Artigo completo sobre Pedrouços: chocalhos de lata e cruzeiros de granito
Freguesia da Maia onde dois caminhos de Santiago se cruzam e a Chocalhada de Carnaval ainda ressoa
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O som chega antes da imagem. Um repique metálico, irregular, como se alguém sacudisse latas velhas — e é isso mesmo, são os chocalhos da Chocalhada de Carnaval que ainda lhe sobem à cabeça dias depois. Em Pedrouços até o silêncio tem esse eco: o reboco cai, a pedra aparece, e o que parece ruína é só a casa do Sr. Albino que ninguém quis demolir. Onze mil e quinhentas pessoas em duzentos e cinquenta e quatro hectares: aqui até o espaço é apertado como casaco de puto no Natal.
Petroçes, a grafia que ficou na pedra
Na igreja — a do Bom Despacho, essa que o pároco tranca às sete e meia porque “lá fora já há luz suficiente” — há uma lápide de 1620 com “Petroçes” escrito à martelada. O retábulo é dourado, os azulejos são azuis e a humidade entra pelos cantos como quem conhece a casa melhor que nós. Do lado de fora, o cruzeiro aponta duas direcções: uma para Santiago, outra para o café Silva onde o bica ainda é 65 cêntimos. As conchas amarelas estão pintadas com tinta de escrever placas de trânsito — duram mais que as outras.
Fornos que ainda se vêem da rua
A Faianceira fechou há quarenta anos, mas os fornos ainda aparecem na Rua da Estrada como dentes partidos. O Manuel, que ali foi oleiro desde os catorze, agora dá aulas ao sábado: “Barro é como gente, quanto mais lhe chateares a cabeça mais te obedece.” No ateliê Olaria Pedrouços fazem tachos de barro negro que não engorduram — útil para o arroz de sarrabulho que mete medo às calorias.
A rota que desce até ao rio
A Rota dos Moinhos é cinco quilómetros que se fazem em dois, porque a descida engana. O moinho tem uma roda que só gira quando a Câmara abre a comporta — às dezas e meia, pontual como bilhete de comboio. Levem guarda-chuva: o Verde do rio é mesmo verde e cai em cima. No fim há uma fonte onde as mulheres ainda levam as jarros de plástico, apesar da água da torneira ser a mesma.
Gemas, amêndoa e vinho verde à mesa do peregrino
No Peregrino, o Zé serve o caldo com rodelas de chouriço que estoiram como pastilhas efervescentes. A broa é da Padaria Nova — fecha às quartas, como o presidente — e o vinho verde vem em jarro de barro porque “o vidro faz bolhas e o cliente acha que é champanhe”. O toucinho-do-céu tem tanto ovo que parece subsídio de Páscoa: come-se de colher, de pé, antes que arrefeça.
O peso exacto de uma concha na palma
Quem sai pela ecopista leva duas coisas: uma concha de latão comprada ao Toninho (3 €, aceita Multibanco) e a dor no quadril da subida à ponte. A concha cabe no bolso, mas o peso é outra história: é o granito que aqui se plantou, o barro que aqui se amassou, o vinho que aqui se bebeu. E, no fim, ainda dá para abrir uma cerveja no caminho — porque Santiago é longe e a sede é agora.