Artigo completo sobre Vila Nova da Telha: subúrbio da Maia entre vinhas e betão
Freguesia com 6 mil habitantes vive na fronteira entre o rural que foi e o periurbano que se tornou
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O vento cheira a couves a cozer e a roupa na corda, com um fundo de gasóleo dos tractores que ainda sobem às quintas. A sessenta metros acima do mar, o chão é tão plano que as crianças da Escola da Portela dizem que "não há desculpas para chegar atrasadas". Quando chove, a água corre tão depressa pelas ladeiras da Catanhede que os sapatos ficam molhados na passadeira do Lidl — é ali que se vê quem é de cá e quem vem de fora: os primeiros saltam os charcos, os segundos queixam-se no Facebook.
Seis mil almas entre o campo e a cidade
Há 6004 habitantes, mas quem aqui vive sabe que são 6005 — o velho Zé da Bica ainda está nos registos, mas está lá em cima a ver-nos desde 2019. No Café Central, o Sr. Alfredo pesa o pão de forma à mão e pergunta "é para levar na saca do Goucha ou na outra?" porque sabe que toda a gente guarda as sacas de plastico debaixo do lava-loiça. Às segundas, a fila do talho tem cheiro de cloro: é dia de piscina na escola, e as mães esperam com o cabelo húmido.
Duas festas, duas devoções
A Festa do Bom Despacho começa quando o António da Padaria traz os primeiros pasteis de nata ainda quentes — são para a irmã que está na comissão e não tem tempo de almoçar. No domingo à noite, as pessoas dançam no adro da igreja com os sapatos das filhas nas mãos, porque o chão de pedra escorrega de cerveja derramada. Às tantas, o padre vai-se embora com as chaves do autocarro da pastoral na mão: "Alguém tem de levar os coroincas a casa, não são eles que me vão levar a mim."
Vinhos Verdes a sessenta metros de altitude
O Sr. Eduardo ainda tem uma parreira no quintal que dá para o muro do gás. Diz que o vinho "sabe a chuva de sul" — é a única coisa que o filho, que é engenheiro no Porto, não consegue replicar no apartamento dele. Em Setembro, as uvas são tão maduras que rebentam nos dedos das crianças que roubam um cacho a caminho da escola. O cheiro fica na roupa e as professoras sabem logo quem foi.
Dois caminhos, uma passagem
Os peregrinos param no café da Nelinha porque ela deixa carregar o telemóvel na tomada da máquina de café. "É a única que não disparou ainda", diz ela, mostrando o quadro onde escreve "café 0,60€, carregar telemóvel 0,50€". Quando pergunta "é para Santiago ou é para a Lidl?", é porque já sabe a resposta pela roupa: os do Norte vão todos de coturno, os da Central já perderam um olho ao sol nas auto-estradas.
O subúrbio como texto
Não há monumentos, mas há a passadeira da Dr. Marques onde toda a gente pára — mesmo sem carros — porque a D. Amália conta histórias da guerra à janela e ninguém tem coragem de a interromper. O Instagram aqui é o mural da Junta onde colam os cartazes das aulas de Zumba, e que fica com as marcas de fita-cola até ao próximo cartaz. Quem tira foto é o pessoal da empresa de segurança do aeroporto que vem almoçar o cozido à segunda — trazem tupperware e deixam-nos na banca do Café Central com o nome escrito em letra de forma.
O som que fica
Às sete e meia da manhã, o autocarro 603 faz o ronco que acorda os gatos do Largo do Souto. É o mesmo som que ouvia a minha avó quando me punha à janela para ver se já vinha o meu pai do trabalho na noite. Hoje, o som continua, mas agora traz estudantes para a Maia. Quando pára, ouve-se o silêncio — aquele que só existe entre duas passadas de uma pessoa que conhece o caminho de olhos fechados.