Vista aerea de Vila Boa de Quires e Maureles
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Porto · CULTURA

Vila Boa de Quires: três mil anos entre castros e vinhas

Freguesia de Marco de Canaveses onde a pedra lavrada conta séculos de história e autonomia antiga

3460 hab.
320.5 m alt.

O que ver e fazer em Vila Boa de Quires e Maureles

Património classificado

  • MNIgreja de Santo André

Produtos com Denominação de Origem

Festas e romarias em Marco de Canaveses

Junho
Festa de São João Dia 24 festa popular
Julho
Festas do Marco Segundo e terceiro fim-de-semana festa popular
ARTIGO

Artigo completo sobre Vila Boa de Quires: três mil anos entre castros e vinhas

Freguesia de Marco de Canaveses onde a pedra lavrada conta séculos de história e autonomia antiga

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Al final de la tarde, cuando la luz rasante tiñe de ocre las paredes de la Casa do Carvalho y la campana de la Matriz vuelve a tocar, el eco se prolonga entre los muros del palacio inacabado de los Portocarreiros. Queda el sonido suspendido en el aire frío de la altitud, mezclado al olor a viña y a humo de chimenea —contraseña sensorial de una parroquia donde el nombre germano aún resuena, tres mil años después, en las piedras de un castro que nunca dejó de vigilar el valle.

O badalar do sino da Igreja Matriz chega filtrado entre as copas dos carvalhos, mistura-se com o murmúrio da Ribeira de Bufa e desce pelos socalcos onde a vinha verde cresce agarrada ao granito. Em Vila Boa de Quires e Maureles, a 320 metros de altitude, o ar traz o cheiro a terra molhada e a lenha de forno, e os muros das casas senhoriais — pedra lavrada em 1512, 1737, séculos que se acumulam em silhares marcados por siglas de pedreiro — desenham a memória de uma freguesia que já foi couto com câmara, cadeia e pelourinho próprios.

Três mil anos de pedra e nome

O Castro de Quires ergue-se no planalto com três linhas de muralhas concêntricas, testemunho calcolítico que os romanos reaproveitaram. Mais tarde, os suevos deixaram o nome: Quires, genitivo de Quederici, um chefe germânico cujo rastro sobreviveu na toponímia. Em 1129, D. Flâmula Moniz doou terras ao Mosteiro de Paço de Sousa; por volta de 1185 ergueu-se aqui o Mosteiro de Vila Boa de Quires, convertido em igreja paroquial cerca de 1320. Entrar no templo é cruzar camadas de tempo: retábulos dourados capturam a luz das velas, e na parede lateral, a pintura do Juízo das Almas — séculos XVII-XVIII — lembra a todos que a balança pesa actos, não intenções. Durante a ampliação do século XIX, os operários encontraram uma pedra com inscrição que desapareceu, fantasma epigráfico de fases construtivas anteriores.

Fora da igreja, a freguesia espalha-se em casario brasonado: a Casa do Carvalho (1737), a Casa de Cavalhões (séc. XVIII), a Casa da Lavandeira (1512), a Casa de Eidinho (séc. XV). No extremo, o palácio inacabado dos Portocarreiros — família que deu nome à Honra de Portocarreiro desde 1057 — ergue paredes que nunca conheceram telhado, projecto interrompido que o vento atravessa livremente. É o que dizem os mais velhos: "Começaram a construir com ambição de duques, mas o dinheiro acabou antes do sonho. Agora é um palácio de vento, onde as andorinhas fazem ninhos nas janelas sem vidro."

Vinho verde, mel de montanha e fogueiras de São João

A gastronomia ancora-se no território: Vinho Verde de casta local, fresco e ligeiramente gaseificado, que os habitantes chamam "água colorida", acompanha os rojões à moda do Minho e o sarrabulho servido em tigelas de barro que ainda fazem no lugar de Travanca. O cabrito assado, temperado com alho e colorau, leva quatro horas no forno de lenha — o segredo está em regar com vinho branco a cada meia hora. O fumeiro — chouriço, salpicão, linguiça — pende dos tetos das cozinhas, cura ao fumo de carvalho durante três meses, tempo que dá para contar bem as histórias de cada enchido.

