Artigo completo sobre Guifões: o rio Leça que ainda respira entre o betão
Freguesia de Matosinhos onde a água dita o ritmo e a memória resiste ao asfalto e à densidade
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O cheiro a terra húmida chega primeiro. Depois, o som — um murmúrio contínuo de água que corre entre caniços, quase abafado pelo trânsito distante da antiga Estrada Nacional 13. A estrada que os mais velhos ainda chamam "Estrada Real" porque por ali, noutros séculos, passavam as diligências que ligavam o Porto ao norte do país. Em Guifões, o Rio Leça não é paisagem de fundo: é presença física, uma veia de água que se ramifica em braços e charcas, alimentando uma planície que mal ultrapassa os catorze metros de altitude. É aqui, neste território plano e denso — quase dois mil e quatrocentos habitantes por quilómetro quadrado —, que uma freguesia com quase cento e noventa anos de existência oficial continua a negociar, diariamente, entre a memória do que foi e a pressão do que a rodeia.
A "Estrada Real" e os guerreiros no nome
O topónimo Guifões carrega peso. Segundo a tradição local, descende do latim Guifones — "cavaleiros" ou "guerreiros" —, alusão à antiga posição estratégica junto da costa e do Leça. Elevada a freguesia a 28 de Maio de 1835 e integrada no concelho de Matosinhos desde 1836, cresceu como aglomerado piscatório e agrícola, beneficiando da proximidade do Porto e da linha ferroviária do Norte inaugurada em 1875. A reforma administrativa de 2013 diluiu-a na União das Freguesias de Custóias, Leça do Balio e Guifões, mas quem caminha pelo Largo Dr. Francisco Sousa percebe que a identidade não se dissolve por decreto. O chafariz de 1926, erguido ali para abastecer a população e regar os hortos familiares, continua de pé — já não serve água às casas, mas serve de âncora a uma memória colectiva que se recusa a evaporar. Ao lado, o coreto mantém a geometria de ferro de outra época, e nas tardes mais amenas alguém se senta no banco de pedra a tomar café.
Azulejo, ouro e a luz que entra pela nave
A Igreja Paroquial de Guifões, classificada como Imóvel de Interesse Público em 1982, é uma construção setecentista que guarda, na penumbra da nave, um retábulo barroco de talha dourada. A luz que entra pelas janelas laterais incide sobre o ouro em ângulos diferentes consoante a hora — ao início da manhã, o dourado parece frio, quase metálico; ao meio da tarde, aquece e ganha uma tonalidade de mel espesso. Os painéis de azulejo azul e branco do século XVIII nas paredes interiores completam a gramática decorativa, e o visitante que se detém sente o frio da pedra subir pelos pés, mesmo em dias de sol. A poucos minutos, a Capela de São Sebastião — classificada em 1978 — apresenta uma escala diferente: é um templo maneirista de proporções recolhidas, onde o silêncio parece ter mais peso. É esta capela que dá nome e sentido à principal festa de Guifões.
O pão que se parte em Janeiro
A Festa do Mártir São Sebastião acontece no fim-de-semana mais próximo do dia 20 de Janeiro, quando o frio húmido do litoral norte se instala nos ossos. Há missa solene, procissão pelas ruas da freguesia e a bênção dos pães — um gesto que culmina na distribuição do "pão de São Sebastião", folar doce que os fiéis partem e partilham entre si. O aroma a massa levedada e açúcar mistura-se com o ar gelado da manhã de Inverno, e esse contraste — o calor do forno contra o nevoeiro baixo — define o carácter da celebração. No Verão, a "Festa de Guifões" abre o espectro: arraial, tasquinhas, música popular e bailarico, com o Rancho Regional de Guifões, fundado em 1976, a apresentar os bailes tradicionais da zona costeira que leva a romarias por toda a região Norte.
Do Leça ao Atlântico, a pé ou sobre duas rodas
O Corredor Verde do Leça — percurso pedonal e ciclovia de doze quilómetros — atravessa Guifões e liga a freguesia ao mar, serpenteando por zonas ribeirinhas onde os caniços se dobram ao vento e os salgueiros mergulham ramos na água. É um percurso plano, acessível, que convida a uma cadência lenta. A praia mais próxima, Leça da Palmeira, fica a três quilómetros, mas o interior oferece o Parque das Varas, com lagos e equipamentos desportivos que servem as quase quinze mil pessoas da freguesia — uma população onde os maiores de sessenta e cinco anos (22,5%) superam em larga margem os jovens até aos catorze (11,8%), segundo os dados de 2021.
O Caminho da Costa de Santiago também passa por aqui, seguindo as margens do Leça até ao Atlântico. Os peregrinos que cruzam Guifões encontram um território de transição — nem campo aberto nem cidade consolidada —, onde ainda se avistam fachadas azulejadas na Rua da Igreja e, a pouca distância, o Parque de Material e Oficinas do Metropolitano do Porto, onde os comboios da linha violeta recolhem para manutenção desde 2005. Essa coexistência entre o vernacular e o industrial não gera atrito; gera textura.
Caldeirada, sardinha e os melindres do largo
A mesa de Guifões reflecte o rio e o mar que lhe ficam perto. Caldeirada de enguias do Leça, sardinha assada na brasa cujo fumo sobe em espirais densas, polvo à lagareiro e arroz de marisco compõem o repertório salgado. Nos doces, os melindres — folar de ovo leve e adocicado — e os canudinhos de doce de ovos prolongam a refeição. A proximidade com Leça da Palmeira permite ainda uma visita à Super Bock Casa da Cerveja, aberta em 2017, onde a cerveja artesanal acompanha petiscos de chouriço assado e moelas. Para quem viaja de transportes públicos, a estação de metro de Custóias, na linha B, fica a quinze minutos a pé do centro da freguesia — distância suficiente para sentir a transição entre o urbano e este lugar que ainda cheira a rio.
E é esse cheiro que fica: o da água do Leça a correr entre caniços, misturado com o do folar doce que alguém acabou de partir no Largo Dr. Francisco Sousa, junto ao chafariz de 1926 que já não mata a sede de ninguém mas continua ali, sólido, a marcar o centro exacto de um lugar que sabe onde começa.