Artigo completo sobre Custóias: vida suburbana entre sinos e densidade
Freguesia de Matosinhos com 15 mil habitantes em 6 km², entre o património religioso e o quotidiano
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O sino da Igreja da Nossa Senhora de Oliveira bate as horas com atraso de dois minutos — já ninguém liga, até porque o som abafa no trânsito da Rua de Tomazes. Em Janeiro, quando o vento vem de Noroeste, a campainha viaja mais longe: entra pelas chaminés das moradias da Doca, roça os telhados de laje da Avenida da República e morre junto ao continente do Bom Sucesso. Não há grande declive aqui, é verdade, mas há desníveis de memória: quem cresceu na Quinta da Conceição ainda chama “o campo” ao terreno onde agora há um Lidl.
A densidade de quem fica
Dois mil trezentos e trinta e oito habitantes por quilómetro quadrado. O número traduz-se em fila para estacionar à porta da padaria Regina (bolos de noz desde 1978), em conversas sobre o Benfica no café Progresso, em pais que se encontram à porta da EB 2,3 D. António Feijó para trocar impressões sobre os miúdos. Custóias não é uma freguesia que envelhece: é uma freguesia que guarda. Há netos a estudar na mesma sala onde os avós aprenderam a escrever “Porto” com letra cursiva.
O mártir que resiste ao calendário
A Festa de São Sebastião começa com alheiras na porta da Igreja Matriz ainda antes da missa das nove. Quem acampa no adro desde a noite anterior não é turista — é o pessoal da cooperativa Agrícola que monta as bancas de vinho quente, são as irmãs da Conferência de S. Vicente de Paulo que fritam sonhos dentro de sacos de plástico amarelo. Às dez da manhã de domingo, o pai Fernando já vai na terceira procissão: uma pela alma da mulher, outra pelo neto com problemas de coluna, a terceira por costume. O resto do ano guarda-se o andor no depósito municipal, entre rodas de automóvel e caixas de natas.
Granito com selo de Estado
O Pelourinho de Custóias fica escondido atrás do muro do cemitério, a cinco metros do café O Padrinho. Pouca gente o visita, mas todos o usam: é ali que se marcam encontros de “encontro-me no pelourinho” quando se quer fugir ao trânsito da rotunda. A pedra está lisa do toque de gerações: miúdos que esperam pelo autocarro 507, pessoal da GNR que vem beber café, velhos que se lembram quando o chão era terra batida. Ninguém lê a placa da DGPC, mas toda a gente sabe que aquilo “é antigo”.
A Costa que passa por aqui
O Caminho da Costa entra por Leça, sobe a Rua de Real, corta a antiga estrada nacional e desaparece na passagem de nível das Carvalhidas. Quem caminha encontra o que não está no roteiro: o muro do estádio do Leixões pintado de azul-ultramar, o cheiro a sardinha do restaurante O Túnel, o cão do Sr. Armindo que ladra sempre que vê mochila. O símbolo da concha amarela está colado por cima de um cartaz de 2016 a anunciar bailes de kizomba. Não há albergue, mas há a pensão da Dona Lurdes — quarto duplo com pequeno-almoço por 25 € e máquina de café que funciona às socas.
O peso justo do ordinário
Custóias não precisa de postais: tem o seu próprio ritmo. Às segundas é dia de feira no Largo da Igreja — tomate a 1,20 €, couve-flor maior que a cabeça de uma criança. Às quartas o autocarro 104 enche-se com pessoal da Mota-Engil que desce para a praça do Marquês. Às sextas há rancho no centro de dia, serve-se às 12h30 em pires de barro com pão de milho. Caminhar ao fim da tarde é sentir o cheiro a gás das lareiras a lenha que ainda resistem nos prédios antigos, ouvir o estouro da bola de berlim quando o miúdo do 3.º andar chega da escola. Nada disto é excecional — é só a vida a acontecer entre o campo de mato que resta atrás da Zona Industrial e o café Tupi que ainda tem máquina de tabaco.