Artigo completo sobre São Mamede de Infesta: entre o cruzeiro e o betão
Vinte e cinco mil pessoas vivem onde o matagal virou cidade sem apagar o passado rural
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O cheiro chega antes da imagem. Broa de milho a sair do forno, o vapor denso e adocicado que escapa pelas portas entreabertas das pastelarias da Avenida do Conde, misturado com o fumo azulado de um café de torradaria artesanal. Às oito da manhã, São Mamede de Infesta já pulsa — passos apressados na calçada, o ronco de autocarros, o arrastar de grades de comércio a abrir. Quase vinte e cinco mil pessoas vivem comprimidas nestes cinco quilómetros quadrados, uma das densidades mais altas de todo o concelho de Matosinhos, e no entanto, ao virar de uma esquina, entre dois prédios de quatro andares, aparece um cruzeiro de granito gasto pelo tempo, plantado ali como se a cidade tivesse crescido à sua volta sem lhe pedir licença.
O matagal que virou metrópole
O nome carrega séculos. "São Mamede" remonta ao culto do santo que se enraizou aqui no século XIII; "Infesta" evoca o matagal cerrado, a vegetação bravia que cobria este território antes de mãos humanas o domesticarem. A freguesia cresceu em torno da Igreja Matriz, alimentada pela fertilidade do solo e pela proximidade do Porto, que ficava ali ao lado — perto o suficiente para vender couves no mercado, longe o bastante para manter o ritmo da horta. Tudo mudou no século XX. A construção do Hospital de São João — cuja entrada principal fica, na verdade, em São Mamede de Infesta, embora a morada oficial diga Porto — e a expansão do Pólo Universitário da Asprela trouxeram milhares de pessoas. Em 2001, a antiga vila rural recebeu o estatuto de cidade, mas quem percorre o centro histórico ainda tropeça nos vestígios do que foi: casais de pedra com portais de granito, quintas senhoriais como a Quinta do Amial e a Quinta da Infesta, parcialmente conservadas entre o betão.
Azulejo, retábulo e um túnel para dias de chuva
A Igreja Matriz, de traça setecentista, é o coração silencioso deste organismo urbano. Lá dentro, a luz coada pelos vitrais incide sobre painéis de azulejo e um retábulo barroco de talha dourada que reluz com uma intensidade quase desproporcionada para o tamanho modesto do templo. Nos arredores, a Capela de Nossa Senhora da Conceição e os cruzeiros dispersos marcam uma cartografia devocional que a urbanização não conseguiu apagar. Mas o detalhe mais improvável esconde-se debaixo do chão: um túnel subterrâneo de pedra, construído no século XIX, que ligava a Quinta da Infesta à Igreja. Servia para processões em dias de chuva — os fiéis desciam à terra húmida e fria, caminhavam sob abóbadas de granito e emergiam junto ao altar sem uma gota nas roupas de domingo.
Na zona das Sete Bicas e do Chantre, palacetes do início do novecentos exibem fachadas com ferro forjado e cantarias lavradas, testemunhos de uma burguesia rural que prosperou entre vinhas e hortas. E no largo dos Bombeiros Voluntários, o edifício de 1953 — financiado pelo industrial e mecenas António Quelhas Lima — mantém a sobriedade geométrica do Estado Novo, com um pequeno museu que vale a visita.
Rojões, fatias doces e a sopa que se dá
A gastronomia de São Mamede de Infesta não tem denominação de origem protegida, mas tem raiz — literalmente. O caldo verde prepara-se com couve da região, cortada em tiras finas que se desfazem na boca. Os rojões à minhota chegam à mesa com papas de sarrabulho, acompanhados de broa de escaldão que ainda conserva o calor do forno. O bacalhau à São Mamede — no forno com batatas, cebola e um fio generoso de azeite — é conforto sem ornamento. Para fechar, as fatias doce de São Mamede, um folhado recheado com doce de ovos, comem-se com os dedos pegajosos e sem cerimónia, regadas com vinho verde do Vale do Ave. Na Festa do Mártir São Sebastião, a 20 de Janeiro, a tradição manda distribuir a "sopa da feira" e pães benzidos — gesto que transforma a rua em mesa comum.
Do Monte de São Brás ao Caminho da Costa
São Mamede de Infesta não é território de natureza selvagem, mas respira onde pode. O Parque Urbano, com trilhos pedonais e circuito de manutenção, acompanha a Ribeira de São Mamede desde a nascente até ao percurso que desce ao Rio Leça. Ao fim da tarde, o caminho florestal da Pedra Verde conduz ao Monte de São Brás, a cento e quarenta metros de altitude — o suficiente para que, ao entardecer, a luz rasante desenhe a silhueta da cidade do Porto contra o Atlântico, com as gruas do porto de Leixões ao fundo como dedos de metal apontados ao céu.
É também por aqui que passa o Caminho da Costa de Santiago. Os peregrinos atravessam a freguesia junto à Igreja Matriz, seguindo depois para Leça do Balio e Matosinhos, e é comum vê-los ao início da manhã, mochilas altas e bordões a bater na calçada, misturados com os habitantes que saem para o trabalho. Dois mundos no mesmo passeio — um que caminha por fé ou aventura, outro que caminha por rotina — e durante uns metros partilham o mesmo granito debaixo dos pés.
O coreto que veio de outro mundo
No jardim central, um coreto de ferro observa o movimento quotidiano. Não nasceu ali. Foi trazido da Exposição Colonial de 1934, transplantado como uma peça de museu para um largo de subúrbio, e ali ficou — a envelhecer com dignidade, a ferrugem a tingir-lhe os rebites de castanho-avermelhado. Nas noites de Agosto, durante a Romaria de São Mamede, é à volta dele que se acendem as luzes do arraial, que sobem os acordes dos concertos e que o fogo-de-artifício estala sobre os telhados. Em Dezembro, nas Festas de Nossa Senhora da Conceição, ranchos desfilam ao som de concertinas e o ar cheira a castanha assada e a cera de velas litúrgicas.
São Mamede de Infesta não pede que a descubram — pede que a atravessem devagar, com atenção ao que resiste entre as frestas do urbano. E se, ao partir, ficar alguma coisa, será talvez isto: o eco abafado dos passos naquele túnel de pedra sob a terra, onde alguém, há mais de um século, caminhou para a missa sem molhar os sapatos — e onde o granito ainda guarda o frio húmido de todas as procissões que nunca viram a chuva.