Artigo completo sobre Sande e São Lourenço: vinhas e castros no vale do Douro
Castro de Sabroso e vinhedos em socalcos definem a paisagem desta freguesia de Marco de Canaveses
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O sol ainda mal rompe por trás dos terraços quando o sino da capela de São Brás desperta quem ainda dorme. No vale, entre vinhas que descem em degraus irregulares até às ribeiras, a neblina apaga os limites entre o verde e o castanho. A paisagem aqui organiza-se como as prateleiras de uma mercearia antiga — lameiros húmidos na base, videiras a meio, carvalhos e sobreiros no alto. Nada disto toca o Douro, mas tudo lhe obedece.
A pedra que viu tudo
No Castro de Sabroso, os muros de pedra ainda desenham no chão as casas de quem cá viveu antes de haver estradas. Martins Sarmento escavou aqui no século XIX, numa altura em que a arqueologia era um hobby para senhores com tempo livre. Hoje, ao amanhecer, quando a luz rasante bate no granito, a vista sobre o vale explica porque escolheram este lugar: vê-se tudo, de longe, sem te verem. O vento traz o cheiro da terra revolvida e, em Setembro, o aroma adocicado das uvas que se pisam nas vindimas.
Duas aldeias, uma freguesia
Desde 2013 que Sande e São Lourenço partilham o mesmo papel. Mas quem cá vive sabe que são duas coisas diferentes. A junta mantém duas sedes, porque 2445 habitantes espalhados por estas aldeias não se rendem a uma só. Em São Lourenço, a igreja paroquial é aquela construção discreta que passa despercebida aos domingos de manhã. Na rua de São João, a capela com o mesmo nome guarda as memórias de quem já não cá está. Em Sande, a Capela de São Brás enche-se a 3 de Fevereiro, quando a romaria traz gente dos arredores e os caminhos de terra se transformam em processão. O Grupo Coral de São Lourenço, que existe desde 1972, ainda marca presença nas missas — os homens de casaco escuro, as mulheres de preto, vozes que sobem até às abóbadas de pedra.
O que a terra dá
Os vinhedos estendem-se em patamares que parecem escadaria para gigantes. O vinho verde que aqui se faz tem aquela acidez que limpa a boca e pede um copo grande. Durante a vindima, que começa em Setembro, há sempre alguém que te convida para entrar. Servem o vinho ainda verde, com rojões à moda do Minho — carne de porco que marinharam ontem, batatas a murro que queimam os dedos. O mel DOP das Terras Altas do Minho chega em frascos de vidro, dourado como os dias de Verão. No forno de lenha, o cabrito assa devagar enquanto o alecrim se mistura com o fumo. É isto que se come aqui, sem estratégias de marketing nem apresentações em pratos de designer.
Onde se vai quando se tem tempo
O trilho que liga a Capela de São Brás à de São João faz-se em meia tarde. Passa-se por vinhas, lameiros e bosques onde as ribeiras correm limpas entre pedras musgosas. O silêncio só se parte com o canto de aves ou o ladrar de um cão que guarda quintal. No polidesportivo, há um miradouro com mesas de pedra — lugar perfeito para comer pão de milho com queijo curado, ou um toucinho-do-céu que ainda está quente. O saneamento básico chegar a 98% não é detalhe: é sinal de que aqui se vive no século XXI, apesar das aparências.
Quando a tarde cai e as sombras se alongam, o Rancho Folclórico "Estrelas Douradas" ensaia no salão da junta. Os passos marcam o ritmo no chão de madeira, as saias rodam, e pela janela entreaberta escapa o som do acordeão — uma melodia que se perde entre as vinhas, misturando-se ao murmúrio da água que desce, invisível, rumo ao Douro.