Na véspera e no dia 24 de junho, a Festa de São João incendeia a freguesia: fogueiras em cada bairro, sardinhas na grelha a 2 euros dúzia, rusgas que atravessam a noite em bailarico e desafio. Os rapazes ainda vão às casas pedir o "lenço de São João" — um pedaço de pano que as raparigas dão, e que no dia seguinte se troca por um beijo (ou por uma desculpa esfarrapada, depende da coragem). As Festas do Marco, por seu turno, enchem o adro de procissões, oferendas e arraiais onde se vendem produtos artesanais — incluindo demonstrações da antiga feitoria de chapéus de palha, ofício que resiste em mãos cada vez mais raras. A dona Albertina, com 87 anos, ainda faz os chapéus do mesmo jeito que aprendeu com a mãe: "É palha de centeio, colhida em agosto, depois vai para a água quente, depois para o prelo. Demora o seu tempo, mas um chapéu bem feito dura uma vida."

Trilhos entre mamoas e ribeiras

Os caminhos pedestres ligam o Castro de Quires à Mamoa de Chã de Chouçal, monumento funerário neocalcolítico que se ergue solitário entre oliveiras e sobreiros. O percurso atravessa vinhedos em socalcos, cruza o Ribeiro de São Paio — onde os miúdos ainda vão apanhar berbigões no verão — sobe ao Monte de Perafita. Lá de cima, vê-se a torre da igreja a sobressair no vale, parece um dedo a apontar para o céu. Não há praias nem grandes serras, mas a altitude moderada e o silêncio denso dos bosques de carvalho convidam à observação de melro-preto e pintarroxo. Leve água, porque o café mais próximo fica a 3 km, e leve também um pedaço de pão de maturada — quebra o dente, mas é bom que se farta com queijo da serra.

Nas quintas que produzem Vinho Verde, a prova acontece em caves frescas onde as pipas de carvalho guardam o líquido esverdeado. O Sr. Armando, na Quinta da Veiga, serve num copo de água — "é para ver a cor, se está bonita, é porque está bom". Comprar Mel das Terras Altas do Minho DOP é conversar com o apicultor, ouvir a explicação sobre floradas e transumância, levar para casa um frasco onde o planalto se condensa em âmbar espesso. E se levar dois, faz desconto — "um para si, outro para a sogra, que depois não se queixe que só se lembra dela no Natal".


Ao final da tarde, quando a luz rasante tinge de ocre as paredes da Casa do Carvalho e o sino da Matriz volta a tocar, o eco prolonga-se entre os muros do palácio inacabado dos Portocarreiros. Fica o som suspenso no ar frio da altitude, misturado ao cheiro a vinha e a fumo de lareira — senha sensorial de uma freguesia onde o nome germânico ainda ressoa, três mil anos depois, nas pedras de um castro que nunca deixou de vigiar o vale.

Dados de interesse

Distrito
Porto
DICOFRE
130741
Arquetipo
CULTURA
Tier
standard

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteEstação de comboio
SaúdeHospital no concelho
EducaçãoEscola básica
Habitação~918 €/m² compra · 3.71 €/m² rendaAcessível
Clima15.4°C média anual · 1400 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

50
Romance
50
Familia
35
Fotogenia
45
Gastronomia
25
Natureza
35
Historia

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Perguntas frequentes sobre Vila Boa de Quires e Maureles

Onde fica Vila Boa de Quires e Maureles?

Vila Boa de Quires e Maureles é uma freguesia do concelho de Marco de Canaveses, distrito de Porto, Portugal. Coordenadas: 41.2006°N, -8.2107°W.

Quantos habitantes tem Vila Boa de Quires e Maureles?

Vila Boa de Quires e Maureles tem 3460 habitantes, segundo os dados dos Censos.

O que ver em Vila Boa de Quires e Maureles?

Em Vila Boa de Quires e Maureles pode visitar Igreja de Santo André. A região também é conhecida pelos seus produtos com denominação de origem.

Qual é a altitude de Vila Boa de Quires e Maureles?

Vila Boa de Quires e Maureles situa-se a uma altitude média de 320.5 metros acima do nível do mar, no distrito de Porto.

35 km de Porto

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