787 já não abastece ninguém, mas a pedra continua húmida, como se a água se lembrasse de onde costava estar.
E depois há o circunflexo no Castêlo. É a única vila do país que o mantém, por teimosia ou por não saber escrever de outra maneira. Como o relógio da torre da câmara — de 1887, ainda vai a corda, dada por um relojoeiro cujos filhos e netos continuam a função. Todas as semanas, lá vai ele.
Moinhos, vinhas e o vale do Ave
A freguesia assenta numa colina a 99 metros de altitude, o que por cá é quase montanha. O vale do Ave marca o sul, com as suas galerias de amieiro e salgueiro onde as garças fazem fila para pescar. A Rota dos Moinhos começa na Igreja Matriz e vai até ao Moinho do Penedo. Três quilómetros que servem para justificar o almoço. São cinco moinhos de água, todos parados, com as mós imóveis e a hera a fazer de dona.
Ao norte, o Parque Urbano tem 12 hectares de carvalhais e pinhais. O miradouro serve para ver o sol pôr-se sobre o vale e a linha do mar lá ao fundo, se o dia estiver limpo.
A volta é vinha, pomar e horta. Os vinhos são verdes da sub-região da Sousa, brancos leves de Loureiro e Arinto. Na Quinta da Santa Maria fazem provas no lagar antigo. O cabrito é o prato obrigatório — no forno de lenha, com arroz de grelos e batatas coradas. Se for preciso, justifica-se com uma caminhada.
Festas que marcam o tempo
Agosto é Nossa Senhora da Hora. A Caminhada da Hora leva milhares desde a Igreja Matriz até à capela, com velas e promessas. Setembro é Bom Despacho, com procissão, bazaar e fogo-de-artifício. Na Quaresma, o Enterro do Bacalhau — um bacalhau de papelão julgado e enterrado — é a sátira que marca o início da abstinência com gargalhadas. Maio traz as Maias, com altares de flores e cantigas ao desafio. No Natal, o Presépio Vivo ocupa as ruas com figurantes de verdade, que gelam mas não se queixam.
Numa freguesia com quase 19 mil habitantes, estas coisas funcionam como cola — mantêm-nos juntos quando o betão quer separar.
O que fica
Há uma hora, ao fim da tarde de quinta-feira, em que os feirantes já foram embora e o largo fica vazio. O granito ainda guarda o calor do dia. Do relógio da câmara, se o silêncio for suficiente, ouve-se o tique-taque — um som que não muda há mais de um século. É esse barulho, que quase ninguém nota, o verdadeiro pulso de Castêlo da Maia.