Artigo completo sobre Ferreira: onde o ferro bateu e o vinho verde cresce
Freguesia de Paços de Ferreira preserva memória das forjas medievais entre vinhas do Vale do Sousa
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O cheiro a lenha mistura-se com o som metálico de uma bigorna distante. Ferreira acorda cedo, como sempre acordou, num ritmo que não se mede em horas de relógio mas em tarefas cumpridas. A 338 metros de altitude, no coração do Vale do Sousa, esta freguesia de 4244 almas mantém no próprio nome a memória de forjas antigas — "Ferreira" vem de "ferreiro", e aqui o ferro bateu durante séculos, transformando-se em enxadas, em pontas de ariete, em ferramentas que ainda hoje se encontram nos fundos das garagens.
As origens medievais revelam-se nos papéis do século XIII, quando já se falava na "villa ferreira" como quem fala na mercearia da esquina. Mas só em 1958 é que lhe deram o papel de freguesia, como quem finalmente decide casar com quem já vivia por casa há anos. Hoje, há 594 jovens e 588 idosos — números que fazem os sociólogos sonhar e os cafés manterem duas gerações de à-vontade no balcão.
Entre a bigorna e a vinha
A paisagem é um tapete de verde que se estica até ao olhar cansar. Vinhas baixas, do tipo que se pode saltar sem magoar as canelas, desenham as encostas. Ferreira está dentro da região dos Vinhos Verdes: o branco é ligeiramente efervescente, serve-se à temperatura da cave e acompanha o que o dia trouxer. Nos quintais, as ramadas fazem sombra aos netos e promessa de uvas ao avô.
Na mesa, o rojão marca territory: leva colorau que te tingia as mãos de pequeno e ainda hoje te lembra a avó. A sarrabulho é preta como café feito três vezes e espessa como promessa de político. O arroz de cabidela guarda o segredo das galinhas que correram mesmo capoeira. O cozido à portuguesa aparece aos domingos, fumegante, com enchidos do fumeiro que pendem ao lado da lenha. E há o Capão de Freamunde — IGP, sim senhor — que vale o desvio: carne tenra que se desfaz no garfo e manteiga que escorre para o molho.
Festas que não se esquecem
Quando chega a Festa de São Brás (03 de fevereiro) e as Sebastianas, a freguesia tira o avental e põe a fita. As ruas enchem-se, a banda toca marchas que toda a gente sabe de cor, e o cheiro a chouriça-assada-no-pão faz concorrência ao incenso. Depois da procissão, conversa-se até o último copo de vinho verde pedir conta. Doces conventuais — papos-de-anjo, toucinho-do-céu — aparecem nas pastelarias junto ao pão-de-ló húmido, pronto para ser partido com a neta antes dela ir para a faculdade.
Memória no presente
Há apenas um monumento classificado, mas riqueza nunca foi sinónimo de estátua. São cinco alojamentos — moradias e quartos — onde te tratam pelo primeiro nome e te deixam a chave como quem diz "entra e sai à vontade". O ferro já não bate, mas o nome fica, tatuado na rotunda de entrada. Quando o sino toca ao fim da tarde, ecoa pelos 674 hectares, encontra as vinhas, sobe as ruas estreitas e diz apenas: "Ainda cá estamos."