Artigo completo sobre Eiriz: Vinhas em Altitude e Festas de São Brás
Freguesia de Paços de Ferreira onde a indústria do móvel convive com vinhedos a 351 metros de altitu
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O cheiro a vinho verde em fermentação marca os dias de outono. Nas adegas familiares de Eiriz, as cubas de inox substituíram os velhos tonéis de madeira, mas o ritual mantém-se: provar o mosto ainda turvo, sentir no palato a acidez que se vai arredondar com o tempo. A 351 metros de altitude, esta freguesia de Paços de Ferreira respira ao ritmo duplo da indústria do móvel que domina o concelho e da vinha que teima em não desaparecer das encostas.
A densidade populacional ronda os 362 habitantes por quilómetro quadrado — números que escondem uma ocupação difusa do território, sem centro urbano denso. As casas espalham-se pelos 602 hectares em pequenos núcleos — Paradela, Eiriz de Baixo, Eiriz de Cima — ligadas por estradas estreitas onde o granito aflora nas bermas. Há mais idosos que crianças — 342 contra 310 — mas a diferença é ainda suave, indício de uma comunidade que não envelheceu tanto quanto outras do interior norte.
Devoção e calendário
Duas festas marcam o ano: São Brás (3 de fevereiro) e as Sebastianas (terceiro fim-de-semana de julho). A primeira celebra o santo protetor da garganta, invocado contra males respiratórios — devoção que faz sentido num território de invernos húmidos e nevoeiros que sobem do vale do Sousa. As Sebastianas, por sua vez, perpetuam o culto a São Sebastião, mártir romano que a tradição popular transformou em guardião contra pestes e epidemias. Ambas as festividades reúnem a freguesia em procissões que partem da Igreja Matriz de Eiriz, construída em 1869 sobre uma capela medieval, missas cantadas pela coral local fundada em 1978, e convívios que se estendem pela ribeira abaixo quando as braseiras ainda fumegam nos adros e os últimos foguetes ecoam nas encostas.
Vinhos verdes e capão de Freamunde
A Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se até aqui desde 1908, trazendo consigo a cultura da vinha conduzida em ramada alta — técnica que os agricultores locais chamam "pergola" — ou em espaldeira moderna introduzida nos anos 1990. Os vinhos são brancos, frescos, ligeiramente efervescentes — bebida de verão que pede o pescado do rio Ferreira ou um arroz de feijão branco das hortas de Paradela. Nas mesas locais, porém, o destaque vai para o Capão de Freamunde IGP, ave de capoeira criada em regime tradicional na freguesia vizinha mas que se transformou em estandarte gastronómico de todo o concelho desde que recebeu a indicação geográfica protegida em 1996. A carne é firme, o sabor intenso, resultado de 150 a 180 dias de criação lenta e alimentação baseada em milho produzido nas terras baixas. Assa-se inteiro no forno a lenha, acompanhado de batata regada com o molho que os locais chamam "rancho" — prato de domingo que exige quatro horas de preparação e que os restaurantes de Paços só servem mediante reserva.
Paisagem industrial e rural
O território de Eiriz não se compreende sem a indústria do móvel que fez de Paços de Ferreira a "capital do móvel" em Portugal desde os anos 1960. As serras eléctricas zumbem nas oficinas que ocupam antigas casas de habitação no lugar de S. Cristóvão, o cheiro a verniz da Akzo Nobel mistura-se com o do thinner nas zonas industriais de Eiriz de Cima, camiões carregados de estofos da empresa Jomar cruzam-se diariamente nas rotundas da EN106 que liga Porto a Vila Real. Mas entre as naves industriais persistem os campos de milho semeados em abril e colhidos em setembro, as hortas muradas onde se cultiva o feijão verde "da terra" entre maio e junho, os lameiros de Paradela onde ainda pastam 18 vacas da raça mirandesa. É uma ruralidade intersticial, que ocupa os espaços deixados livres pela expansão fabril — nem campo puro, nem cidade, mas uma geografia híbrida onde o tractor da cooperativa Agrícola de Eiriz e a empilhadora da empresa Moveis Silva dividem a estrada municipal 1041.
A única unidade de alojamento registada é a Casa da Cerca, antiga casa de campo recuperada em 2018, sinal de que Eiriz não aposta no turismo mas antes na vida quotidiana: quem aqui pernoita vem visitar família ou trabalhar nas fábricas próximas. Não há miradouros assinalados, monumentos classificados ou percursos pedestres promocionados — apenas o caminho de terra que sobe ao monte do Fogo, onde se avista toda a freguesia e onde, dizem os mais velhos, se podia ver o oceano em dias muito limpos antes da poluição industrial. A experiência do lugar faz-se pela imersão no seu ritmo duplo — o apito da Moveis Costa ao meio-dia, o sino da igreja ao fim da tarde às 19h30, o fumo que sobe das chaminés quando a noite esfria e cada casa acende a sua lareira com carvão produzido nos fornos da freguesia vizinha de Freamunde.
O som mais característico de Eiriz não vem do passado: é o zumbido surdo das serras mecânicas da empresa Jomar que funciona 24 horas por dia misturado com o canto dos galos que ainda resistem nos quintais de Eiriz de Baixo. Duas frequências que coexistem, sem síntese possível, na mesma paisagem de granito e betão onde a pedra de Ancora, extraída nas pedreiras locais desde 1953, serve de base às fundações das próprias fábricas que transformam pinho nórdico em móveis para exportação.